Jorge Moreira da Silva, um homem aberto, moderno, cosmopolita, inovador e arejado, na opinião do próprio, publica um artigo de opinião no Público onde, fremente de virtuosa indignação, acha mal que o seu colega José Manuel Bolieiro, cuja “competência” sublinha, tenha feito um acordo com O Chega!. “Não se fazem acordos com partidos xenófobos, racistas, extremistas e populistas. Com partidos que, por ignorância ou perversidade moral, propalam propostas incompatíveis com a dignidade humana. Ponto!”, exclama, e eu até tremi de comoção – este Moreira sabe como tanger as cordas dos nossos mais lídimos sentimentos, vou ali beber um chá de camomila e comer um bocadinho de tofu com queijo das ilhas para me acalmar.
Não sou nem adepto nem advogado do Chega! – não preciso de versões exacerbadas e oportunistas de vários tipos de asneirol que já tinham o seu cantinho no meu partido, que acolhe, e bem, muitas capelas.
Sucede porém que almas simples como a minha gostam das coisas bem explicadinhas. E este discurso escuteiral suscita-me várias questões, a começar pela curiosidade de saber quem é este prócere do PSD, cujo nome me era familiar.
Era, e com razão: Já em tempos tropecei neste empresário do ramo das tretas ecológicas, e sobre ele bordei considerações da maior pertinência, que estão aqui. Um passado ominoso, é o caso de dizer.
Depois, acha que o Chega! é uma data de coisas que será ou não (os próprios, se acham que a carapuça não lhes serve, que se defendam, se entenderem que o que diz Jorge vale a pena refutar) mas deve ter pouca confiança em Bolieiro, no PSD e CDS locais e no acordo. Porque toda a gente envolvida neste negócio deve saber o que lhe convém, que é apear o PS, e é precisa muita falta de confiança para imaginar que o Chega!, parceiro minoritário, está em condições de cobrar um preço que democratas não possam pagar.
Jorge “… recorda que em 2015 deu voz à primeira reação oficial da PaF na noite eleitoral defendendo que ‘quem ganha governa’ e que mantém a posição contra as coligações ‘negativas para derrubar o governo liderado pelo partido mais votado…”
Olha que bem. E como o tal governo feito por quem ganhou não conseguiria governar porque não aprovaria coisa alguma, seria necessário acreditar que o eleitorado, em novas eleições, corrigiria o torto, dando a maioria absoluta a quem não a deu dias antes, e castigando o partido proscrito com quem ninguém quisesse fazer acordos. Isto, com o PCP, sobre o qual, tirando os comunistas, ninguém tem ilusões, talvez tivesse pernas para andar (deixo de lado as implicações constitucionais, que não são as mesmas para o governo do país e o das ilhas). Mas com o Chega!? Não me parece.
O homem acredita nisto. Já eu acho que quem nisto acredita é aventureiro, Jorginho que tenha lá paciência. E como, na prática, o PS não deixará, com entusiasmo, de encarar com a maior simpatia estes pontos de vista, cabe lembrar a afirmação cínica de Salazar: em política, o que parece é.
Os cínicos, às vezes, têm razão.

Excelente texto.
Os bois pelos nomes.
A.Vieira
As personagens políticas acabaram por perceber que quanto mais batiam no CHEGA, mais ele crescia, consequentemente optaram por bater naqueles que com eles se relacionam. É uma mudança de estratégia que o tempo vai tratar de mostrar ser correta ou errada.
Ao fim de pouco mais de um ano, continua-me a fazer espécie falar-se do CHEGA como a extrema direita. É uma expressão corriqueira, fala-se em extrema direita com uma leveza, com uma certeza, com um à vontade, como se fosse verdade absoluta. Mas não se fala no BLOCO, ou no LIVRE , ou até no PCP como a extrema esquerda.
Temo que estejamos a assistir ao nascimento de mais um rótulo social, uma tag. O que se torna ainda mais proecupante. Passou a ser socialmente aceite falar-se de extrema direita, mas socialmente inaceitável falar-se de extrema esquerda. Entretanto fala-se de processos crime por difamação a darem entrada pelo CHEGA e um dos visados será o próprio primeiro ministro. A ver se desta forma termina esta sugestão errónea e ofensiva com que se tem rotulado o partido. Creio que peca por tardia. Se alguém me chama-se de racista ou xenófobo, eu sentir-me-ia ofendido e processaria quem me dirigisse essa injúria.
A ânsia em denegrir, não impede tanta gente de mostrar ignorância, gente que deveria, pelo menos, dar uma ideia de inteligência e cultura.
Mas não, não se importam de dar estas calinadas culturais. Que infelizmente ninguém aponta, aliás, até dão seguimento.
E ninguém pensa que, se fosse um partido racista ou xenófobo, não teria sido legalizado. Mas foi. Se foi é porque não é. Mas como já nos habituamos, a justiça popular e de opinião pública, se servir certas narrativas, é válida.
Melhor será abrir negociações com diabo que sempre os pôs de lado.
Desta vez, a coisa é tão clara que até dói: quem lhe deu o tacho supimpa na OCDE (em Novembro de 2016, noto), mandou-o vir da OCDE e deu-lhe uma página inteira no Público (aquele jornal que não precisa de quem o compre, assine ou lá ponha anúncios para continuar a sair) para ele fazer obra. E ele fez. E, como por magia, está tudo a falar do que escreveu um senhor de óculos que, até anteontem, poucos sabiam quem era (e agora, com barba, ainda menos). Isto é tudo tratado nas altas esferas, a gente só anda cá para pagar.
Um passado ominoso, é o caso de dizer.
De que é o passado ominoso? De Jorge Moreira da Silva ou de José Meireles Graça?
Correção: “De que” –> “De quem”.
O moreira videirinho a mostrar serviço , que a vidinha está difícil…
JSP
Foi das personagens mais sinistras (leia-se: socialista) do governo de Passos Coelho. Calado faz um excelente serviço.