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Os obituários de 2020 não deverão ter sido mais ricos e variados do que os dos anos anteriores. Mas talvez o ambiente pandémico me tenha feito mais atentar naqueles que findaram. Ou será da idade, isto de me ir vendo cada vez mais desprovido daqueles que me animam ou nos alumiam.
Um dos que morreram foi Artur Portela (Filho, como foi conhecido até ser avô e se ter insurgido contra a manutenção pública desse estatuto júnior). Oposicionista ao Estado Novo e depois julgo que próximo da área do PS. Nas estantes do meu pai estão alguns dos seus livros, dos quais trouxe 3 para este retiro confinado. Dois são volumes de “A Funda”, o 3º e o 4º (Arcádia, 1973 e 1974, respectivamente), recolhas de textos de opinião escritos entre 1972-4. São muito interessantes. É certo que são propositadamente textos de ocasião. Mas em muitos casos é espantosa a sua actualidade, e por mais do que por mera analogia (aliás, no 4º volume está o conhecido “O babygro político”, elogio a Marcelo Rebelo de Sousa – que aqui transcreverei se algum leitor o solicitar, pois não está disponível na internet). Mas também muito pelo que dá a conhecer, a nós mais-novos, do ambiente da “primavera marcelista” e das diferentes figuras que então assomavam.
Mas muito mais do que isso o que convoca é a verve, sarcástica, ferina de cruel. Sem quartel na sua elegância. Para usar este irritante termo que agora acampou na imprensa portuguesa, Portela (então Filho) “arrasava” ambientes e protagonistas – por exemplo José Hermano Saraiva, de tal forma que até me condoí do simpático celebrizado na tv.
Li os volumes neste final de Janeiro de 2021 – e, como sempre acontece quando lhe peço emprestados livros, em diálogo com o meu pai. É o período em que nos tornámos o país mais fustigado pelo Covid-19. Desapareceu o “milagre que é Portugal”. Expirou a imunidade promovida pela vacina da BCG. Descobriu-se que o governo não lê nem ouve as notícias internacionais, sobre “variantes inglesas” e outras … Explodiu uma corrida à célebre “atençãozinha”, umas vacinas para os amigos, tão mostrando o estado do nosso Estado … Ultrapassámos o Brasil de Bolsonaro mas a (tão competente) Mortágua não se indigna. Pior vamos que o reino da Suécia mas os próceres do PS calam a sua voz. Enchem-se os hospitais mas se em algum falta o oxigénio a culpa é do alarmismo da imprensa. Em suma, estamos confinados. E atrapalhados. E, tantos de nós, chorosos. Mas, dizem-nos, não nos cumpre criticar. Pois é hora de “unidade nacional”. E as críticas são “antipatrióticas”.
Pois durante este desatino, desnecessário, acima de tudo desnecessário…, tão fruto de incúria e incompetência, e tanto de inconsciência, fui dar uma volta ao rossio d’agora, o Facebook, a ver as modas. Ali encontro um enorme elogio – exactamente agora, quando isto está como está, depois de um ano disto – à nossa ministra da Saúde. “Super-Marta”, chamam-lhe! Chamou-lhe um, veterano bloguista. E logo a chamam milhares, todos os milhares, e muito são, que partilham o elogio, aplaudindo-o, aplaudindo-a.
Nem estupefacto fico. Pois logo me lembro de Portela – o tal que julgo ter sido próximo do PS, friso. O tal que sinto tão actual. Em Outubro de 1972 escreveu “O Príncipe da Rua do Século” (A Funda 3, Arcádia, pp. 161-163). O mote era um elogio publicado no “A Capital” ao Secretário de Estado da Informação e Turismo, a propósito do 4º aniversário da instauração dessa secretaria de Estado e da nomeação do seu responsável político. Deste, César Moreira Baptista, dizia o jornal tratar-se de “príncipe que lá pontifica” e que “conquistou honras de generalato”, entre outras pérolas similares. Portela Filho – com uma nele inusitada placidez e até alguma simpatia (porventura irónica, seria necessário conhecer os meandros daquele tempo para descodificar por completo) pelo membro governamental – investiu impiedoso sobre o articulista:
“O dr. César Moreira Baptista não é responsável pelo fundo de “A Capital”. É uma justiça que lhe devemos. Ponho até sérias dúvidas a que se sinta confortavelmente na moldura surrealista que “A Capital” lhe propõe – um Príncipe doublé de general que está servindo uma República.
E eu (…) que sou, definitivamente, contra toda e qualquer espécie de censura – imagino com alguma benevolência o esforço do Secretário de Estado em ultrapassar a tentação de fazer suprimir aquele editorial.
Esforço que resultava de duas contingências: o facto do Secretaria de Estado ser o homem que está levando por diante, no seu campo da Informação, a chamada política liberalizadora, e o facto de o editorial não ser contra mas, embaraçadoramente, dramaticamente, a favor.
É que o Secretário de Estado, seguramente homem de espírito, sabe que há uma coisa mais comprometedora do que um ataque bem feito – é um elogio grotesco.
E isto porque o ataque bem feito enobrece – o elogio grotesco diminui. O ataque bem feito produz o diálogo – o elogio grotesco produz o rubor. O ataque bem feito suscita a atenção – o elogio grotesco suscita a gargalhada. O ataque bem feito merece-nos. O elogio grotesco – compromete-nos.
É que o Secretário de Estado, inevitavelmente homem do mundo, sabe que, se somos um pouco responsáveis pelos nossos adversários, somos muito responsáveis pelos nossos aliados.
O que se torna tremendo quando um dos nossos aliados é o autor do fundo de “A Capital”. Eu serei adversário político do dr. César Moreira Baptista, mas não creio que ele mereça a violência que é este fundo.
Não creio que ele mereça o título de Príncipe. (…)
… pela razão, simples e definitiva, de que esse título pertence, inteiramente, ao autor do fundo de “A Capital”. O Príncipe do Jornalismo. O Príncipe da Rua do Século. Manuel José. Homem. De Mello.”
Hoje, neste confinamento de facto doloroso, cumpre a cada um encontrar um Manuel José Homem de Mello, reconhecê-lo, reconhecê-los. E, infelizmente, a alguns (muitos, de facto) serem-no.

Está por aqui: rtur+portela
https://portadaloja.blogspot.com/search?q=a
Um interessante apanhado. Quanto ao resto, sobre este postal, o que é também interessante (e tão actual) é que acabaram, de porto em porto, na mesma equipagem.
Plano de Vacinação Covid em Portugal!
1 – Seja o que Deus quiser
2 – Desenrascados e chico espertos
3 – Amigos de amigos a quem a vacina lhe passa pela mão
4 – Pessoal da Saúde e Idosos
5 – Governantes e Políticos
6 – Sobras para os mais à mão
7 – Qualquer um dos acima referidos
A.Vieira
Já não é de agora que é “Deus quer” e a obra nasce. Seja obrar o que isso for.
E assim se fin(d)am os comentários.
Frequentava então o Liceu Nacional de D. João de Castro. Tempos peculiares em que, dispensando-se efusiva e mutuamente toda a sorte de cordatas gentilezas, PCP (via UEC) e MRPP se entretinham fazendo voar carteiras desmanteladas, ou cestos de papéis em chamas, pelas escadas. Creio recordar que cartazes ou jornais de parede – estes necessariamente em amarelo e vermelho e sempre com a clássica imagem da vanguarda de punho erguido e/ou segurando o livrinho – eram colados com vidro moído misturado na cola. Seria, parece, para cuidar devidamente dos dedos dos verdadeiros comunistas (ou social-fascistas, dependia do interlocutor do momento) que os pretendessem sem cautela remover. Mas não o posso afirmar. Nunca testemunhei nem o processo de colagem, nem os efeitos imediatos de tal remoção.
As aulas eram interrompidas amiúde, sob a imperatividade de inadiáveis tarefas revolucionárias, como a venda do Luta Popular, e as RGAs, umas após as outras, deliberavam heroicamente sobre o ensino e a revolução. Ou o que quer que fosse que se passasse ao fundo da rua ou do outro lado de um mundo inevitavelmente às mãos do imperialismo (um ou outro deles, enfim). Em regra vencia quem tivesse os apoiantes que melhor resistissem ao cansaço de horas e horas de coisa nenhuma, ou sempre a mesma, até que o ginásio estivesse composto largamente por quem garantisse o voto pretendido.
Além deles, lá estávamos os outros que fundamentalmente queriam “passar de ano” e manter os pais tranquilos, e iam fazendo o possível nesse sentido. Desgraçadamente não guardo memória de quase nenhum professor desses anos (sinal, admito, da decadência do ensino secundário, muito do prestígio que terá tido já então perdido; ou apenas da minha imaturidade, fundamentalmente desorientada no turbilhão de tudo aquilo).
Ao final do dia, a turba (parte dela), depois de tomado de assalto o liceu, tomava de assalto o 22 e infernizava a vida do Bigodes, pica-bilhetes, e da Alzira, aluna ainda da Faculdade de Ciências (creio) e professora de Ciências Naturais, frágil figurinha que tinha o infortúnio de se servir também dessa carreira de autocarros. Esse infortúnio e o de se sentir mal ao lhe ser diligentemente apresentada uma rã dissecada. Em tom mais sério, devo ao meu professor de português desses anos – Leitão Estrela, creio, o seu apelido – boa parte do fascínio de descobrir o gosto da leitura.
Em casa, por esses dias, meus pais procuravam orientar, sanar, a confusão que, imagino, iria na cabeça deste seu rebento primogénito. Entre aquilo de que lançavam mão para tanto, estavam as emissões em português da BBC (não esqueço o “V” da sintonia), escutadas em onda curta, o volume do som contido, e com o cuidado de ir até à porta assegurar que não havia gente no patamar; o mesmo procedimento, julgo, do de outros tempos. E por temores similares. Isso e os textos do Jornal Novo. E neste os de Portela Filho.
Memórias que o seu “post” me despertou.
Facebook, não uso. A Temido, nascida em 1974 – se a wikipedia não mente –, é bem capaz de ser também aí seguida e louvada com estremecimento por boa parte dos revolucionários liceais que conheci. Aqueles tempos não os viveu, não foi neles que aprendeu a Internacional. Mas terá sem dúvida a incontida admiração de Homens de Mello revelados nesses tempos de revolução..
Obrigado pelo seu belo comentário. Terá V. alguns anos mais que eu, que fiz a 4ªa classe em 74. Ou seja, vim a apanhar um ensino liceal (como então já não se dizia) completamente espatifado mas já sem essa pelejas lendárias – fiquei-me por algumas altercações já serôdias e pelas memórias dos vizinhos algo mais velhos que haviam cruzado o então afamado D. Dinis, de Chelas.
Quanto à “Super-Marta” é inacreditável o número de pessoas que aplaude o epíteto. Mostra o grau de estuporização, muito para além das paixões partidárias, a que chegámos.
Quatro ou cinco anos mais, não mais do que isso (nasci em sessenta). Mas foram tempos em que se cresceu muito depressa, esses. Para o melhor e se calhar o pior. Grato pelas suas palavras.
Costa
Não sou autor desse blog, depois de reler o meu texto enxuto pode ter ficado essa sensação. Sobre o Artur Portela, o resumo é que nunca tive muita paciência, sempre me pareceu estar apenas na espuma dos dias. Requiescat in pace.
Eu nunca lera (nem em jornal) este autor. Por isso, e chamada a minha atenção na sua morte, fui buscar os livros. Insisto, tem interesse em ler estes textos do tempo do Estado Novo tardio.