
Foi há cerca de 56 anos que o cantor romântico dos “Olhos Castanhos” , numa actuação em directo no programa TV Clube, resolve “informar” o país da absurda discriminação e grande disparidade de cachets perpetrada pela RTP, entre artistas nacionais e estrangeiros. Tão abrupta e surpreendente foi a intervenção, que ninguém sabia o que fazer e a emissão continuou no ar durante algum tempo.
Claro está que o ano era 1964 e a censura, apanhada de surpresa nada pôde fazer senão mandar parar a emissão em directo, mas nessa altura o “mal” já estava feito.
O caso “Chico Zé” teve repercussões populares à boca pequena a nível nacional e, como seria de esperar, a sua carreira em Portugal acabou ali.
Teve um revivalismo anos mais tarde após a Revolução de Abril, mas nunca voltou a atingir a popularidade de que gozava antes de 1964.
Para ler
https://expresso.pt/cultura/2021-02-06-O-dia-em-que-o-cantor-Francisco-Jose-desafiou-a-RTP-em-direto
https://museu.rtp.pt/livro/50Anos/Livro/DecadaDe60/RTPAos10Anos/Pag30/default.htm
Foto Google/Expresso

Sempre o diabo do dinheiro…
É… mas se formos ver bem as coisas, a situação é recorrente, porque ainda hoje as queixas são as mesmas, a enorme diferença é que agora toda a gente se pode queixar em público, em directo, em diferido, em alta voz, por escrito, sei lá que mais, sem ser preso, ostracizado e reduzido à sua ínfima expressão.
“Mas nunca voltou a atingir a popularidade que gozava antes de 1964″… E depois, dessa data? Se não fosse a Maria Dulce Fernandes, com este texto, lembrar-nos-íamos? A sério, lembrar-nos-íamos? Então, essa diferença que referiu às 13:20, serviu para quê? Talvez, para ainda ser uma Liberdade pior, ao não servir para nada. Essa ignomínia, que este Abrilismo fez à Liberdade, não é muito pior? Pelo menos antes, ao acto do “Chico Zé”, ainda o podíamos chamar de “corajoso”. Agora, até isso nos tiraram, quando fazemos o mesmo. O coração sangra, e a alma entristece-se com esta Liberdade manietada. Como de um mesmo “regime” se tratasse.
O Chico Zé, não era um menino em 1964. Depois de Abril a idade e o excesso de peso cobraram-lhe o que lhe restava de fama e talento. Nunca teve uma verdadeira reabilitação por isso mesmo.
À sua ignominiosa opinião sobre a ignomínia da Liberdade, respondo com uma pergunta: como era a sua vida antes de 1974?
Antes de 1974? Respondo-lhe como o “último samurai”, no filme com esse nome, respondeu ao “imperador do Japão”: “Não lhe conto como morreu, conto-lhe como viveu”.
Em 1924, 70% dos portugueses eram analfabetos, 90% da parte feminina não sabia ler nem escrever, trabalhavam como escravas no campo; o País estava na miséria, sem indústria, sem educação, sem infraestruturas. Tínhamos de ir descalços, buscar água á fonte. Não tínhamos luz eléctrica para conservar os alimentos ou fugir ao frio. Passávamos fome. Entretanto, nessa mesma altura, no Mundo, o marxismo e o comunismo de Estaline/Lenine, e depois o fascismo de Hitler, matavam milhões de seres-humanos. E nós cá, desde 1924, a ver e a viver tudo isso.
Agora, passemos para o dia 24abril1974, e perguntemos a nós-próprios (se tivermos coragem): «O que o anterior regime fez a Portugal, comparado com o que veio a seguir (até com subsídios Europeus), fez mais ou menos?
Mas há ainda uma pergunta muito pior, a fazer: «É este regime Abrilista…, corrupto, decrépito, feito de 47 anos sem num único ano ter produzido mais do que gastou, em sucessivas bancarrotas, vivendo da pedincha aos estrangeiros da União Europeia e do FMI, que gerou precariedade, e uma Dívida monstruosa que os nossos filhos terão de pagar nos próximos 50 anos, é este regime Abrilista que não podemos mudar?
Não se trata de os humilharmos ou ferirmos. Trata-se de os substituir por outra visão, por outra competência, por outra geração, por outra ambição… Por outro entusiasmo. De lhes dizermos: «Vão-se embora. Obrigado pelo esforço, mas já não servem para prosseguirmos o projecto de sermos colectivamente melhores».
Esta sua opinião, com alguns pontos muito positivos, concedo, pode encontrar-se como tantas outas idênticas, escarrapachada numa qualquer página da internet para copy/paste, quando tudo o que lhe pedi foi uma memória de vida anterior a 1974, Pedro.
A histôria vem contada numa série de livros, a vivência é de cada um.
Não, Maria Dulce Fernandes. Não lhe respondi com “livros” ou com “internet”. Respondi-lhe com a vivência efectiva dessa Vida. Uma coisa que a Maria Dulce, quase tenho a certeza, nunca viveu.
Recente aqui no blogue, verdade? Dá para entender pela resposta.
Mas deixemos as tristezas da Política. E falemos de algo mais belo e onírico.
A Maria Dulce, falou de “vivência”. E eu também. Como se fosse esse, o critério (miraculoso) que decide entre «o certo e o errado», ou entre «a razão e a ignominia».
Fez-me lembrar o “Erlebnis” de W.Dilthey. Esse conceito de “Experiência”, que reduz a vida a como: «Vida, como foi vivida”.
Uma redução, que mais tarde V.Turner e E.M.Bruner, num belo livro (“The Anthropology of Experience”, 1986), tanto criticaram. Dizendo que havia mais duas, inseparáveis dessa primeira. Concretamente, a «Vida, como é dita» e a «Vida, como é experienciada». Três modos, que vivem como uma irmandade gémea, dentro daquilo a que chamamos “vivência”. De facto, não é por termos vivido os «mesmos factos» que temos a «mesma experiência»; e quanto, às «palavras que usamos para dizê-la e comunicá-la» aos outros (e a nós mesmos), ainda mais diferente é.
O curioso dessa crítica, é ter sido feito no contexto científico e filosófico, a que Barbara Babcock, em 1984, chamou “rebellion against structural-functional orthodoxy, with its closed static model of social systems” (para não trair as palavras dela, com a minha tradução).
Espero que não seja a essa clausura, de que Barbara fala, que nos queiram impingir o Abrilismo.
Maria Dulce Fernandes, obrigado, pela generosidade de pôr os meus comentários (delitos de opinião), e partilhar o debate.
Este blogue sempre foi democrático. Pela minha parte, concorde ou não com os seus pontos de vista (que aqui expôs tão apaixonada e educadamente) não me acho no direito d de os não divulgar; por isso mesmo, Pedro, será sempre bem vindo.
É muito interessante, aparecer agora ou melhor pouco tempo depois de ser aprovado OE2015 saído do chamado ‘acordo da geringonça’ e após as eleições 2019 com a a aprovação de novo OE com a abstenção do PC, muito interessante, repito, aparecer esta preocupação com o “regime Abrilista”.
Então, de 25 de Abril de 1974 até 2015 não houve o “regime Abrilista”?
Pois, parece que a grande chatice foi o OE ter passado sem o PC votar contra como sempre tinha acontecido. Esta coisa de melhores salários é muito incomodativa e ‘lá vem outra vez a resseção’.
A resseção vai aparecer por causa do problema da pandemia a nível mundial e coitada da gente ligada aos negócios que vai ficar na miséria e não fora este “regime Abrilista” sempre se arranjava qualquer coisinha.
Todos os “regimes” pós 74 foram de carácter “abrilista” , mesmo os que declaradamente não eram.
O governo tem feito asneiras consecutivas e demasiada palhaçada, mas perguntemo-nos se no panorama político actual alguém faria melhor. É que m¥rda por m¥rda, que acabem com o resto…
Essa é a pergunta crucial e perturbadora. Porque, se no “actual panorama político” ninguém consegue fazer melhor, então, chegámos a um impasse.
Talvez possa funcionar como um abre olhos para os cutos de memória .
Se a estupidez fosse música vocemece seria a Orquestra Sinfónica de Viena
O Dinheiro
O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo…
Todo ele, aquele todo…
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.
E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai…»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.
Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas…
Tlim!
Ora…
Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!
João de Deus, in ‘Campo de Flores’
Uma pedagogia das finanças, este poema, Manuel
Errata: discriminação em vez de descriminação. Não vale a pena publicar este comentário.
Vale sempre a pena publicar, jj. Ajuda a lembrar que ter atenção a pormenos é importante. Obrigada 👍
Não me lembro de nada dessa polémica: bom, em 1964, eu teria para aí uns 3 aninhos! E já nem preciso de realçar o facto de que até fui um dos muitos “felizardos” que cresceram sem a “caixinha mágica” a ocupar o centro da sala de estar… mas lá está, eu nem vivia na “metrópole”.
Tirando isso, é (ou julgo ser) evidente que o Francisco José, talvez porque, (como escreveu o Gonçalo Pereira Rosa, no Expresso) durante os 4 anos que esteve pelo Brasil, até alcançou “sucesso” (sim, já nesse tempo, todos os cantores “tugas” até o alcançavam por lá…) julgou que regressado à “metrópole”, não sei se até a “falar brasileiro”, poderia reclamar um “estatuto” igual ao do Charles Trenet ou ao da Carmen Sevilla, estrelas internacionais.
Lembro-me de, nos primeiros anos da década de 70, os “Olhos Castanhos” até serem uma das músicas que mais frequentemente era passada nas rádios angolanas ou para Luanda. Em especial nos programas que tinham como “alvo” a tropa colonial – na altura, do que me lembro, só Nelson Ned, com “Domingo à Tarde”, lhe fazia uma série concorrência.
Eu tenho ideia da bronca do Chico Zé. Não sei se fez parangona nos jornais mas duvido.
No Brasil , nas festas das comunidades de portudueses e luso-descendentes, importam N artistas portugueses famosos para animar as hotes, de tão famosos que por cá pouco ou nada se conhecem, o que não quer dizer que não sejam bons no que fazem e não mereçam bons cachets.
Por cá, as vedetas internacionais sempre foram pagas a peso de ouro. Os artistas portugueses têm consciência disso. Se o FJ se achava de categoria internacional ou uma vedeta , não faço ideia, mas que foi muito corajoso ou muito doido para fazer o que fez, isso foi.
Nos anos 70 os Olhos Castanhos já não tinham qualquer fulgor.
Cara Maria Dulce concordo consigo, grande parte das coisas que criticam o Salazar e a ditadura tem mais a haver com as escolhas do povo do que quem a dirige, basta ver este seu exemplo que ao fim de décadas continua actual.
Bom, confundir a ditadura com as liberdades de hoje não é um bom exercício de retórica, porque não tem qualquer comparação. Que verificamos que, seja qual for o panorama politico-social da época, os artistas estão sempre descontentes, isso é claro como a água.
um registo historico.
Como uma fotografia, onde nao cabe mais nada, onde nao está mais nada.
Recordar é viver
Para o Chico Zé, “nada” foi o que lhe restou profissional e pessoalmente em Portugal durante bastante tempo. Só passados cerca de 9 anos voltou a ter algum sucesso musical com ” Guitarra toca Baixinho”.
afinal encontrei fora da fotografia (post) algo : o francisco Jose foi corajoso ou doido.
É, s o s. Durante os muitos anos da ditadura, quem não lia pela cartilha ou era muito corajoso para enfrentar o regime ou muito doido pelas mesmas razões. O Chico Zé teve um momento daqueles que podem criar mitos, mas foi fugaz e para ele infelizmente bastante desastroso.
digo mais. Deveria haver uma enciclopedia resumida com todos os casos semelhantes.
Estou mais sem memoria, nao conseguiria determinar que a “guitarra toca baixinho “, que nos acompanhou naquele tempo, era do Xico