Palheiro já existe, só falta a agulha


Pedro Correia,

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Na hora de gerirem participações empresariais com dinheiro emprestado, não se fazem rogados: é tudo à grande. Mas quando chega o momento de prestar contas, com o país de holofotes colocados apontados para eles, começam a gaguejar, têm súbitos lapsos de memória, fazem de conta que não é nada com eles. São “empresários” que nada empreendem e “gestores” que mal sabem gerir seja o que for: durante anos viveram de créditos sobre créditos, beneficiando de uma banca complacente, que emprestava primeiro e só pedia garantias depois. Como se adivinhassem, uns e outros, que no final do túnel, já sem luz, o Estado serviria de bóia de salvação. Com os contribuintes portugueses a pagar este buraco sem fundo.

Se algum mérito tem a comissão parlamentar de inquérito aos grandes devedores do Novo Banco (NB) é este: pôr ainda mais a nu as debilidades estruturais do nosso sistema financeiro, fazendo desfilar no palácio de São Bento alguns dos maiores responsáveis, directos e indirectos, pela derrocada de grupos empresariais que se alimentavam dos balões de oxigénio do BES antes de também este entrar em coma.

 

Não têm faltado intervenções patéticas. Mas nenhuma excedeu em desfaçatez a de Luís Filipe Vieira, que se diz muito espantado por ser o segundo maior devedor do NB – como se tivesse sido o último a saber – e sugere estar a ser perseguido por ser presidente do Benfica. Como se isto não lhe servisse de circunstância atenuante.

Basta recordar que em Outubro o primeiro-ministro António Costa e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, aceitaram integrar a Comissão de Honra da sua recandidatura à liderança do clube encarnado. E que durante anos o actual presidente do Banco de Portugal, então ministro das Finanças, se sentava ao lado dele na tribuna principal do estádio da Luz – o mesmo Mário Centeno a quem, por ironia do destino, Vieira agora lança farpas envenenadas. Algumas de péssimo gosto, como quando confessou aos deputados, nesta segunda-feira, que gostaria de vê-lo “enforcado”. Por dizer algo com muito menos gravidade num estádio de futebol qualquer membro do plantel do Benfica receberia cartão vermelho e seria punido com vários jogos de suspensão.

 

Como é possível o empresário Vieira ter chegado a acumular dívidas de mais de 410 milhões de euros a uma instituição hoje comprovadamente descapitalizada e ainda por cima agir como virgem ofendida, como se fosse ele o credor? Por que tortuosas vias se movimenta alguém que declara apenas possuir em nome próprio um palheiro com logradouro enquanto se gaba de gozar “uma boa reforma” e prescinde até de remuneração no exercício da presidência da SAD do Benfica? Como é que o autoproclamado “homem do povo” degenera em campeão do calote?

Demasiadas perguntas ainda sem resposta. Se levarem esta missão a bom porto, doa a quem doer, os deputados contribuem para combater o pior dos populismos. E restituem alguma decência à vida pública portuguesa. Mas a missão que têm pela frente não é fácil. Palheiro, já existe. Agora falta lá encontrar a agulha.

22 comentários em “Palheiro já existe, só falta a agulha”

  1. Além de Costa e Medina, também o presidente da câmara municipal do Seixal estava na paradoxal comissão de honra de Vieira. Esta presença do comunista Joaquim Santos passou por entre os pingos da chuva mas não devia.

  2. Mas ele quer pagar…

    Mais um tuguismo, à imagem do super-escândalo de Odemira. Durante anos a Banca, BEs e CGD à cabeça, eram mealheiros de empresários que queriam “investir”, fosse em negócios, fosse no mercado de capitais. Garantia, o seu cv e palavra chegavam. Agora tudo indignado porque há meia dúzia de espertos que se abotoaram com uns milhões, geraram zero, e não têm como pagar.
    Não pude acompanhar as festividades, o deputado-justiceiro esteve na comissão a apertar o empresário-lampião? Ou andava preocupado com um preto que recebe 600€/mês sem merecer?

  3. Mais uma pedrada no mito que é somente o mérito e a inteligência que leva à acumulação de grandes fortunas.
    Se estes tipos fossem honestos eram pobres, assim são empreendedores num país em que os que “colaboram” para eles ganham acima das suas possibilidades.
    Depois de anos a incensar e a louvar os nossos magnatas da banca, a tal que era “séria, segura e confiável”, eis que a nossa direita descobre que afinal não era.

    1. Direita? Qual direita?
      Vieira é apoiante notório da CDU e tem relações muito estreitas com a Câmara comunista do Seixal, sempre teve.
      Não a CDU alemã, mas a portuguesa. Que não é de “direita”, tanto quanto sei.

    2. Ó jo, as grandes fortunas arranjam-se com o dinheiro dos outros.
      Os banqueiros emprestam dinheiro dos depositantes, o industrial ganha dinheiro com os custos da mão de obra, o comerciante ganha dinheiro com a compra barata ao produtor e o grande agrário ganha dinheiro com mão de obra quase escrava ou com uma máquina que substitui dezenas de trabalhadores sem pagar ao manobrador o salário do das dezenas e vender ao comerciante a preço mais baixo.

      1. O “empresário” tipo, raramente utiliza recursos próprios.
        Banca entra, com pecúnia – e há sempre via d subsídio, pedinchado.

        A final – o que é preciso é saudinha….

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