Untermenschen


José Meireles Graça,

No Domingo, fui comprar tabaco à estação de serviço a 300 metros de minha casa, aí pelas 18H00, para ouvir espantado que não senhor, não podiam vender – “só combustíveis e gás”. Não respondi que o gás também é um combustível, aliás não disse nada, apenas rosnei para os meus botões uns palavrões minhotos.

Num grupo desabusado de que faço parte (sosseguem, ó bufos do sanitarismo, é um grupo no Facebook) contei a história e fiquei a saber que é assim a partir das 13H00; que há sítios no país em que não é assim; e que noutros é assado, isto é, não se pode comprar excepto se for a dinheiro vivo.

A minha ignorância justifica-se: o catálogo de medidas para “combater” a Covid é, na realidade, um manicómio em construção, com trolhas atolambados pelos altifalantes que lhes berram ordens contraditórias, capatazes de chicote, o arquitecto demente e o dono da obra tolhido de medo a um canto enquanto uma nuvem de promotores imobiliários propagandeia os méritos do edifício.

Ainda tinha cigarros porque compro volumes e não maços. O preço é o mesmo mas recebo de brinde isqueiros, o que quer dizer que a qualquer pessoa que me peça lume ofereço um, prática que já tem granjeado grandes cumprimentos à minha simpatia, que não despreza estes reforços grátis.

O empregado está portanto lá para receber o pagamento dos combustíveis e, salvo as raspadinhas, que não apurei se pode vender, para nada mais – o café, se o quiser tomar tomo-o em casa, e outro tanto faz o trabalhador que vejo apreciar uma mistura de cerveja e Martini ao fim da tarde. Ele faz parte, e os bebedores dos traçados também, da mole que anda na rua e dobra a mola nas fábricas e estabelecimentos que ainda não fecharam para que nada falte em casa dos que são a favor das medidas. Porque estas, as medidas, criaram duas classes de cidadãos: os que se protegem porque acreditam que vão emergir fortes e sadios num país arruinado, mas conservam o seu rendimento; e os outros, tão miseráveis que, se desistirem de procurar emprego porque não há, até mesmo das estatísticas desaparecem.

Isto enoja pelo arbítrio: hoje não se pode à hora xis mas amanhã sim e não se pode aqui mas acoli; o empregado da bomba pode razoavelmente esperar que o seu posto de trabalho se mantenha, mas o do restaurante não; e o catálogo de normas é como um acordeão desafinado – a extensão é variável e umas vezes as notas são umas e outras, outras.

Tudo a correr mal temos tido, e continuamos a ter. E basta ler o meu co-residente  Rui Rocha, que em 8 de Outubro do ano passado se deu ao trabalho de fazer uma resenha das tolices expectoradas pela escumalha infecta que nos pastoreia, para concluir que somos governados por galinhas sem cabeça.

Isto em nome dos mortos pela, ou com, Covid, que ainda não chegaram, quase um ano volvido, a 13 000. Número respeitável, decerto, mas que convém ver em perspectiva: sempre morreu gente todos os dias, mas não era noticiada nas primeiras páginas nem nos telejornais.

Perspectivas cada qual tem a sua e a minha, lamento, continua a mesma que já tinha em 5 de Abril do ano passado quando dizia que o número de mortos poderia chegar em Portugal a 38 000 (menos de 0,38% da população), com tudo a correr mal. E isto quando ainda não havia vacinas, nem medicamentos com razoável eficácia, nem tempo decorrido que possibilitasse o reforço de meios, e quando os intensivistas ainda não tinham, pela novidade, aprendido a ser menos lestos a pôr doentes em tratos de polé.

Entretanto, o SNS rebentou de tal modo pelas costuras que a quantidade de mortos supranumerários, consequência do número de consultas e operações adiadas, é o que cada um quiser, mas segundo as melhores cabeças na casa dos largos milhares – não estou para perder um ror de tempo a escabichar uma estimativa convincente; a quebra do PIB para 2020 anda pelos 8% (provavelmente mais, Centeno é economista, portanto não sabe do que está a falar, e um aldrabão contumaz, donde não sabemos se quer exagerar por defeito ou excesso); e 2021, que era para ser um ano de recuperação, vai ser um de reforço do afundanço porque a Covid abranda um dia destes, mas a loucura não.

De modo que a verdadeira infecção mundial é realmente de índole epidemiológica, e afecta o sistema imunitário, mas não ao nível das células – antes nas meninges. E a ciência que ajuda a explicar o fenómeno não é nem a virologia, nem a epidemiologia, nem a matemática, nem a pneumologia, nem a intensivologia (não sei se a palavra existe, mas que se lixe: se os jornalistas podem inventar factos, e os políticos e comentadores pilotarem histerias, eu posso bem criar termos novos), mas a psicologia, no capítulo do comportamento das multidões.

E então, os genuínos derrotados da crise, isto é, os tais desempregados que já nem se dão ao trabalho de procurar emprego, os falidos, os que ainda não pagam IRS mas serão chamados a pagar, junto com os que ainda nem idade têm para votar, a dívida himalaica, os que não são funcionários públicos nem têm rendimentos garantidos, não se revoltam – porquê?

Um palpite: devem fazer parte do eleitorado que não vota porque os partidos acham, provavelmente com razão, que a maior parte dos cidadãos está tolhida de medo, e portanto o que quer é medidas. Quem quer outras, mais sensatas e que impliquem análises de custo/benefício, não tem em quem votar.

Por mim, faço parte das sessenta variedades de negacionistas, uma classe justamente isolada em bolhas suspeitas das redes sociais. E que, mesmo que esteja incomodada com a vizinhança, acompanha os vencidos da vida do delírio covídico. Vencidos da vida não é uma boa expressão, isso era a nata da segunda metade do séc. XIX. Tenho outra melhor, da primeira do XX, como era mesmo a palavra? Ah, untermenschen – com perdão do exagero.

15 comentários em “Untermenschen”

  1. Muito bom este post. Esta época ficará para a posteridade como a altura em que a insanidade se instalou no mundo ocidental.
    Eu acrescentaria que um confinamento a sério seria TODOS ficarem em casa recebendo o salário mínimo ou uma pensão de sobrevivência. Não haver cá moços a distribuir refeições, recolher o lixo, e outras mordomias que tais. Queria ver quanto tempo aguentavam os defensores incondicionais do confinamento sem dinheiro no bolso para se entreterem em compras online e entregas em casa.

    “O confinamento baixará a transmissão da infecção mas não vai resolver aquilo que para mim é o essencial, que é baixar o número de mortos pela doença. Sabemos que a maioria das infecções não provoca doença e, olhando para a mortalidade, sabemos que são aqueles que têm mais de 80 anos que morrem com covid. Não é que a covid os mate: a covid é o factor desencadeante das outras patologias e fragilidades que essas pessoas têm. Podemos confinar, politicamente será difícil fugir a essa decisão, é aquela que os países da Europa na sua generalidade têm tomado com a excepção da Alemanha que tomou medidas bem precisas e localizadas. A força política para que isso aconteça é muito grande. Basta ler os jornais que há dois dias pedem que tudo se feche. E esta é também uma forma de acalmar o medo que se foi instalando. Mas a eficácia do confinamento é muito baixa.”
    Jorge Torgal no Público.
    https://www.publico.pt/2021/01/08/politica/noticia/jorge-torgal-bem-saude-nada-obstaria-eleicoes-presidenciais-tarde-1945612

    1. sabemos que são aqueles que têm mais de 80 anos que morrem com covid

      Isto não é, infelizmente, inteiramente verdade. As pessoas obesas ou com excesso de peso também morrem bastante. E elas são muitas na nossa sociedade (o excesso de peso mais prevalecente entre os homens, a obesidade entre as mulheres).

      1. Já li que a obesidade é um dos mais importantes factores de riscos abaixo dos 80 anos. No entanto não sei se o número de casos tem relevância estatística. As pessoas obesas foram incluídas no plano de vacinação nos grupos prioritários?

    2. Ontem na Austrália apareceu 1 caso,pois foi o suficiente para naquela cidade ir tudo para confinamento! Ai espera,a Austrália não é Europa é um País na Oceania e atrasado…

    3. O confinamento baixará a transmissão da infecção mas não vai resolver aquilo que para mim é o essencial, que é baixar o número de mortos pela doença.

      Não entendo isto. Se a transmissão da infeção baixa, então baixa o número de infetados, e se o número de infetados baixa, então o número de mortos pela doença provavelmente baixará também (embora talvez menos).

      Ademais, não me parece que o número de mortos pela doença seja o mais importante. O mais importante, para mim, é a sobrecarga que a doença traz aos hospitais. Mesmo que os doentes covid sobrevivam todos, eles entopem os hospitais durante muitíssimos dias, deixando-os inoperacionais para outras patologias. Um doente com covid-19 pode facilmente ficar em cuidados intensivos durante algumas semanas, mesmo que depois disso se cure; e uma pessoa em cuidados intensivos durante semanas é extremamente cara.

      A título de exemplo, Boris Johnson, um homem que não é velho (mas é obeso), ficou em cuidados intensivos um par de semanas, o que, embora ele se tenha curado, não há de ter sido nada barato para o SNS britânico.

      1. O número de mortos e de doentes graves é uma percentagem muito pequena do número de infectados. O problema é quando o vírus chega a um lar, por exemplo. Conheço famílias inteiras que testaram positivo e estiveram muito ou pouco doentes. Mas não atravancaram o sistema de saúde porque não foram para o hospital. O problema é quando a doença atinge os grupos vulneráveis (ou os seus cuidadores). Era aí que se deveria Intervir. O número de mortos acima de um determinado valor é indicativo de que os doentes graves deixaram de ser assistidos convenientemente por ruptura do sistema. Que é o que se passa agora. Mas muitos doentes Covid não morrem por covid mas por outras patologias. E esse número é totalmente desconhecido.

  2. Se para um escritor(?)dos nossos dias a forma mais humana de matar a fome aos judeus era enviá-los para as câmaras de gás, está tudo dito acerca do untermenschen.
    Chegámos a um ponto em que se dá mais importância ao termómetro do que à temperatura.
    Com tanto drama, tanto horror, tanta tragédia, Portugal não precisa de mais médicos, precisa é de mais Albarran’s.

  3. Muito bom. Mas só a título informativo, se tentar comprar em estação de serviço de uma auto-estrada, já pode.

  4. Excelente e reconfortante. Aparentemente a alguns ” afecta o sistema imunitário, mas não ao nível das células – antes nas meninges”. A outros melhora meninges, sinápses e tudo o que mexe e remexe, constantemente, lá dentro.

  5. Fui de férias de Natal a Portugal, passei num supermercado ao final da tarde. Cheguei à caixa as 20h11 com uma garrafa de gin (Sharish, fica a publicidade porque é bom) O senhor da caixa olhou-me com um ar entre o incrédulo e o envergonhado e disse: “Não lhe posso vender a garrafa. Passa das 20h”. A minha reacção foi rir e dizer-lhe que voltaria no dia seguinte às 8h para a ir buscar. Estive cerca de um mês em Portugal. Não consegui perceber o que se podia e não podia fazer.

    1. Aconteceu-me uma vez uma coisa parecida: por uma diferença de 2 ou 3 minutos não me serviram uma cerveja. Foi no Canadá. Atrasos de vida….

  6. Concluí mais um dia de prevaricação. Como ser divino nada me esta vedado. Porque felizmente sei distinguir os aldrabões e, já agora, para evitar discriminações, aldrabonas e as aldrabices, sou capaz de me preparar para a realidade que virá. Sinto-me livre; e a minha liberdade está na consciência de que nada posso alterar. Portanto, se tem solução não há problema e se não tem solução também não existe problema.
    Os algoritmos são equações criadas por aldrabões para transformar uma aldrabice numa verdade. Qualquer equação que se crie para conduzir a um resultado que se deseje oferece sempre o resultado desejado, mas mentiroso. Não nos faltam por aí cientistas para confirmar isto.

    Nos últimos 12 anos os aldrabões e aldrabonas usaram tais equações para se favorecerem no plano económico e financeiro e conduziram à ruína as nações.
    Ainda no último ano, desta feita através da tal pandemia, os mesmos continuam a usar tais algoritmos para melhor cimentarem sua posição de domínio sobre as nações.
    Sou capaz de traduzir este conglomerado de aldrabices em um algoritmo para revelar os aldrabões e como eles agem.
    O problema da nação Portugal é ter um povo residente e também disperso que caiu no ridículo vaidoso de se aceitar como cientista só porque assentou o cu num qualquer banco de escola, ou liceu ou faculdade, o que se quiser escolher, e daí saiu com um papelito que só certifica que muito lhe resta para se certificar, mas que pensa ser suficiente.
    Significa isto que as letritas desumanizam pela vaidade a que cada um se outorga em sua elevada ignorância e também pela daqueloutros que para aí os enviam, neste caso seus filhos e filhas, para que atinjam por eles tal vaidade.
    Confundindo-se educação e formação creio que a única forma deste povo evoluir internamente e na diáspora será aprender com os resultados que a natureza agora nos oferece, e ainda mais oferecerá, para nascer de novo e ficar mais culto.
    Não há dúvida que o sofrimento purifica.
    Pensai agora nos mais frágeis, fazendo por eles o que devem, porque a vossa redenção vem daí.

    A boa noticia: merecemos o que vivemos; e o que ainda virá e que atingirá tantos cientistas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *