Estátua ao deputado desconhecido


Pedro Correia,

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Nunca percebi o que simboliza no alto do Parque Eduardo VII aquela pedrinha fálica lá implantada há mais de 20 anos. Sem volumetria para aquele espaço, em óbvia colisão com o enquadramento paisagístico, dando a sensação de que aterrou no local por erro no endereço: garantem-me que estava destinada não a um jardim de Lisboa mas das Caldas da Rainha.

Já que ali se encontra, convém dar um significado à coisa. Inspirado pela verve de um parlamentar socialista, que anda por aí num frenesim a exigir o camartelo para o belo Padrão dos Descobrimentos concebido em 1940 pelo arquitecto Cottinelli Telmo e pelo escultor Leopoldo de Almeida, eu – que milito na facção oposta à dele, contrária à demolição de monumentos – proponho que o “pirilau” do Parque passe a homenagear o Deputado Desconhecido.

Como a imagem mostra, com ejaculação incluída. O tal parlamentar ainda agradece. Eis algo que talvez não lhe agrade derrubar.

50 comentários em “Estátua ao deputado desconhecido”

  1. Ora aí está uma belíssima metáfora do que é o Abrilismo.
    E do modo como os «artistas do Regime» se financiam através do erário público.
    Mas há muitos mais exemplos iguais a este, espalhados pelo país, feitos pelos mesmos.

    1. É a ideologia do Relativismo Cultural, em que mergulhou o pensamento esquerdista e abrilista.
      Em que a “desconstrução” de Derrida, o “Interpretativismo” de Geertz, e as “meta-narrativas pós-modernas” de Lyotard deram as mãos…

  2. Palavra que nunca entendi o objectivo dessa estátua que me parece desfigurar o local e não embelezá-lo. Suponho que me falte sentido estético, há arte que não me entra.
    Mas deitar abaixo o padrão dos descobrimentos parece-me desaforo de insanidade. E internar o fulano, não?!
    Olha a baixeza que milita nos partidos. Já não há crivo nem para os deputados, aqueles que têm assento na casa da democracia. Ao que isto chegou.

  3. Caro Pedro Correia,

    em que momento é que «Os florões são, como bem demonstra Francisco Bethencourt em História da Expansão Portuguesa, uma invenção tardia semelhante ao mamarracho do Padrão dos Descobrimentos, são a eleição da história privativa que o Estado Novo fabricou, não têm qualquer sentido no tempo de hoje por não serem elemento arquitetónico relevante, por não caberem na construção de uma cidade que se quer inovadora e aberta a todas as sociedades e origens. Mesmo o Padrão, num país respeitável, devia ter sido destruído» se transformou em andar para aí num frenesim a exigir o camartelo? Quanto à sugestão do Parque Eduardo VII, está com graça.

    1. 1. Mas há alguma Tradição que não seja “fabricada”?
      2. Todas as Tradições são uma “invenção tardia”, por uma razão lógica óbvia: não podiam ser tradições no momento da sua criação. O antes não está à frente do depois. É uma regra básica da causalidade, logo, de qualquer argumento.
      3. Pretender homologar e impôr aos outros aquilo que é “relevante”, “inovador” ou “respeitável” não é fazer história; é fazer política mascarada de conhecimento. É o jornalismo que faz isso, não os historiadores.
      4. Esse texto de Francisco Bettencourt mostra evidentes lacunas no que se refere aos conceitos de “Social”, “Cultura” e “Património”.

      1. 1. É por isso que a “História” não é uma Ciência. Está classificada como “Humanidade” no sistema do Conhecimento.
        2. Por não ser capaz de estabelecer uma causalidade — possível de ser verificada por outro observador de modo empírico e independente — entre o «Objeto» (dado, fenómeno, coisa), a «Interpretação», e o «Resultado» (significado, verdade).
        3. Cada afirmação da História permite diferentes interpretações e significados, todas elas equivalentes e com a mesma validade. É um procedimento que não consegue resolver satisfatoriamente a plurissignificação, a polissemia, a ambiguidade, e a auto-referência. Como se comprova neste post.
        4. Uma coisa é o Padrão dos Descobrimentos (Objeto da observação e análise). Outra coisa são as interpretações que dele se fazem (Resultados alcançado). Outra coisa é o significado, valor e relevância que lhe é atribuído (Histórias).
        5. O primeiro registo desta consciência, de que na História se trata sempre de três variáveis independentes, devemo-la a uma obra publicada três anos antes da independência de Portugal — “De institutione novitiarum”, 1140, Hugues de Saint-Victor.
        6. Uma profunda análise a este contributo, pode ser lida na belíssima obra de Jean-Claude Schmitt, 1990, “La Raison des Gestes dans l’Occident Médiéval”, Bibliothèque des Histoires, Paris: Gallimard.
        7. Francisco Bettencourt é um historiador que trabalha em universidades prestigiadas e tem prémios. Mas não é o único. Felizmente há vários outros portugueses, também com obra publicada e em universidades até melhor colocadas no ranking mundial, e também com prémios. Não é isso que valida, a priori ou a posteriori, a qualidade do argumento e da interpretação.

    2. “por não caberem na construção de uma cidade que se quer inovadora e aberta a todas as sociedades e origens.”
      Quem quer isso? nem você. Mente claro, se milhares de Texanos viessem para cá não deixaria de ser xenófobo, mascarando-o com uma qualquer defesa cultural…
      É também preciso proteger Havana e a cultura Cubana das hordas “economicistas” e não estragar o seu “caracter” não é?

  4. Se algo de que não se pode acusar o monumento (e, de facto, pode-se acusá-lo de muita coisa) é do seu significado ser críptico. Foi edificado entre as duas colunas monumentais que encimam o Parque Eduardo VII, talvez o mais pujante símbolo do Estado Novo em Lisboa (e aquele que, devido à sua estética, habilita certos asnos a chamarem “fascista” à ditadura salazarista), e simboliza o nascimento do novo regime abrilista (o cravo entre as duas colunas) e a sua vitalidade (com o Viagra da UE) e fragilidade (o estar escorado nas ruínas de uma imaginária terceira coluna). Aliás, num tempo em que certas aventesmas falam de derrubar monumentos, esta obra teve o mérito de questionar o monumento que o ladeia, sem lhe prejudicar (muito) a leitura, o que não é pouco. E, acresce, não se leva muito a sério, expondo-se à galhofa dos críticos (da obra e do regime), o que, em Portugal, ainda é mais notável.

    1. JPT
      ‘..certos asnos a chamarem “fascista” à ditadura salazarista”
      Numa entrevista na RTP o Prof. Hermano Saraiva dizia “não se podia dizer ter sido fascista por não haver nenhum partido fascista’, agora esta de ‘chamarem “fascista” (entre aspas?) ‘ é quase parecida.
      Então os desfiles da MP, a LP tropa do partido, as Saudações do braço e mão esticados, as Corporações de sindicatos e grémios patronais, e principalmente os Desfiles do dia do trabalho nos 1934-36 um dos quais em Viana do Castelo que pode ser revisto nos arquivo da Cinemateca, que parece estar-mos em Nuremberga.

      1. Louvo-lhe o desassombro de, tendo eu escrito que invocar a estética para qualificar um regime político ser um argumento de asnos da extrema-esquerda que, cá em Portugal, passam por historiadores (pois, fora desse círculo, e, naturalmente, do discurso político, ninguém chama “fascismo” ao salazarismo), o meu caro insistir na estética para qualificar, como fascismo, a ditadura conservadora (ou seja, a antítese de fascista) do Prof. Salazar – que, tal como o Generalíssimo Franco, aqui ao lado, até fizeram questão de marginalizar os movimentos fascistas dos respectivos países (os integralistas lusitanos e os falangistas). Fascistas, nas verdade, ou social-fascistas, como diria o camarada Arnaldo de Matos – enquanto defensores da mudança revolucionária da sociedade e subjugação da mesma por um estado totalitário, e não “apenas” autoritário (pode ir ver a diferença) – são (ou eram) o grosso dos por cá designados “anti-fascistas”, num perfeito exemplo do “newspeak” que George Orwell, que os conheceu de ginjeira, definiu no “1984”.

        1. Salazar permitia alguma coreografia ligada a essa estética um punhado, se tanto, de vezes por ano. De resto pretendia que se “vivesse habitualmente”, sem a menor agitação, sem outra política que não o trabalho. O exacto oposto da exaltação constante, da agitação febril das massas, da violência, mesmo da violência popular, como instrumento revolucionário, próprias do fascismo ou do nazismo. Da União Nacional (que a Wikipédia, plena de correcção política, se apressa a chamar de organização frentista e fascista; mas, e bem, não chama partido) havia sinal em época eleitoral ou data solene; e pouco mais que residualmente fora disso. Fora disso havia o Estado. Nada a ver com a presença constante, absolutamente dominante, absorvendo o Estado, comandando a sociedade desde mesmo a mais absoluta insignificância, do Partido, no fascismo italiano, no nazismo alemão. No comunismo, onde quer que seja.

          Sucede que ao autoritarismo de direita que por cá vigorou umas décadas, entendeu o partido comunista chamar, à náusea e em muito conveniente simplificação maniqueísta, fascismo.

          E sabemos o que acontece a uma mentira repetida (ensinada) muitas vezes. Mais ainda quando as massas são terrivelmente iletradas.

          E, parece, está muito bem assim.

          Costa

    2. Com a pandemia a venda do Viagra caiu a pique.
      Qualquer dia o mamarracho do Parque Eduardo VII cai de maduro,

  5. A mais bela estátua Portuguesa! Um verdadeiro pindárico da virilidade, da importância da masculinidade e da ejaculação permanente de forma libertária e prazenteira. Numa das mais belas varandas de Portugal as mulheres agradecem certamente este fálico e as peregrinações que acarreta dignas de um verdadeiro homem erecto

    Maria Rita Sousa

  6. Eu não sei que raio de movimento anda para aí a querer partir estátuas a torto e a direito, mas que está a alastrar, está. Não será melhor fazer um cerco sanitário na assembleia da República, e só deixar sair os deputados que provem estar vacinados contra a parvoíce?
    E não dê ideias para o pirilau, que é o símbolo da nação datado com o respectivo cravo.

  7. Essa estátua é uma homenagem à Ética Republicana, firme, hirta e vigorosa.
    Uma imagem de esplendor, na relva.

    Adoro as nossas “requalificações” urbanas. Umas estátuas, uns bancos de pedra, tornar as zonas agradáveis… de ver nos postais, que em termos de serem confortáveis ao uso humano, deixa muito a desejar.

    Abaixo os símbolos do colonialismo, e as praças de touros. Rumo à utopia do País renascido.

  8. Mais um postal injusto sobre o matarruano ascendido a enfarpelado. É visível o peso da culpa colonial que carrega. Atentem nas estacas perpendiculares que suportam a ‘instalação fálica’: o Deputado Desconhecido está em apuros… já não se segura por si.

    Tal como o Ventura quanto mais palco se der a este ‘coiso’ pior.

  9. Só mais um comentário rápido.
    Vi a biografia deste ‘coiso’ na página do Parlamento. A única pergunta que sobra é: qual a razão da admiração para o estado podre da nação se é ‘gerida’ por esta gente que não areja a cabeça no sector privado, antes pelo contrário, vive encostada e a trepar nas comissões regionais, fundações, poder local e Estado?

  10. Contrariamente às considerações aqui dominantes eu aprecio este menir. E julgo-o excessivo para homenagear essa figura desconhecida.

    1. Aí é que está o busílis, jpt, aquilo não me parece um menir (esses, sim, com aspecto fálico); aquilo parece-me um foguetão prestes a descolar 🚀
      Quem sabe o Cutileiro não quis dizer: em tempos conquistámos os mares, agora vamos conquistar os ares (é para rimar 😂).
      É um raciocínio confino-pandémico (concedo), mas não consigo ver ali nada que celebre a conquista da Liberdade ou da Democracia…
      Boa noite.
      🌛
      Maria

        1. E também um javali 🐗 obviously!
          Quanto ao Padrão, eu gosto muito do Henrique, o Navegador (como lhe chamam lá fora) com a caravela na mão…
          Que seria do mundo se todos os países desatassem a destruir os símbolos do passado?
          Tudo faz parte da História, para quê renegá-la?
          Tudo isto é incompreensível…
          Boa noite, Pedro.
          🌖
          Maria

    2. Jpt… tem razão.
      Ficámos prisioneiros de nós próprios.
      Porque se apeamos um, então, poderemos apear todos.
      Se nos é interdito apear um, então, não podemos apear os outros.
      Ficamos condenados a encher o espaço das nossas vidas com este excesso de tudo, e de todas as coisas.
      Atafulhamo-nos de nós.
      Poluímo-nos.
      Uma verdadeira Babel.

  11. 😂😂😂😂😂😂🤣🤣🤣🤣🤣
    Uma bazuca de cinismo letal. 😎 Melhor é impossível 🤣😂🤣😂. Ora aqui está uma maciça (palavra que o primeiro ministro confunde com massiva) ideia em tempos de Pandomia (desvio fonético de Jorge Jesus). Obrigado por este momento Benny Hill 😂😂😂😂.

          1. O leão inglês, burguês e capitalista, que ficou a governar Portugal numa lógica imperialista. Só por isso já merecia ir abaixo para grande desgosto dos burgueses leões vestidos de verde que se comprazem em esmagar a águia vermelha, a cor de quem trabalha. 😷

  12. E acabamos todos por chegar à mesma conclusão: o que Lisboa precisava (e o país agradecia) era um novo terramoto.

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