Os melhores livros do meu ano (1)


Pedro Correia,

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É sempre assim. Chego a Dezembro e elaboro o meu balanço de livros e filmes. Neste ano de pesadelo, como muitos de nós classificamos 2020, os meus livros ganharam por larga vantagem aos meus filmes. Apesar do confinamento, ou talvez até por isso, apeteceu-me muito mais mergulhar na leitura do que assistir a filmes. Ler e cozinhar foram, aliás, os meus passatempos favoritos no ciclo de 12 meses que agora chega ao fim.

Os filmes foram ficando para trás. Sendo com frequência trocados também por séries, vistas ou revistas – dos clássicos Columbo e Uma Família às Direitas até ficções televisivas contemporâneas de inegável qualidade, como a intrigante Shetland, a devastadora Hinterland, a negra Absolvição, a sombria Linha Invisível, a desbragada Narcos, a tensa Os Crimes de Valhalla, a cáustica Barão Negro, a surpreendente Hierro, a empolgante Salvação, a imprescindível The Crown. 

 

Pois desta vez os livros venceram por larga margem: 100-40. Uma goleada, como se diz em linguagem futeboleira. Refiro-me apenas aos livros lidos integralmente neste 2020 que nos virou a vida do avesso: os que abandonei a meio, fosse por que motivo fosse, não entram nesta contabillidade. 

Durante três dias, começando hoje, deixarei aqui a lista dos dez melhores destes cem, multiplicada por três: a primeira, já de seguida, respeitante só a autores portugueses. Amanhã virão os autores estrangeiros. Depois de amanhã, recordo os dez que mais gostei de reler. Títulos sempre acompanhados por duas ou três frases sobre cada obra.

Cada lista fica por ordem alfabética. Podia ter sido outro o critério, mas prefiro este.

 

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A PAZ DOMÉSTICA, de Teresa Veiga (1999). Romance de estreia desta escritora avessa a protagonismo mediático, mais conhecida como contista. Relato sincopado do singular percurso de uma mulher ao longo de um quarto de século de convulsões políticas em Portugal, com drama e comédia entrelaçados.

 

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de José Saramago (1995). Ponto culminante da literatura portuguesa de ficção em matéria de distopias. Lúcida descrição de um mundo sem fronteiras espaciais ou temporais convulsionado pela cegueira colectiva. De leitura quase obrigatória em tempo de pandemia.

 

GAIBÉUS, de Alves Redol (1939). O neo-realismo português entrava em cena neste romance, trocando as personagens individuais pelo protagonismo colectivo de humildes trabalhadores agrícolas das Beiras que desciam ao Ribatejo para ganhar a vida em tempo de ceifas e colheitas. Quase como escrita de repórter.

 

GAIVOTAS EM TERRA, de David Mourão-Ferreira (1959). Quatro novelas que marcaram a estreia em ficção deste grande poeta. À sua maneira, cada uma celebrando com nostalgia a Lisboa burguesa de meados do século XX. Duas delas originaram filmes, realizados por Jorge Brum do Canto e José Fonseca e Costa.

 

KURIKA, de Henrique Galvão (1944). Muitos ignoram que o futuro opositor de Salazar se distinguira antes como escritor, sobretudo de temática africana, como reflexo dos anos vividos em Angola. Este é um romance em que os animais surgem em surpreendente destaque, num contraponto português a Lassie ou Bambi. 

 

QUANDO OS LOBOS UIVAM, de Aquilino Ribeiro (1958). Romance-libelo sobre a luta dos camponeses da Beira Alta pelo cultivo de baldios que valeu ao autor um processo judicial e a ameaça de prisão. Inesquecível, a longa cena desenrolada num Tribunal Plenário, com palavras desassombradas em desafio à ditadura.

 

SILÊNCIO PARA 4, de Ruben A. (1973). Quatro personagens em diálogo neste romance incompreendido à época. Obra imediatamente anterior à revolução, ganha em ser lida à distância de quase meio século. Por ser sinal evidente de um fim de ciclo: a mudança de costumes antecipava o vendaval político.

 

TERRA MORTA, de Castro Soromenho (1949). Houve um tempo em que a literatura portuguesa não se circunscrevia ao continente europeu. Entre o legado dos nossos escritores africanistas distingue-se este apaixonado e pungente retrato da gente e do espaço em zonas remotas de Angola na era colonial. 

 

VIVER COM OS OUTROS, de Isabel da Nóbrega (1964). Um prodígio formal, este romance escrito da primeira à última linha num discurso directo que nunca soa a artifício. Na Lisboa privilegiada em que se anteviam os primeiros sinais de desagregação das classes sociais que funcionaram como âncora do Estado Novo. 

 

VOLFRÂMIO, de Aquilino Ribeiro (1943). Romance escrito quase em tempo real, no auge da guerra, quando ingleses e alemães disputavam as riquezas minerais do interior português, aproveitando a nossa neutralidade no conflito. Com personagens credíveis e uma impressionante riqueza vocabular, marca distintiva do autor.

26 comentários em “Os melhores livros do meu ano (1)”

  1. a imprescindível The Crown

    Eu prescindi dessa imprescindível série.

    Que interessam as aventuras e desventuras de uma casa real quando (1) há montes de casas reais, e (2) não se é monárquico?

  2. Há dias tive na mão uma edição da Torre da Barbela do Ruben A. — bela prenda que teria sido… Mas cheguei ao balcão e reparei que estava na ortografia do PS e do Lavoura e por isso deixei-o lá… Que coisa triste e lamentável. Nunca lhes hei-de perdoar o que fizeram à nossa Língua. Para sempre inimigos.

    Se alguém souber onde encontrar uma edição antiga normal, avisem pf.

    1. Tenho “A Torre da Barbela” em edição recente da Assírio & Alvim, em ortografia correctíssima. Aliás como “Silêncio Para 4”. Nem eu leio livros cheios de consoantes mutiladas. Sou irrevogavelmente contra.

  3. Assim os viajantes deste blogue tomassem estas leituras como imprescindíveis. Obrigado pelas lembranças.
    Não lidos: Teresa Veiga, Henrique Galvão, Castro Soromenho e «Volfrâmio» de Aquilino.
    Terei mesmo que ler Teresa Veiga, uma lacuna quase sem nome, e começarei por este «A Paz Dioméstica»
    Permito-me lembrar «Viver Com os Outros», lido em 1966, tantas vezes relido, e não resisto a deixar o diálogo final:

    «– Lá fora, apagaste a luz, amor?
    – Apaguei.
    – E fechaste o gás, meu amor?
    – Sim, fechei.
    – Mas há uma porta que range… Tinha de ser…
    – Eu vou fechá-la, amor, eu vou já ver. – Era a porta da varanda. Abri-a de par em par. A fresca noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sozinhos. Oh, esta alegria de não estarmos sós.»

    1. Grato pela transcrição que aqui deixa. Gostei muito deste romance, das primeiras às últimas linhas (essas, precisamente). Um arriscadíssimo exercício de estilo que Isabel da Nóbrega supera com distinção.
      “Viver Com os Outros” merece nova edição. Ao encontro de leitores que desconhecem esta obra.

  4. Já que não dei sugestões culinárias no outro “post” dou neste.
    Pastéis de nata de bacalhau.
    Massa folhada do pastel de nata com o recheio do pastel de bacalhau, e vai ao forno.
    Experimente, e diga qualquer coisa.

  5. a luta dos camponeses da Beira Alta pelo cultivo de baldios

    Valeria talvez a pena ser mais explícito: a luta dos camponeses da Beira Alta contra o Estado pelo cultivo de baldios e contra a sua florestação.

      1. Sobretudo a luta contra a apropriação dos baldios pelo Estado e contra a intromissão deste na sua gestão.
        Uma luta que continua ainda hoje.

        1. Não continua nada, as comissões de baldios (sempre infiltradas por elementos do PCP como é costume) agora dedicam-se ao aluguer de áreas para os empresários do partido socialista espetarem aerogeradores estupidamente caros na nossa paisagem e a destruir as nossas serras — mas a electricidade não há meio de ficar nem mais verde nem mais barata.

          E com esse dinheiro comprarem jipes e pagam pessoal de manutenção das áreas subvencionadas. Ou seja, não é dinheiro que reverta para a comunidade, é para eles.

          1. Para resumir, os baldios, que teoricamente seriam do povo, para seu uso livre, bem entendido (uma herança do tempo da monarquia, eram doações reais ao povo das aldeias para seu uso comum) — são hoje para uso da comissão de baldios, permeáveis às lutas políticas e dos ódios pessoais frequentes na província. Se é isso que se entende por “povo” então a luta é a do povo contra o povo: o fruto mais sumarento das repúblicas.

  6. Apontas aí algumas séries excecionais, como Hinterland (Netflix), Shetland (Fox Crime), Salvação e Barão Negro. Estas duas passaram na 2. E como sempre acontece, sem a mínima promoção. Parece que fazem de propósito para que passem despercebidas!
    Quanto aos livros que destacas e que eu também li, gostei sobretudo do “Ensaio Sobre a Cegueira”, uma distopia que nos mostra o olhar desencantado de Saramago sobre a natureza humana; de “A Paz Doméstica”, pela escrita irrepreensível de Teresa Veiga e de “Viver com os Outros”, que me deixou impressionada pelo arrojo estilístico.

    1. Grandes descobertas fiz na literatura portuguesa do século XX aproveitando a longa “prisão domiciliária” de 2020, Teresa. Essas, por exemplo. Também regressei em boa hora ao Aquilino, “fiz as pazes” com Saramago, revalorizei Lobo Antunes e conheci autores que bem merecem ser lidos com atenção.

    2. Estas duas passaram na 2. E como sempre acontece, sem a mínima promoção.

      São funcionários públicos. Tanto se lhes dá que as pessoas vejam ou não. E aliás, ter um plano e ser entusiasta de alguma coisa tirando o Benfica e os retroactivozinhos não está nas funções deles.

      1. Excelentes séries que bem mereciam ter promoção competente junto dos telespectadores. Infelizmente as produções de inegável qualidade exibidas no canal 2 parecem quase sempre destinadas a meros “happy few”, marcando distâncias higiénicas face à populaça.

  7. Boa noite Pedro Correia
    Reitero os votos que lhe enderecei por mail, um melhor 2021, saúde para si e família, saúde adequada à idade que não conseguimos estar sempre fisicamente jovens. Quanto a leituras e sem pretender maçar, permita um apontamento breve sobre o que ultimamente percorri com os olhos, dois do Camilo (Eusébio Macário, A queda dum anjo), VPValente (O fundo da gaveta), José Medeiros Ferreira (Não há mapa cor-de-rosa, a História (Mal)Dita da Integração Europeia), António Barreto (Uma Década), Zbigniew Brzezinski (The Grand Chessboard). E ando a olhar para umas coisas sobre pintores portugueses. Quanto a culinária, atrevidamente sugiro que se meta a fazer o bacalhau de cuja receita há dias coloquei no meu blogue.
    Bom ano
    António Cabral

  8. Eu fiz o contrário, caro Pedro: apesar de já não pôr os pés num cinema desde fevereiro, vi mais filmes este ano do que em que alquer outro, de todos os gêneros,como aliás já escrevi num post há uns tempos. Quanto a livros, fiquei-me por alguma literatura de viagens, li o último ensaio de Bernard Henry Lévy (sobre a reacção mundial à pandemia), estreei-me em Cortazar, li o primeira longa-metragem” do meu amigo Diogo Leite Castro (“Descrição Abreviada da Eternidade”, passe a publicidade), e conto entrar em 2021 com os policais de Daniel silva, de que tenho ouvido elogios, e com o há muito adiado Nome de Guerra, a que já aqui fizeste referência. A propósito de Rúben A., também devia tê-lo conhecido melhor este ano (afinal era o centenário do nascimento), mas tal como as comemorações do centenário do nascimento, que ficaram adiadas, também o adiei.

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