Ler não é maçada


Pedro Correia,

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Num país onde 60% da população passa um ano sem abrir um livro, todos os incentivos à leitura são louváveis. É o caso desta iniciativa editorial da Guerra & Paz, que desafiou o poeta, ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa a escolher 50 títulos indispensáveis da nossa literatura, recomendando-os a esses compatriotas que só costumam ler legendas de séries televisivas e mensagens de telemóvel. Trabalho meritório do veterano escritor, nascido há quase 91 anos em Lourenço Marques e que privou com poetas como José Régio ou Reinaldo Ferreira, ambos aqui representados.

Autor do monumental diário Act Est Fabula, repartido por seis volumes (Opera Omni, 2012-2017), Lisboa seleccionou 35 escritores. Alguns aqui representados por mais de um título, em prosa e verso, como sucede com Mário de Sá Carneiro (A Confissão de Lúcio e Poemas), Miguel Torga (Novos Contos da Montanha e Antologia Poética) ou Jorge de Sena (Os Grão-Capitães e Antologia Poética). Recorda justamente nomes que andam esquecidos, como David Mourão-Ferreira (Gaivotas em Terra e Obra Poética), José  Rodrigues Miguéis (Onde a Noite se Acaba) e Domingos Monteiro (Contos e Novelas). Mas onde encontrá-los, se estão ausentes das livrarias e, pelo menos num caso, nem se encontram no circuito dos alfarrabistas digitais?

 

Do presente para o passado

 

Neste livrinho, que se lê num ápice e só peca por excesso de concisão, o autor começa por recomendar um prosador actual (Miguel Sousa Tavares, com Equador) e apenas no fim da lista sugere Oliveira Martins, Eça de Queiroz (Contos e Notas Contemporâneas), Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Bocage e o padre António Vieira. Em cronologia regressiva que culmina nos Sonetos, de Camões.

Critério controverso, como qualquer outro seria em idêntica limitação de espaço. Mas com a vantagem de incluir títulos fundamentais da nossa ficção literária do século XX que uma certa bem-pensância escolástica foi empurrando para a borda do prato, como A Selva (Ferreira de Castro, 1930), Nome de Guerra (Almada Negreiros, 1938) ou O Barão (Branquinho da Fonseca, 1942). 

Se os poetas surgem bem representados (Cesário, Nobre, Pessanha, Pessoa, Sophia, O’ Neill, Eugénio de Andrade), já nos prosadores surgem óbvias omissões, à luz do livre critério do autor, que privilegia «os grandes contadores de histórias» em linguagem acessível ao cidadão português do século XXI. Isto levou-o a deixar de lado «figuras maiores da nossa literatura», como Aquilino ou o Nemésio de Mau Tempo no Canal. Outros estão ausentes por deliberada questão de (des)gosto – incluindo Gil Vicente, de quem o jovem Eugénio foi forçado a ler «o chatíssimo Auto da Alma» nas aulas do liceu, e Vergílio Ferreira (que bem poderia figurar com Manhã Submersa ou Cântico Final, já para não mencionar os contos).

 

A “desorientada” Agustina

 

Ao contrário do que proclama o verso de Pessoa, num dos seus mais célebres “fingimentos”, ler não é maçada. Mas, como qualquer literato, o autor de Vamos Ler! tem as suas aversões bem vincadas. Com o mérito de assumi-las sem disfarces, investindo contra o «snobismo parolo» do cânone dominante. E vai deixando cair nomes: Maria Gabriela Llansol («toda aquela algaraviada vestida de pompas e significando nada») ou Agustina Bessa-Luís (cheia de «aforismos desorientados»). Com incursões além-fronteiras contra o James Joyce do Ulisses ou do «indecifrável Finnegans Wake, espécie de charada bizantina».

O melhor deste mais recente título da preciosa colecção Livros Vermelhos da Guerra & Paz acaba por ser a evocação memorialística: o laurentino Lisboa recorda os dias da suave infância e adolescência na cidade natal, à beira-Índico, quando ganhou o saudável vício da leitura. Em casa e nos bancos escolares. Nasceu aí este seu amor consumado pelos livros que está longe de se esgotar: «O gosto de ler nunca mais se perde.»

Há uma lista complementar que por questões de critério editorial ficou ausente deste assumido “cânone para o leitor relutante”: a dos escritores estrangeiros que Eugénio Lisboa enaltece no seu panteão privado, como Stendhal, Dickens, Poe, Mark Twain, Oscar Wilde, Somerset Maugham ou Simenon. Daria matéria para um novo livro, em que discorresse sobre O Vermelho e o Negro, O Tio Goriot, Os Deuses Têm Sede, Os Thibault e Morte em Veneza, entre outras paixões literárias. Este, só com autores portugueses, cumpre o objectivo a que se propôs. Mas acaba por saber a pouco.

 

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Vamos Ler!, de Eugénio Lisboa (Guerra & Paz, 2021)

132 páginas.

 

42 comentários em “Ler não é maçada”

  1. os escritores estrangeiros que Eugénio Lisboa enaltece no seu panteão privado, como Stendhal, Dickens, Poe, Mark Twain, Oscar Wilde, Somerset Maugham ou Simenon

    Tudo autores de língua inglesa ou francesa.

    Eu poria no mínimo as peças de teatro de Václav Havel e de Friedrich Duerrenmatt.

      1. Acho o critério discutível — o do balio — por se tratar de escolhas políticas. A literatura pode ser bem maior e bem melhor do que isso.

    1. Ganda Kikas!
      Da verdade nunca devemos ter vergonha!
      Ler é muito cansativo, a cabeça fica cheia de frivolidade.
      Eu não leio!!!

  2. O gráfico de desconfinamento do governo é a prova de que 60% da população não lê um livro e os outros 40% não percebem nada de gráficos.

    1. “os outros 40% não percebem nada de gráficos.”
      E há uns que percebem pouco da conjugação de verbos.,

      1. Não há coisa mais irritante do que explicar uma piada, mas eu explico.
        Conjugar um verbo é flexioná-lo em todas as pessoas,números, modos, tempos e vozes.
        Se o verbo está fora de conjugação é só ver em quê, e ler novamente a piada para se rir. Isto se você souber ler, claro.

        1. ” Isto se você souber ler, claro.” Reli (isto é, o meu neto leu-me porque eu não sei) e fartei-me de rir. Agora percebi.

    1. A partir de hoje estão todas (ou quase todas, enfim) abertas. Mas já desde há algumas semanas estavam muitas abertas, nomeadamente as que também vendem jornais e revistas.
      Por exemplo, livrarias Bertrand em Lisboa, havia quatro abertas até ontem. Hoje deverá haver mais.

      1. As livrarias do quase-duopólio Bertrand/Leya estavam abertas. As outras não.
        Absurdo critério do Governo. O mesmo Governo que tanto adora apregoar o “direito à igualdade”.

        1. Muito certeiro o naco do postal do Paulo Sousa sobre livros no hipermercado… É um momento deste período de Covid-19.
          Tive que ir a Lisboa na passada semana, a casa. Entrei no centro comercial do bairro: a Bertrand fechada, a loja de cosmética aberta. Haverá mais para dizer?

        2. As livrarias do quase-duopólio Bertrand/Leya estavam abertas. As outras não.

          Não. Das oito livrarias que a Bertrand tem em Lisboa, somente quatro estavam abertas. Penso que fossem as que, além de livros, também vendem jornais e revistas.

          1. Só confirma o duopólio.
            A Bertrand – diz você – teve sempre metade das livrarias abertas. As livrarias mais pequenas, ditas “independentes”, estiveram sempre fechadas. Até agora.
            Este governo, quando ouve falar em grupos poderosos, estende a passadeira. E quando ouve falar em livros, saca da pistola.

  3. Convenhamos que, para quem não gosta de ler e se pretende que comece a gostar, os livros que Eugénio Lisboa não recomenda, são esses mesmos e talvez mais uns que faltem na lista. Não que lhes falte qualidade literária, mas exigem uma propedêutica de gosto firmado e muito traquejo para entendê-los.

    1. Recomendar “Equador” a quem não tem hábitos de leitura é uma opção interessante, que não discuto. Embora este romance do Miguel Sousa Tavares tenha claramente pelo menos 100 páginas em excesso. Faltou ali um bom trabalho de edição para limar partes supérfluas, que são diversas.
      Um romance superior – também já do século XXI – e de leitura fácil e envolvente é “Longe de Manaus”, do Francisco José Viegas.

      1. Gostei de Equador, um romance que li como não leio já, sofregamente. Conheço pouco de Francisco José Viegas, li-lhe apenas um livro que me ofereceram, não desgostei e não recordo o título.
        Bom dia

  4. Hoje para lermos os Maias precisamos de uma explicação pedagógica prévia anti racista. E pelo que eu estou a ver o cânone do Eugénio também precisa de uma explicação, pelo menos para o título. Como é que ele explica, no mesmo título, haver cinco letras pretas e apenas três letras brancas?

  5. Assim como assim não se percebe a não inclusão de Vergílio Ferreira neste compêndio de Eugénio Lisboa, ele que não se cansou de destacar a enormíssima qualidade de VF (este que será um dos melhores escritores do Séc. 20…) em toda a literatura portuguesa. Já não sei em que volume de Conta-Corrente o próprio Vergílio Ferreira dá conta disso mesmo.

    1. Neste livro, Eugénio Lisboa critica VF. Sem rodeios.
      Transcrevo:
      «Vergílio Ferreira também cultivou muito a circunvolução sintáctica, como forma de inculcar profundidade, quando não mesmo oracularidade. Quando pressinto, num escritor, um candidato a oráculo, olho com gula para o cesto dos papéis.» (p. 78)

  6. A literatura para ser feita e para ser lida precisa de 3 coisas:

    1. Cultura ocidental (da maneira como a entendia George Steiner)
    2. Cafés
    3. Cigarros

    Não temos nenhuma delas agora — os governos, os snowflakes, as etnias e as importações da woke culture americana acabaram com isso tudo. Sobrevive ainda num registo muito particular mas não vou dizer qual é para que não possa ser perseguido e destruído pelas massas ansiosas.

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