João Semedo: «Não sou dado a medos»


Pedro Correia,

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«Acredito que a Terra pode ser um paraíso»

 

De poucos políticos que conheci posso dizer que tenho saudades. Um deles é João Semedo: conheci-o desde os tempos em que ele ainda militava no PCP, partido que abandonou em 2002, protestando contra a falta de democracia interna. Quando lhe fiz esta entrevista, era deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Respondeu como sempre: afável, cordato, gentil. E com as ideias muito bem arrumadas. Faleceu cedo de mais, a 17 de Julho de 2018.

 

Tem medo de quê?

Não gosto de alturas, nem de espaços fechados. Mas não sou dado a medos.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Gosto de chegar a casa e de encontrar rostos familiares.

A sua bebida preferida?

Sumo de maçã.

Tem alguma pedra no sapato?

Não.

Que livro anda a ler?

Ando a ler o livro do juiz Carlos Moreno, Como o Nosso Estado Gasta o Nosso Dinheiro.

E que tal?

É muito útil para quem anda a analisar o Orçamento do Estado. Ajuda a organizar ideias.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

Normalmente não consigo ler um só livro: vou lendo dois ou três ao mesmo tempo.

De géneros diferentes?

Sim. Vou alternando os géneros conforme a disposição de cada momento. Mas faço sempre questão de ler um livro até ao fim. Sou muito persistente.

Tem um género literário preferido?

Gosto mais de prosa do que de poesia. O meu poeta favorito é Mário de Sá Carneiro. Mas o meu género preferido é a ficção – romances históricos, por exemplo. Normalmente, como se compreende, também leio muitos livros de ciência política.

A sua personagem de ficção favorita?

Corto Maltese.

Por algum motivo especial?

Identifico-me de alguma forma com a personagem.

Rir é o melhor remédio?

Um médico nunca pode responder afirmativamente a esta pergunta. Mas a boa disposição ajuda a vencer todas as maleitas.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Julgo que terá sido quando o meu pai morreu.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Na estrada, gosto de ser eu a conduzir. Na cidade, pelo contrário, gosto de ser conduzido.

É bom transgredir os limites?

Não sei se é bom ou mau: sei que muitas vezes os transgrido

Porque tem de ser?

Sobretudo por desatenção.

Qual é o seu prato favorito?

Bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, com molho de manteiga e alho.

Qual é o pecado capital pratica com mais frequência?

A gula. Sou guloso.

A sua cor preferida?

Vermelho.

No futebol também?

Também. No futebol, na política e na vida.

Costuma cantar no duche?

Tenho uma péssima voz. Não só para cantar mas também para falar. Sou um desafinado nato.

Na Assembleia da República ajuda ter uma boa voz?

Ajuda. Mas por vezes as boas vozes servem apenas para embrulhar melhor as más ideias.

E a música da sua vida?

Saudade, dos Trovante. É uma canção de que gosto imenso.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

O hino nacional faz parte da nossa história. O País não beneficiaria nada com a alteração do hino.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

Temos uma história que carregamos aos ombros. A bandeira faz parte da nossa história. Deve ficar assim.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Dilma Rousseff.

As aparências iludem?

Totalmente.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Ser apenas um cavalheiro.

O que é que uma verdadeira senhora nunca faz?

Privilegiar a forma ao conteúdo.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Casacos.

O seu maior sonho?

Indiscutivelmente, ter um verdadeiro Governo de esquerda em Portugal.

E o maior pesadelo?

Os mercados financeiros.

O que o irrita profundamente?

A hipocrisia.

A melhor forma de relaxar?

Ler um livro.

O que faria se fosse milionário?

Não imagino sequer essa hipótese.

Casamentos gay. de acordo?

Sim. Propus a lei e votei-a.

Uma mulher bonita?

Catherine Deneuve.

Acredita no paraíso?

Acredito que a Terra pode ser um paraíso.

Tem um lema?

Não tenho um lema de vida. Mas gosto muito do lema do Benfica: todos por um e um por todos. É uma expressão de solidariedade.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (6 de Novembro de 2010)

15 comentários em “João Semedo: «Não sou dado a medos»”

  1. Concordo com a sua opinião sobre este senhor que sempre admirei. No post, a primeira data está distraída:)
    Bom domingo

  2. Era um Senhor!
    Hoje o Bloco de Esquerda com a Catarina sardinha e as manas carapau parece uma caldeirada mal amanhada.

    1. Pelo menos uma ” mana carapau”,tem mostrado juntamente com outros deputados( muito bons), “as caldeiradas muito bem amanhadas” de certas figuras do nosso País…

  3. Os últimos anos levaram duas estimáveis personalidades ligadas ao Partido Comunista: João Semedo e Rúben de Carvalho. Duas pessoas educadas e, genuinamente, tanto quanto se pode ter a certeza destas coisas, preocupadas com o país.

    1. Concordo, Isabel. Conheci ambos e partilho da sua opinião. Com uma diferença entre ambos: Rúben manteve-se comunista até ao fim, enquanto João Semedo cortou com o PCP, em ruptura com o sectarismo e a intolerância que testemunhou no funcionamento do partido. Foi uma decisão dolorosa, pois grande parte dos seus amigos estavam lá, mas profundamente consciente e ponderada. Acompanhei esse processo, sei bem do que falo.

      1. Sim, é uma diferença de relevo e acredito que deva ter sido bem difícil para João Semedo (como aliás para tantos que passaram por esse processo). Mas limitei-me a conhecê-los dos debates televisivos e admito que tendia a simpatizar mais com Rúben de Carvalho pelo sentido de humor.

        1. Concordo consigo. Ruben de Carvalho era um homem dialogante, bem humorado e de vasta cultura – direi mesmo, de cultura enciclopédica, sobretudo musical. Era um prazer conversar com ele.

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