Fascinação por Portugal


Cristina Torrão,

Nos meus primeiros anos, na Alemanha, dei aulas de português a alemães. Não havia muitos a quererem aprender a nossa língua (nada que se comparasse com o castelhano, que chegava a superar o próprio inglês), mas a maior parte dos interessados possuía uma verdadeira fascinação por Portugal, que aliás passava muito pelo cliché de que a vida nos países do Sul era mais despreocupada, sempre com bom tempo, etc. Quando eu dizia que em Portugal se rapava muito frio, no Inverno, olhavam-me como se eu tivesse dito que vinha de Marte.

Muitos me perguntavam que estava eu a fazer na Alemanha, sendo natural de um país tão maravilhoso. Eu alegava haver ali melhores condições económicas, além de mais conforto no Inverno, ao que os alemães replicavam o dinheiro e as comodidades não serem tudo na vida. E eu pensava que só se podia dar ao luxo de julgar assim quem nunca tinha tido preocupações monetárias, nem tentado escrever, numa sala de aula, com as mãos geladas e a doer, apesar das luvas, e tendo dificuldade em ver a ponta da caneta devido ao cachecol grosso enrolado ao pescoço.

Enfim, o que me traz aqui, hoje, é o motivo de fascinação por Portugal mais surpreendente que ouvi. Ele era médico, ia a caminho dos quarenta e via o nosso país como uma espécie de terra mágica. Um dia, eu quis saber o motivo e o homem saiu-se com uma resposta totalmente inesperada:

– Foi o Otelo!

Quedei-me perplexa. O único Otelo que ligava a Portugal era o da revolução, acontecida havia cerca de vinte anos. Mas que tinha aquele alemão a ver com o 25 de Abril, um alemão que, mesmo depois de bastantes aulas, tinha dificuldades em construir as frases mais simples no idioma de Camões? Só podia ser outro Otelo…

Ocorreu-me a peça de Shakespeare. Haveria algo no enredo que pudesse explicar tal devoção? Shakespeare e Portugal? Nada me constava, mas confesso que estava (e estou) mais familiarizada com Hamlet, Romeu e Julieta, Ricardo III e até com uma bastante desconhecida, António e Cleópatra, que fez parte do meu curso universitário.

Receei parecer ignorante e inquiri cautelosa:

– Disse Otelo?

– Sim, o da vossa revolução.

– Otelo Saraiva de Carvalho?

– Esse mesmo! – Os olhos brilharam-lhe. – Nunca consegui dizer o nome completo. Ensine-me lá!

Repeti o nome, tão simples para nós portugueses, mas que põe a língua de um alemão atrapalhada. Saraiva tem um ditongo (terror alemão) e Carvalho, na melhor das hipóteses, é pronunciada cárfálio.

De qualquer maneira, nunca me passara pela cabeça que, em meados dos anos 1990, um alemão, que não percebia patavina de português, soubesse quem era Otelo Saraiva de Carvalho!

– Mas de onde o conhece?

– Dos comícios.

– Comícios? Ela não faz comícios há muito tempo…

– Mas fazia muitos em 75.

– Esteve em Portugal nessa altura?

– Estive, claro.

– E assistiu a comícios sem saber falar português?

– E é preciso saber português para uma pessoa se entusiasmar num comício do Otelo?

Procurava uma resposta à altura:

– Bem… não sei… era ainda criança.

– Eu tinha dezassete anos, quando ouvi falar no ambiente revolucionário que se vivia em Portugal. Abalei com um grupo de amigos. Foram dos melhores meses da minha vida! Arranjámos trabalho ligado à Reforma Agrária, depois de fazermos amizade com gente que igualmente nos guiava de comício para comício. Nunca mais me hei de esquecer de um, em Lisboa, com Otelo. Tive a sorte de ficar muito perto do palanque. O homem era incrível! O seu entusiasmo, a sua convicção… Mesmo sem entender patavina, fiquei maravilhado.

 

Otelo Saraiva de Carvalho.jpg

Otelo Saraiva de Carvalho

*31-08-1936

†25-07-2021

56 comentários em “Fascinação por Portugal”

    1. Otelo é um personagem… como dizem, polémico e complexo.
      Fosse de outra cor era um facho assassino. Siga a festa.

      1. Os crimes das FP 25 de Abril foram julgados. Os da PIDE, não. Os da Rede Bombista, não. (Os da Guerra Colonial também não.) E você… é um covarde (que se esconde no anonimato para mandar umas bocas). Não se sente um monte de (…)?!

    2. Na Guerra Colonial, seu…?! (Eu sei que você se está a referir às FP 25 de Abril.) Ainda depois do 25 de Abril houve mortes que nunca chegaram a julgamento. Tenha vergonha na cara.

  1. Um belo texto, como se lhe oferecesse um cravo vermelho.
    Provavelmente, se o Otelo tivesse reparado nele, lhe teria dito: ó pá, percebes-te?
    Outros, por cá, não passam de um ‘o que é que ele ganhou com aquilo?’.

  2. A melhor homenagem que já li a Otelo Saraiva de Carvalho. Eu que sou portuguesa de gema e não assisti presencialmente a nenhum comício, sempre lhe encontrei a força comunicativa de um revolucionário nato. É que nada lhe assenta tão bem como uma revolução. E ajudou a fazê-la, sim senhor. Mas conheci-o junto a uma fotocopiadora, um casaquinho de malha vestido, muito caseiro.

  3. É o Otelo, a pedrinhas da calçada e as cuecas das varinas penduradas à janela. É muito típico. E muito pobre. Os estrangeiros gostam disso tudo.

    Eu dispenso essas três coisas, preferia liberalismo e riqueza.

    1. O V. não tem a noção do ridículo, ou de que é ridículo.
      Quer dizer que só sente bem a passear na Wall Street (NY), e os de lá a dizer ‘this jerk thinks the buildings are very funny’.

  4. bonito.
    E jovem. Jovens rumavam e instalavam-se em lugares onde a revoluçao acontecia. Curiosos. Mas tambem emocionados.

    Náo faço contas, digamos que nao consigo, mas tinha menos de 17, e ansiei sair do trabalho para logo me deslocar para a sala de visitas da cidade.

  5. amo o 25A ! E Otelo é seu simbolo, agora nao fisicamente vivo.

    E o facto é que portugal nao voltou a ser amordaçado. Nem o ministerio da educaçao e da saude conseguiram” tratar ” os que conspiraram e mais doentes saudosistas quanto derrotados.
    A democracia perdura , e a azia tambem …

  6. Simples e sintético, é alguém que começou do lado certo da história mas, ou por ambição de poder ou cegueira de vingança, rapidamente passou para o lado errado. Haverá sempre uma dívida de gratidão pelo primeiro momento e um sentimento de repúdio pelo segundo. Ambos legítimos e mais do que justos.

  7. Hoje respira-se melhor. Há menos um poluente à face da Terra! Só tenho pena que o dia tenha chegado com anos de atraso.

  8. Bonito texto de homenagem.
    Porém, ao contrário do seu aluno – fascinado pelo político, faceta em que é muito controverso – permita-me que destaque o militar. E perante este militar, o estratega de Abril, que nos permitiu viver hoje liberdade, curvo-me, neste dia de S. Tiago.

  9. “(…)
    Moçambique, anos 40. Cumprindo ordens da mãe, Otelo leva o empregado doméstico da família à administração do concelho. Ao lavar a loiça, o rapaz partiu um copo, e portanto tem de ir ao sipaio levar umas palmatoadas nas mãos.

    “Não vais nada. Eu não te levo lá”, diz, pelo caminho, Otelo ao criado, que é mais velho do que ele.

    “Mas eu tenho de aparecer com as mãos inchadas.”
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    https://www.publico.pt/2009/04/24/sociedade/noticia/se-isto-nao-e-um-heroi-1376370

    “Ó pá, sei lá, esfrega-as com urtigas.”

    Otelo é amigo do criado, bem como dos outros miúdos negros do bairro onde vive, em Lourenço Marques, e com quem costuma jogar futebol. Mas se o criado se desleixa no trabalho, ou bebe uns copos a mais, é submetido a formidáveis sessões de pancada do pai de Otelo.

    “De repente, aquela fraternidade que existia num jogo de futebol de rua transformava-se num distanciamento, quando o preto tinha de levar uns tabefes, ou um arraial de batatada”, recorda Otelo. E quando punha em causa o racismo vigente, respondiam-lhe que na África do Sul ainda era pior. Para o confirmar, meteu-se num comboio e viajou, durante 18 horas, até Joanesburgo. Tinha 17 anos. “Era chocante. Havia filas para europeus e para não-europeus. Em Moçambique o racismo era semelhante, embora mais encapotado.”

    Otelo tornou-se rebelde. Só pensava em fugir, em libertar-se. No liceu, admirava um grupo de colegas mais velhos, de que faziam parte os irmãos Fernando e José Gil, Eugénio Lisboa, Hélder Macedo, Rui Knopfli, Rui Guerra. Eram brilhantes, gostavam de classificar o liceu Salazar como “o maior centro intelectual comunista da África Austral”, e costumavam reunir-se em casa do Fernando Gil, para discutir política. Por essa razão, começaram a ser presos e interrogados pela PIDE, que rondava o liceu. Otelo não se conformava. Adolescente, tentou visitar os amigos na prisão. Mas não o deixaram entrar. (…)”
    in https://www.publico.pt/2009/04/24/sociedade/noticia/se-isto-nao-e-um-heroi-1376370

  10. Mais um alemão, com pouca coisa na cabeça, provavelmente, e que gostaria de viver na miséria da rda e que agora andará a votar nos verdes ou no linke.

    1. Há muito poucos alemães que elogiam a RDA. Normalmente, são saudosistas, antigos cidadãos dessa Alemanha de Leste, que, por algum motivo, têm dificuldades em lidar com a democracia. Ainda não conheci ninguém que tivesse vivido sempre na RFA que elogie a RDA. Quanto ao homem referido no texto, não faço ideia se ele terá vivido na RDA. Na altura que o conheci, residia em Hamburgo.

  11. Há várias histórias sobre o otelo, umas sobre um miúdo de 17 anos que vem para portugal fumar umas brocas e assistir a um processo revolucionário em curso, que não gostava, outras histórias é sobre o assassinato desta personagem de pais, filhos, netos e/ou avós, só porque pensavam diferente dele, acho que diz mais dele próprio quem escolhe o tema… revolucionário ou assassino!

    1. Sim, é bem possível que as brocas tenham ajudado o tal jovem a ter essa impressão de Otelo. Foi um deslumbre de juventude, sem dúvida.

      De qualquer maneira, impressionou-me encontrar, num país onde praticamente ninguém conhecia o 25 de Abril, alguém a falar de Otelo. Hoje é mais Ronaldo…

  12. Muitos estrangeiros vieram ver o que ia dar “o espectáculo” principalmente nas ocupações agrárias,

    O que os franceses, espanhóis e alemães e ingleses gostavam de ver “a terra a quem a trabalha” com tanta gente de foice e enxada na mão!

    Mas que gozo!

  13. Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho era professor na Academia Militar imediatamente antes do 25 de Abril e este facto constitui só por si reconhecimento do seu valor. Oficial de Artilharia, talvez nunca tenha disparado um único tiro em combate durante as suas comissões no palco das guerras ultramarinas.

    Indigitado pelos seus camaradas para delinear um plano operacional e comandar as operações do 25 de Abril, sem sequer ter conhecimento anterior do que se passava porque afastado dos meios operacionais, acho que nunca saberemos as verdadeiras razões de tal facto colocando-se várias hipóteses:
    a) era o melhor para o efeito
    b) era quem se mostrava mais fácil de convencer a assumir a responsabilidade
    c) ambas as anteriores
    d) não era o melhor, mas nenhum dos outros queria assumir a responsabilidade caso as coisas dessem para o torto, como tinha acontecido com a tentativa anterior de 16 de Março de 1974 (relembrar aqui palavras de Salgueiro Maia a propósito: «À falta de melhor motivo e no mínimo dos casos a acção [de 25 de Abril] seria desencadeada para libertar esses homens [presos a 16 de Março].»

    Em todo o caso, o plano operacional e o comando de Otelo Nuno mostraram-se eficazes, mas os rasgos tácticos e a valentia de Salgueiro Maia quando enfrentou sozinho (com duas granadas nos bolsos) a coluna de blindados proveniente de Lanceiros 1 foram determinantes para o sucesso da operação. O poder de fogo dessa coluna de blindados era suficiente para aniquilar em 5 minutos a força comandada por Salgueiro Maia que ocupou o Terreiro do Paço e que só dispunha de munições para as G3.

    Tal como Salgueiro Maia, que depois de cumprida a missão recolheu à Escola Prática de Cavalaria e nunca mais se ouviu falar dele, também Otelo Nuno deveria ter recolhido à Academia Militar depois de cumprida a missão. Porém, o turbilhão da vida, um certo auto-encantamento e a influência perversa e determinante de Isabel do Carmo não o terão permitido, tendo passado Otelo Nuno a não ser ele e a sua circunstância, mas mais a sua circunstância do que propriamente ele.

    A minha homenagem merecida à memória de Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho termina assim em Abril de 1974.

    1. O caso do Salgueiro Maia é pouco comparável, vejamos Eanes, Pires Veloso, Soares Carneiro, Pinheiro de Azevedo, Galvão de Melo e é só escolher mais uns tantos.

  14. A mim não me ocorre dizer nada sobre o homem. Mas a esquerda deve estar num tremendo dilema, na escolha do lugar onde colocar o seu herói: no Panteão ou estampado em T-shirts (à Che)?
    Dúvida metafísica…

  15. Otelo, à altura, foi “A ESTRELA”, ponto final!
    A vida mostra-nos, com os anos, com a nossa visão do mundo, que não há “estrelas sem senãos”… -toda a estrela brilha momentaneamente, tudo tem seu tempo.
    Otelo foi «o» que, em Portugal fez uma revolução só com cravos e cânticos, fez-nos cantar e chorar e alívios, a muitos de nós, fez-nos poder escrevinharmos muitas “coisas e loisas” nas redes sociais, sem que ninguém pudesse vir impedir e fez com que a rapaziada deixasse de ir para a guerra, a nossa querida “rapaziada” – irmãos, filhos, noivos, primos, sobrinhos – fez com que os nossos jovens deixassem de ser «carne para canhão!».
    Viva Otelo! Levas para sempre a nossa admiração pelo teu entusiasmo, pela tua autenticidade!
    Hoje em Portugal, contam-se pelos cinco dedos de uma mão, as pessoas de fibra e autênticas, e que estejam aptas a comandar seja o que for…

  16. Saraiva tem um ditongo (terror alemão)

    !!!

    Em alemão há muitas palvras com ditongos, em particular o ditongo “ai” é frequentíssimo.

    1. “ai”, não! “ei” (que se lê como “ai”)
      Também há o ditongo “eu”, que se pronuncia “oi”.
      São excepções. Os alemães, normalmente, separam as vogais, mesmo as que surgem seguidas. Têm, por exemplo, muita dificuldade em dizer “eu”, quando aprendem português, dizem sempre EU, como se estivessem a falar da União Europeia. “Saraiva” é pronunciado “Zara-í-fa”.

      1. “ai”, não! “ei” (que se lê como “ai”)

        Pode ser “ei” ou “ai” ou “ay”. Por exemplo, Kai Mayer.

      2. “Saraiva” é pronunciado “Zara-í-fa”.

        Sim, se ninguém ensinar como se lê. Mas se alguém ensinar, o único som na palavra que é difícil para um alemão pronunciar corretamente é o “r” suave.

        1. O único?
          Nunca ouviu um alemão a tentar pronunciar o meu nome.

          Dei aulas a alemães durante três anos e meio e o meu marido alemão aprende português há mais de trinta anos. Eu poderia escrever um livro sobre as dificuldades dos alemães a aprender português.

  17. Parece-me que há comentários que pressupõem desconhecimento do que é a actividade militar e o papel da guerra na História.
    Inúmeros militares portugueses, que hoje são tratados com respeito por terem altas patentes ou ocuparem altos cargos, mataram ou mandaram matar na Guerra Colonial. Se chamarmos a todos assassinos (como alguns querem fazer com Otelo) estamos cheios de assassinos de aspecto altamente respeitável. Para muitos parece que os mortos que sejam pretos não contam como mortos a tiro. Por isso se diz que houve cerca de 10.000 mortos na Guerra Colonial. Houve mutíssimo mais. Muitos militares portugueses mataram e mandaram matar prisioneiros a sangue frio. Mas há quem reserve o título de assassino para Otelo e não para os outros. Alguém se preocupa com os mortos que houve nas ex-colínias por acção, directa ou indirecta, de Otelo? E que terá feito Eanes e asco Lourenço? E Pires Veloso? E outros,. Andavam na Guerra Colonial feitos santinha nos?? A História da humanidade até aqui é feito de guerras. Quem são os adorados como heróis?

      1. “Excelente comentário.”
        Não sei se é excelente. Poucos terão essa opinião.
        Mas sei que há muitos que não percebem (ou fingem não perceber) o que é a guerra e o papel da violência na História. Se Otelo é classificado como assassino por causa das FP25, a maior parte dos respeitadíssimos oficiais (repeitadíssimos pela esquerda e pela direita e que aparecem engravatados na TV) devem ser classificados como assassinos e torturadores da pior espécie.
        Acho que cada um hoje interpreta como lhe convém segundo as suas convicções políticas.

      2. Pelo critério do João e do Balio que corroborou , então também devemos ser “compreensivos” com os crimes cometidos pelo anterior regime. É que pelos vistos, se ambos os regimes têm os seus “esqueletos”… o critério deverá ser o mesmo, ambos devem ser perdoados. Não há dois pesos e duas medidas. Nos respectivos contextos, ambos consideraram “danos colaterais”, necessários, em nome de um bem maior. É isso que se pede, que devemos contemporizar?

  18. Eu passei umas férias na região de Berlim (Berlim, Spreewald e montanhas Harz) e os alemães achavam muito caricato haver portugueses a fazer férias na Alemanha. Porquê, perguntavam eles… 🙂
    Quanto ao fascínio pelo Otelo, os jovenzinhos ociosos europeus, sobretudo franceses e alemães, achavam muito interessante viver revoluções. Não era alemão o realizador do famoso documentário sobre a ocupação da herdade da Torre Bela? Esse seu aluno tem saudades da loucura da juventude. 😉

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