DELITO há dez anos


Pedro Correia,

21523202_SMAuI.jpeg

 

Adolfo Mesquita Nunes: «O discurso de Cavaco foi um ponto de viragem. Se os actores políticos tirarem consequências, nada será como dantes. Se não tirarem consequências, nada será como dantes.»

 

Orlando Nascimento: «Nos dias que correm, uma grande parte da população vive em cidades. Será mais cómodo, haverá mais emprego, terá mais actividades lúdicas. E há um fenómeno quase contraditório: as cidades têm mais pessoas, mas é nas cidades que as pessoas são mais anónimas. No campo, todos sabem da vida de todos, a família, as relações, os encontros e desencontros; nas cidades, a multidão torna-nos desconhecidos. Não sabemos nada (ou apenas muito pouco) de ninguém.»

 

Paulo Gorjão: «Depois do discurso de tomada de posse de Aníbal Cavaco Silva, há quem defenda que o Governo deve solicitar à Assembleia da República a aprovação de um voto de confiança. Admito que, em teoria, sim. Acontece que a teoria ignora a prática. José Sócrates tudo tem feito para sobreviver, custe o que custar. Ser ele próprio a abrir a porta da sua própria saída é algo que para si não é uma opção. Há lapas menos agarradas às rochas do que Sócrates a S. Bento.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Este país precisava de ter um bom par de tomates. Um só bastava. Um bom par de tomates. Tomates carnudos, viris, brilhantes, daqueles que quando lhes chegassem uma faca espirrassem por todos os lados e nos deixassem todos borrados. Em todos os sentidos. E até podia ser um par de tomates de uma  mulher. Quem sabe se dessa forma não voltaríamos todos a ter um par de tomates decente. E então, e só então, fossemos capazes de nos livrarmos da geração de Abril, da geração do soarismo, da geração do cavaquismo, da geração do guterrismo, da geração do santanismo, da geração à rasca, dos enrascados que nos rodeiam e, também, destes destomatados todos que nos governam há mais de três décadas.»

 

Teresa Ribeiro: «O país dos interesses deve ser mesmo assustador. Se calhar só um louco o desafiaria. Um louco megalómano, capaz de arriscar o pescoço político para deixar obra. Um louco de extracção democrática, bem entendido, que da outra casta já experimentámos e não correu bem. Só que isto que eu estou para aqui a dizer é sebastianismo puro, não é? Pois é.»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. Há 10 anos, ainda não era «SAP2ii». Ainda não tinha construído o «robot Žylĕc». Já tinha formulado o “Método Impronuncialismo”. Mas ainda não tinha fundado o novo país que designei por “Mundo-do-Além”.
    Trabalhava em Política. Redigia centenas de discursos. Dava conselhos. Enfim, um independente activo.
    Por isso, estas palavras escolhidas por Pedro Correia fizeram-me lembrar alguns episódios inenarráveis desse tempo profano.
    Estar do lado de dentro da Política, a construir as suas narrativas e a assistir às perpetrações, é uma bela experiência antropológica.

    As palavras de Adolfo Mesquita Nunes, lidas hoje, são como as pedras de um túmulo.
    O anonimato de que fala Orlando Nascimento é, hoje, a maior bênção de todas. Não termos de viver numa ilha de Nemésio a vida toda.
    O sebastianismo de Teresa Ribeiro é como o feminismo.
    O fim do Abrilismo, preconizado por Paulo Gorjão, continua a ser a principal luta a travar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *