Martins da Cruz: «Nunca li na cama»


Pedro Correia,

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«Não gostaria de jantar com nenhuma figura pública. Estou farto de aturar figuras públicas»

 

Antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, o embaixador António Martins da Cruz acedeu a responder a este questionário ao telefone. Sem esconder algum sarcasmo pouco diplomático nas respostas. O maior sonho? «Nunca mais ter de responder a entrevistas.» E o maior pesadelo? «Responder a entrevistas.»

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de muitas coisas, naturais e sobrenaturais. Como qualquer pessoa. Mas sobretudo tenho medo de falhar.

Gostaria de viver num hotel?

Infelizmente, passo mais tempo em hotéis do que em minha casa. Não gostaria de viver permanentemente num hotel.

A sua bebida preferida?

Depende das horas do dia. Mas há uma que se bebe a qualquer hora: champanhe.

Tem alguma pedra no sapato?

Quando entram, procuro sacudi-las. O mais depressa possível.

Que número calça?

Depende das estações do ano. Mas procuro sempre não calçar os sapatos dos outros.

Que livro anda a ler?

Ando a ler quatro ou cinco ao mesmo tempo. O que está a impressionar-me mais é Os Próximos 100 Anos, de George Friedman. Outro livro muito interessante que ando a ler relaciona-se com a presença da China em África.

Tem muitos livros à cabeceira?

Não tenho nenhum livro à cabeceira. Nunca li na cama. Não gosto de ter dores no pescoço.

A sua personagem de ficção favorita?

O Tintim. Aprendi a ler francês aos seis anos lendo as aventuras do Tintim. Também gosto muito da dupla Blake & Mortimer. Quem não leu A Marca Amarela?

Rir é o melhor remédio?

Rir é sempre um bom remédio. Às vezes não é o melhor.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Deve ter sido a ver um filme, embora já não me lembre qual foi. Quem não chora a ver um filme?

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Tudo depende das horas do dia. Depende das circunstâncias.

É bom transgredir os limites?

Tudo depende de quem meça os limites.

Confesse lá: qual é o seu prato preferido?

Prefiro sempre peixe. O meu prato favorito é peixe grelhado. Gosto muito de garoupa. Infelimente só consigo comê-la em Portugal.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Infelizmente, de vez em quando, a gula.

A sua cor preferida?

O vermelho.

Prefere o vermelho por convicção clubística?

Não. Mas gosto de gravatas com tons vermelhos. Talvez também por ser a cor do Direito, o curso que tirei.

Costuma cantar no duche?

Não. Sou incapaz de cantar. No duche, na rua, seja onde for. Era sempre expulso das aulas de canto coral. Como diria um escritor do século XIX, falece-me o talento para isso.

E a música da sua vida?

Qualquer música dos Beatles. Ainda não foram ultrapassados.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Porquê? Quem não gosta, engole. Não percebo porque há pessoas que querem alterar o hino.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

A bandeira é um símbolo. É como a Pátria: não se discute. Quem começa a discutir os símbolos acaba a discutir tudo.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Não gostaria de jantar com nenhuma figura pública. Estou farto de aturar figuras públicas.

As aparências iludem?

Completamente.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Não faz a maior parte das coisas que fazem os soi disant cavalheiros que andam por aí.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

A gravata. A escolha da gravata é a única liberdade de fantasia que um homem da minha idade se devia permitir no vestuário.

Qual é o seu maior sonho?

Nunca mais ter de responder a entrevistas.

E o maior pesadelo?

Responder a entrevistas.

O que o irrita profundamente?

A demora em entender os outros.

Qual a melhor forma de relaxar?

Férias. Com calor e à beira-mar.

O que faria se fosse milionário?

Exactamente a mesma coisa que faço hoje. Felizmente não sou.

Casamentos gay: de acordo?

Não.

Uma mulher bonita?

Quando eu era novo, a Catherine Deneuve.

Acredita no paraíso?

Em termos teológicos, sim.

Tem um lema?

Tenho um lema. Mas como é em latim não quero obrigar os leitores a recorrer ao dicionário.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (17 de Julho de 2010)

11 comentários em “Martins da Cruz: «Nunca li na cama»”

    1. A Maria Dulce é uma boa diplomata
      Eu não sou! E nem a BD e os Beatles salvam esta irritante personagem: lamento que nos tenha representado diplomaticamente com tanta falta de diplomacia.
      Next!
      E que seja melhor do que este, o que não será difícil…

      Beijinho e que o sábado esteja a ser bom.
      🍂🍁
      Maria

      1. Pelo contrário — dizer que os Beatles nunca foram ultrapassados, afundam-no. Apenas o salva não querer ir jantar fora com o Obama ou algum outro ídolo das esquerdas populistas.

  1. AMC quando fala nas TVs procura dar um ar de eu é que sei como tudo se faz.
    Nunca acerta, até aqui neste Quem fala assim… trás gravata roxa / grená (sou daltónico nestas duas cores) e gosta do vermelho das gravatas.

  2. “Tenho um lema. Mas como é em latim não quero obrigar os leitores a recorrer ao dicionário.”

    Que pedantismo! Que homem insuportável.

    1. Precisamente, chamou ignorantes a todos os leitores do DN, no que ao latim diz respeito.
      Mas não resistiu a lançar um ‘soi disant’…
      E aquela do ‘falece-me o talento’ também é do mais ‘fino recorte literário’, pense je de quoi.
      E agora vou ali beber uma taça de champanhe (do francês, cela va san dire…)
      😂🤣😂
      Maria

  3. Boa entrevista, soft quante baste .
    Só não concordo com a sua mulher de sonhos, já tem idade para ter ouvido falar da Marilyn Monroe. Aquela cena do vestido a levantar num dia de temporal……e a doce Marilyn numa tenue tentativa de o segurar.
    SL

    1. Não é num dia de temporal, é num dia de muito calor, numa daquelas saídas de ar do Metro…
      Boa entrevista?
      Bem, as perguntas são as habituais; agora as respostas…

      Bom domingo.
      🍂🍁
      Maria

      1. Maria
        Não tire o encanto. Para a minha geração foi num dia de temporal.
        Foi há tantos anos, ainda me recordo. Hoje só dá bum buns, nem se vê a cara.
        SL

        1. Claro que não, até porque eu adoro a Marilyn 🙂
          Mas se a quer ver mesmo sexy, de vestido vermelho, é no filme Niagara: a não perder!
          (embora me pareça que a sua cor é o verde…)
          🍂🍁
          Maria

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