
Não concordo com a alegação de que a classe dos arquitectos seja a mais estúpida de todas. Quem defende semelhante proposição apresenta edifícios brutalistas para exemplo e não acrescenta, mas podia acrescentar, que ainda a população atónita estava mal refeita de monstros totalitários de betão cheio de bolor e vigas de ferrugem, e já estava a ser submergida por edifícios concebidos ao abrigo de doutrinas obscuras como o expressionismo estrutural e o desconstrutivismo, que quase ninguém, e eu menos ainda, sabe bem o que sejam.
Não interessa muito: toda esta cangalhada de betão, aço, outros metais e vidro, será substituída em devido tempo, que não são materiais que se aguentem muitos séculos sem altíssimos custos de manutenção; e o séc. XX será em devido tempo catalogado como pobríssimo nas artes, salvo na da treta propagandística e da exaltação absurda do génio dos artistas – como se estivesse ao alcance de sucessivas gerações de analfabetos culturais produzir resmas daqueles.
Daí que a minha admiração pelos nossos génios da arquitectura contemporânea decorra exclusivamente dos prémios que ganham lá fora: a porta do sucesso é estreita e se quem a franqueia o faz a produzir edifícios que parecem máquinas fotográficas, por mim tiro-lhes o meu chapéu, seguro de que seria pior se parecessem supositórios.
Deixemos portanto os grandes voos da especulação artística, para os quais aliás não estou talhado: teria de ter a capacidade de redigir em português sem concordâncias textos ininteligíveis, sofisticados, pedantes e significando nada, a título de memórias descritivas ou de artigos de opinião em revistas da especialidade.
Do que quero falar é de uma obra na minha cidade, que mergulhou os locais, incluindo-me portanto, em grande satisfação: trata-se do nó de Silvares. Já quando se construiu o acesso à A7 (em 1996, salvo erro) se podia ser o recordista da burrice, num campeonato que tem um excesso de concorrentes, e perceber que iria dar como resultado que a certas horas do dia se levaria tanto tempo a chegar da portagem à cidade como do Porto à portagem. E que quando se construiu o Espaço Guimarães, em 2009, consistindo numa catedral Auchan e um centro comercial gigantone para onde os locais vão aos magotes imaginar que são modernos, a rotunda que se vê na fotografia se transformaria num inferno.
Abençoada obra, portanto. Sucede porém que, poucos dias volvidos, já há filas de trânsito num dos sentidos. E isto, ó deuses, porque quem fez o projecto resolveu o problema do acesso às autoestradas (há apenas uma mas cruza um km à frente com outra) seguindo em frente, pelo túnel. Todavia, a via da direita, que vem da cidade, serve para quem quer virar à esquerda, na rotunda, para o Pevidém, e para a direita, em direcção ao tal Centro e outros destinos, dos quais há uma quantidade. Portanto, foi criado um gargalo, já que, no lado direito paralelo ao túnel, na direcção de quem vem de Guimarães, deveria haver duas faixas (uma para quem se quer dirigir à esquerda na rotunda e outra para quem quer virar à direita), pelo menos nos últimos 200 ou 300 mt. Não foi feito. E como uns opacíssimos muros pintados não permitem ver quem vem da esquerda, na rotunda, senão quando já se está em cima dela, toda a gente pára. Disto, e da quantidade de veículos, vêm os engarrafamentos.
A obra custou 3,6 milhões de euros. Não terá sido pelo custo de uma miserável faixa extra que esta se deixou de fazer.
Cá para mim, é um erro de projecto. E como me chamam a atenção para isto não ser provavelmente asneira de arquitecto, mas de engenheiro, fica um paisano sem saber que classe profissional execrar, e menos ainda quem são ao certo os técnicos que mereceriam ser chicoteados numa praça central. O que também não seria pacífico: destas há duas, uma velhinha e outra velhíssima, a primeira desfigurada pela intervenção artística da edilidade. Seria provavelmente a mais indicada.

Daí que a minha admiração pelos nossos génios da arquitectura contemporânea decorra exclusivamente dos prémios que ganham lá fora
Exatamente, devemos admirá-los pelo trabalho que fazem lá fora (isto é, no estrangeiro), através da qual fazem entrar dinheiro no país, isto é, na prática, trata-se de trabalho exportado, isto é, em linguagem de economista, de um produto transacionável.
A Democracia também nos desapossessou disso.
Da liberdade — de cada comunidade de pessoas, de cada identidade, de cada colectivo de afectos — poderem escolher a estética da sua Paisagem.
A Democracia nacionalizou-nos o direito à Paisagem.
Tirou-nos a possibilidade de decidirmos a configuração do espaço onde vivemos.
Delegou nuns especialistas (arquitectos, engenheiros, designers, e outros censores) essa decisão. E esculpiu na letra da lei essa violência subjugadora.
Fomos miseravelmente roubados.
Em troca, deram-nos as ideias estéticas dessa minoria. Serventuários do regime. Imbuídos, todos, da mesma ideologia trigonométrica que aprenderam nos bancos das escolas de arquitectura.
Não se entende, porque cada comunidade não pode desenhar a configuração do espaço onde quer viver. Que depois, será construída pelos tais especialistas. E não o inverso.
Não terá sido também por culpa dos arquitectos?
“O especialista em turismo Zeng Zhonglu disse à Lusa que o legado português não chega para ‘vender’ Macau aos turistas, e que o território tem de descobrir outras narrativas históricas para promover produtos turísticos e reforçar a sua singularidade” (Lusa, 28março2021).
Erros de engenheiro e arquitecto não faltam por aí. Por exemplo, as rotundas por cima de vias rápidas: quem sai da via rápida vem da direita para entrar na rotunda mas na lógica dos lavradores que andam na estrada, quem vem na “estrada principal” é que tem prioridade. Daí não só os filha da mãe destes serranos que andam por aí aceleram desencabrestados em cima da ponte para entrar na rotundas (é uma rotunda, porra) como os patêgos que vêm de baixo a sair da via rápida nem sequer conseguem ver para dentro da rotunda e tem de parar para deixar passar os brutamontes e conseguir ver se vem alguém a circular dentro da rotunda e têm normalmente de quase parar apesar de terem prioridade sobre o gajo que vem na ponte.
Não sei se me faço entender. Uma rotunda com entradas desniveladas é um erro de desenho que complica a circulação automóvel quando é suposto simplificá-la.