Pensamento da semana


enlil,

Baseado na navalha de Ockham surgiu esta máxima denominada Navalha de Hanlon: “nunca se atribua à malícia o que pode ser adequadamente explicado pela estupidez.”

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

12 comentários em “Pensamento da semana”

  1. Ora aqui está uma frase perfeitamente simétrica:
    ” nunca se atribua à estupidez o que pode ser adequadamente explicado pela malícia. “

    1. Não há qualquer simetria nesta frase. Imputar à malícia obriga a juízos de intenções, especulação e, a limite, teorias da conspiração. Quem frequenta ou frequentou processos de decisão no interior de organizações sabe perfeitamente que estupidez (e o acaso) são soberanos.

      1. A estupidez tal como a malícia tem várias interpretações. Pode haver uma estupidez inocente, e pode haver uma estupidez por falta de conhecimento.
        A malícia já pressupõe uma acção premeditada com intenção dolosa.
        Tanto a estupidez como a malícia podem ser adequadamente explicadas, daí a simetria.

  2. 1. A simplicidade não é um sofisma menor do que a complexidade ou a complicação. A crença na simplicidade, nada garante, que seja um melhor discernimento.

    2. O que é longo e complicado de descrever não tem necessariamente de ser mais estúpido do que é menos longo e mais simples.

    3. A parcimónia desejada por Ockham, é a crença de que a Evidência é o melhor critério para se encontrar a Verdade. Hanlon, e muitos outros, foram convencidos por essa crença de Ockham. Isso convém à indústria e à uniformização política das “massas populacionais”.

    4. “(….) «Que um acontecimento reduza ao silêncio o meu desejo, não significa que o satisfaça (….) A apodicticidade da determinação única aí se encontram pré-constituídos (….) O discurso da Evidência constitui um corpus que, de Ockham a Husserl, revela uma unidade” (Fernando Gil, 1996, “Tratado da Evidência”)

    5. Os “Pragmatistas” no início do séc.XX também o tentaram. E depois em 1929, outra vez, o “Círculo de Viena”.

    6. O “Pensamento da Semana” que José Navarro de Andrade postou… Faz parte da escolha de uma perspectiva racionalista do Conhecimento (discernir ou raciocinar é calcular e programar). Que tenta afastar as teorias Empiristas (discernir ou raciocinar é associar ideias).

    7. Hoje, essa ideia de simplicidade foi adoptada pelas “ciências cognitivas e computacionais” (neo-conexionismo) e “neurociências” (neo-behaviorismo). Cuja máxima expressão é a adopção da designada “Complexidade de Chaitin-Kolmogorof” (a complexidade é o algoritmo mais pequeno que possamos escrever, capaz de ser lido por uma máquina universal).

    8. Tal como C.Bennett mostrou: — Se a complexidade for causada por «excesso de organização», a simplicidade terá êxito. Mas se for causada por «aleatoriedade», a simplicidade fracassará.

    9. Razão pela qual, no modo de lidar com o COVID-19, o “Intuicionismo” de António Costa derrota o “Racionalismo/Cientifismo” (a perspectiva racionalista do Conhecimento, que acredita que a redução a fórmulas, índices, equações, e afirmações simples resolvem o problema). É por isso que não desce nas intenções de voto, quanto esse racionalismo esperava.

    10. Logo, não é por sermos simplistas que resolvemos a “vilania” da “Lógica do Império” referida por Robert Heinlein.

  3. 1. Nunca saberemos se António Costa usa a estupidez dos eleitores (isto é, os dados e as narrativas da ciência e dos cientistas) com malícia a propósito do Covid-19… Embora todos desconfiemos.

    2. Ou seja, para que Ockham e Hanlon tivessem razão, e não fossem estúpidos, era necessário que não tivessem acreditado que o complexo se resolvia através do simples. A navalha, para separar do complexo o simples, é a presunção estúpida de que são conjuntos que se excluem mutuamente. Ou seja, que o simples e o complexo se podem separar.

    3. Logo, quem é estúpido neste “Pensamento da Semana” é Ockham (tal como Hanlon, e todos os que foram convencidos dessa crença racionalista e positivista). Porque acreditam, sem malícia, que há uma navalha que consegue separar o simples do complexo.

    4. Já aqui referi várias vezes este impasse lógico, que Wittgenstein (1921) e o teorema da indecidibilidade de Gödel (1931) discerniram.

    5. Mas o homem, que talvez nos tenha ajudado mais neste debate, faleceu, com 82 anos, com Covid-19, faz no próximo dia 11abril2021 um ano. Foi até por causa do impacto dessa perda que, em 6junho2020, decidi fundar o “Museu dos Objectos Matemáticos”.

    6. Estávamos no ano do Abrilismo (1974) quando publicou uma obra inserida no ramo da matemática designado “Teoria dos Jogos” (que é uma parte da topologia, logo, da geometria). Que designou por “The Angel Problem” (actualizada em 1982, 1996 e sucessivamente até ao presente).

    7. Aliás, curiosamente foi esse «objecto matemático» o último que incorporei no referido Museu (ver “O Problema Matemático do Bem e do Mal”, incorporação do Objecto-10”, in blog “Impronuncialismo”).

    8. John Horton Conway mostra que esse impasse não tem resolução. Portanto, que Ockham e Hanlon são mais estúpidos do que maliciosos.

    9. É também através do seu contributo que percebemos a construção, por exemplo, de “Alice no País das Maravilhas”. Ou o debate (em forma de acção e ficção cinematográfica) entre a Oráculo e o Arquitecto no filme Matrix.

    10. Mas também conseguimos perceber porque aqui, no Delito de Opinião, há mais Anjos do que Demónios (para utilizar os nomes dos dois jogadores do “Jogo” de Conway). Isto é, porque há mais Comentadores a postarem poemas, provocações, paradoxos, delitos, sopas, e toda a panóplia de truques… para que o Anjo (complicação) não fique preso pelo Demónio (simplicidade).

    11. Porém, a derrota dos Anjos acontecerá se o Mundo não for um espaço infinito (como no jogo de Conway). Se for um espaço finito — isto é, se os Anjos se deixarem confinar ou limitar pela censura, ou por qualquer outra racionalidade — então, serão derrotados. E os Demónios reinarão.

  4. Este tema, posto a debate por José Navarro de Andrade, é deveras importante.
    Porque aborda uma das questões essenciais à defesa da Liberdade e da Democracia neste séc.XXI.
    Incide no que está mais a montante, na actual mudança técnica da sociedade e na actual dominação tecnológica sobre as liberdades individuais.
    Merecia um debate mais participado e acalorado.
    Separar o certo do incerto, a simplicidade da complexidade, a certeza da incerteza, o positivismo da fenomenologia, e assim sucessivamente — seja com uma navalha, ou com que outro instrumento fôr — é a permissão dada (ou recusada) pelos Indivíduos à sua dominação e subjugação por quem detém o Poder.
    É dizer: «Vocês são os detentores da Verdade e da Razão, que não está ao nosso alcance, portanto podeis dominar-nos à vontade, que nós subjugar-nos-emos”.
    Portanto, não é uma luta nova.

  5. Marcelo pediu uma verdadeira união europeia na saúde, sem nada acrescentar, antes pelo contrário, à opinião de Ricardo Arroja publicada há meses. Mas à boleia do que parece uma boa ideia, logo resurgiram os argumentos a favor de uma federação europeia.
    https://observador.pt/opiniao/a-guerra-das-vacinas-continua-quem-ganha/
    Malícia ou estupidez (para respeitar o postal), pouco me importa mas estou contra.

    “… as confederações ou se federalizam (houve vários modelos) ou colapsam.” (Observador)
    É uma tese que tem sustentação histórica mas que ignora que de todas as citadas, nenhuma foi baseada em acordos económicos ou seja que não têm pertinência comparativa para o caso europeu.

    Começando com o óbvio, a religião cristã ou pelo menos a moral e a ética dela derivadas, são certamente um elemento aglutinador europeu. Tal como notou Adriano Moreira (salvo erro foi ele) quando um viajante vê o primeiro campanário, aí começa a Europa.
    Mais abrangente, Bento XVI em Regensburg listou como principais raízes da Europa a profética judaica, a filosofia grega e a religião cristã a que depois se juntaria o direito romano.
    No entanto, para citar um exemplo flagrante, há anos o Parlamento Europeu aprovou uma moção propondo que a Comissão Europeia se pronunciasse internacionalmente sobre as perseguições que os cristão do Oriente, especialmente do Iraque, estavam a sofrer. Foi recusada pela comissária – uma baronesa trabalhista inglesa – porque a proposta identificava expressamente uma religião.
    Quer isto dizer que a hoje UE nem nasceu sobre o que unia os países europeus, a pretexto de um laicismo que ninguém discute nem é posto em causa, repudia ou afasta, pelo menos um desses factores de união.

    De facto, acalmados os legítimos receios nascidos de 6 anos e 60 milhões de mortos com a CECA e o EURATOM e o Tratado da Comunidade Europeia de Defesa (1952), no fundo as garantias de não rearmamento alemão, a CEE teve por base um acordo económico entre a agricultura francesa e a indústria alemã, a que se juntaram o Benelux e a Itália. Isso fazia sentido. Existiam afinidades entre a Alemanha, a Holanda, o Luxemburgo e até parte da Bélgica. Mas a Itália, dividida entre duas realidades, o norte industrializado e um Sul muito pobre e com uma agricultura onde a falhara a reforma agrária de Mussolini (ao contrário do sucesso nas terras ricas como o vale do Pó) seria sempre um parente pobre (que ainda hoje é, embora os alargamentos lhe tenha retirado essa visibilidade).

    Os alargamentos, o abandono da lógica de coordenação de interesses nacionais dentro de uma comunidade defendida por tarifas alfandegárias, substituída pela tendência neo-liberal do globalismo (embora com sobressaltos e solavancos), o erro de palmatória do Euro sem prévia harmonização fiscal e sobretudo a criação da UE e o Tratado de Lisboa, sem base cultural que o sustentasse nem aprovação democrática que o legitimasse, são causas inexoráveis para o falhanço da UE, que jamais será resolvido por novos “saltos em frente”, aliás de clara inspiração totalitária.
    Muito une os Europeus, história, cultura, arte, ética, etc.,  mas interesses económicos são mais um factor de divisão do que união. Hoje, entre Norte e Sul, frugais e esbanjadores, atlânticos e continentais, são mais e mais profundas as divisões do que as coincidências.

    Destruído o equilíbrio inicial entre a indústria alemã e a agricultura francesa, o que sobra  – e Macron teve o desplante de o admitir em resposta a jornalistas – será uma espécie de compensação da superioridade económica alemã com o maior poderio militar francês (a “Force de Frappe” o avião “Rafale” e o porta-aviões nuclear “Charles de Gaulle”).
    Parece-me uma possível base para uma aliança, … mas para uma Federação?

    Acresce que as exigências de Trump para a Europa se comprometer mais com a sua defesa não se irão extinguir por ele ter saído. Na Europa são cada vez mais as vozes que apontam nesse sentido mas o que ainda não vi nem ouvi, foram ideias de como, rearmada a Alemanha, se irão conter os pruridos do chauvinismo francês reduzido à subalternidade. Mesmo, fora do mais problemático caso francês, quais as reacções a uma realidade que na práctica, se traduziria no equivalente a “Alemanha & Associados” ou “República Federal Alemã & Comandita Lda.”.

  6. Para o Patife isto passou a ser o novo Imperativo Categórico e um mantra para os comentários pós-coitais que ocorrem na minha cama em hora de ponta. 😉

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