DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Cláudia Vicente: «Numa época de teste à criatividade a propósito de lembranças natalícias, a criança que sobra em mim remói naquelas que gostava de ter recebido mas não recebeu, porque, para começar, nunca existiram.»

 

Ana Margarida Craveiro: «Esta campanha presidencial está realmente ao rubro nas questões fracturantes que interessam a todos os portugueses (e consta que às portuguesas também):

1. Eu conheço mais pobres que tu. (Quem nunca viu o brilho nos olhos depois de uma côdea de pão, etc., etc.)

2. Eu estive em mais teatros de guerra que tu. (Depois de Angola 69, temos o Líbano 82. Aguardo ansiosamente pelo Kosovo 99 e Afeganistão 08.)

3. Eu sou mais anti-fassista que tu. (Um clássico, mas que nunca passa de moda. E tu, onde estavas no Abril de 71? A única resposta certa é Casablanca.)»

 

João Carvalho: «Estas parece que são as duas suecas que acusam Julian Assange de violação sexual. Da primeira ainda é possível desconfiar que esteja a tentar ganhar visibilidade para obter dividendos à custa disso. Da segunda já não pode dizer-se o mesmo, visto que é pessoa conhecida. Eu, pelo menos, creio que a reconheço por um detalhe exposto na foto.»

 

Priscila Rêgo: «Sendo os portugueses o que são, um regime mais duro não seria, provavelmente, aprovado no Parlamento. Mas o caso chama a atenção para a possibilidade de as instituições serem uma emanação da sociedade e não um constrangimento que se lhe pode impor. É como as elites: cada povo produz as que pode. O sucesso dos nórdicos talvez não esteja nas instituições, elites ou políticos que lhes caíram em sorte. Mas sim em terem cidadãos atentos, interessados e responsáveis. Portugal teve azar: ficou só com os portugueses.»

 

Rui Rocha: «Em qualquer dos partidos políticos coexistia, basicamente, dois tipos de pessoas. As que tinham uma vida fora da política e as que faziam da política a sua vida. Com o tempo, os do primeiro grupo foram à vida. Deles. Os do segundo grupo continuaram a sua vida. Na política. Como é natural, os do segundo grupo tornaram-se cada vez mais importantes nos partidos e ascenderam a funções de responsabilidade na estrutura partidária. Com todo o capital de experiência que decorre de não terem outra vida. E de terem colocado cartazes e gritado palavras de ordem em comícios. Hoje, alternam-se democraticamente no poder. E nós? Bem, nós cá vamos tratando da nossa vida. Entre uns dias que correm menos mal e outros que nos dão mais que fazer, vamos dizendo mal dos políticos. É uma estranha forma de vida.»

 

Teresa Ribeiro: «Excerto da entrevista feita esta semana pelo Expresso a Ricardo Monteiro, presidente da EuroRSCG e ex-colega de José Sócrates na escola primária, que explica em boa parte a tendência do actual primeiro-ministro para a arrogância e o acinte. Cá se fazem cá se pagam. Eheh!»

 

Eu: «Nós, portugueses, contentamo-nos com a retórica. Ouvimos um candidato presidencial que há mais de 30 anos é funcionário de um partido político falar em nome dos trabalhadores e achamos que alguém com um discurso destes só pode ser um profundo conhecedor do mundo do trabalho. Escutamos um primeiro-ministro que se diz socialista acusar a oposição à direita de pretender facilitar os despedimentos e tomamos estas declarações pelo seu valor facial, absolvendo o referido governante de todo o pecado contra o mundo laboral. Aplaudimos uma Constituição que desde 1976 nos proclama a “caminho de uma sociedade socialista” e convencemo-nos de que isto funciona como uma espécie de varinha mágica capaz de nos pôr na rota do progresso.»

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