Declaração de voto


José Meireles Graça,

(Continuação do dia anterior)

Vitorino Silva é a versão cândida do socialista comum. Recolherá os votos de protesto dos que não se reveem em nenhum dos outros candidatos, sobretudo dos socialistas que detestam Marcelo e têm um grande verdete à candidata Gomes, que provoca urticária a alguns camaradas que a veem como ela é: uma pasionaria de contrafacção, cheia de proclamações e indignação selectiva contra a corrupção. Não é de crer que o Tino tenha muito mais votos do que aquando da sua última incursão nestas andanças, não obstante a generalizada benevolência de que é alvo, mas é de crer que tenha uma participação honrosa.

Ana Gomes é o que se diz acima. Recolhe os votos de socialistas ceguetas, uma variedade de que abundam numerosos exemplares, tantos que serão provavelmente mais do que os dos socialistas que apoiarão Marcelo, e a esquerda teria grande orgulho em que ela ficasse à frente de Ventura, bem como alguma direita no caso contrário, uma excruciante dúvida que excita não poucos comentadores. Em qualquer caso continuará a andar por aí, infelizmente.

Ventura é uma excelente novidade no espectro político português porque o equilibra. Há quarenta anos que a esquerda marca a agenda, por nele estar sobre-representada: um partido comunista, portanto nuclearmente antidemocrático; um partido radical, depositário das demências típicas da seita, cá e em toda a parte; e um partido socialista francês quatro dias por semana, e tradução atamancada da social-democracia nórdica nos outros três. Com o Chega!, tem-se um partido radical de direita, que vem preencher um vazio, no caso apimentado com o ódio aos vícios, compadrios e distorções que a hegemonia do centrismo e, recentemente, uma versão socialista mais virulenta, acumularam no sistema. A personalidade do líder cola bem a um partido deste tipo, vociferante, indignado, topa-a-tudo em havendo causas sem patrocínio. A candidatura de Ventura é uma etapa na caminhada para chegar, não à Presidência, mas a um futuro governo de coligação. E a sua simples presença nos debates, se lhes rebaixa o nível, por uma típica inclinação para a peixeirada, vem pôr no espaço público, quer se goste ou não, questões que dele andavam arredadas, ao mesmo tempo que aumenta a pressão sobre a outra direita, a tradicional, para verberar o imenso desastre da governação que trouxe o país à situação em que está.

(Esta direita é necessária, e só não existe há mais tempo porque as coisas levam tempo a chegar às nossas praias. A necessidade de pôr nas prateleiras do supermercado da política ideias que tinham clientes mas não oferta levou à defesa de retrocessos civilizacionais como a prisão perpétua, que até Salazar nunca achou necessária, e discutir, como se não estivesse em causa a negação de uma das poucas coisas de que Portugal se pode genuinamente orgulhar, assuntos como a pena de morte. Isto e mais. Embora: no país onde um estalinista empedernido como Jerónimo tem uma palavra a dizer na governação, e há quem leve a sério as tretas delirantes de uma académica de pacotilha como Joacine, para não falar do animalismo repelente do Eng.º André Silva, era o que faltava se no extremo oposto não pudesse haver quem zurzisse descabeladamente estas curiosidades).

Amanhã continua. Stay tuned.

5 comentários em “Declaração de voto”

  1. “…Há quarenta anos que a esquerda marca a agenda, por nele estar sobre-representada…”.
    O (tardio) aparecimento de um André Ventura está a multiplicar pânico nos actuais empregados da política. O eleitorado Estado-dependente, aos mais variados níveis, não vai mudar significativamente o seu usual sentido de voto.

    Mas existe uma metade do eleitorado, 5 milhões, de nunca convencidos pelo que lhes foi dado, politicamente, para engulir boca abaixo. Muitos, criteriosamente, nunca votaram exactamente porque incapazes de deglutir toda a sopa de pedra das esquerdas que lhe colocavam no prato, mesmo debaixo de insuspeitos nomes, tipo consommé PSD ou mesmo CDS.
    Se só 50% de esses se der ao trabalho de degustar, por boas razões, um aparentemente indigesto caldo A.V., isso seria o entornar do actual regabofe esquerdista.
    Nem PSD nem CDS, ali nunca ninguém assumiu representar uma direita a sério. Erros pagam-se. “so far so very good”.

  2. ‘Ventura é uma excelente novidade’, novidade?
    Já uns bons anos que aparece em feiras e nos bairros fora das cidades uns vendedores de calcitrim da cobra, que também não se sabe do que feito mas não é patrocinado pelos evangélicos, e também apresenta um maço de cartas ‘está aqui pra todos lerem’ com elogios curativos.
    Palavra d’honra, ao que chegamos!

  3. OLHÓ PASSARINHO
    Marcelo não passa de um ator sinistro, com aquele sorriso montado, hipócrita e manhoso ao ouvir nos debates quem o enfrenta, deixando frequentemente cair a máscara quando alarvemente os interrompe numa postura professoralmente ameaçadora de vara em riste.
    Como se em vez de concorrente fosse comentador e sentenciador implacável, à revelia dos princípios que não se cansa de apregoar .

  4. É isto. Só. Lucidez certeira, análise crua e verdadeira. Impressionante como veicula a opinião de muita gente, que não tem que ser de bem, nada disso, mas que pensa exatamente assim. Obrigado Meireles Graça, I’ll stay tuned.

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