Aos Amores*
A Ana Rita foi o meu primeiro amor. Uso o termo “amor” de forma liberal, porque “paixão” seria completamente inapropriado. É que eu tinha entre 8 e 10 anos na altura. Não recordo exactamente a Ana Rita, apenas que era do meu grupo dos tempos livres, para onde ia depois da escola, e que eu terei confessado isso um dia à minha mãe, que provavelmente sorriu, disse algo como “sim filho?, que bom…” e voltou à sua vida pensando que eu estaria a crescer demasiado depressa. Uns anos mais tarde (ou provavelmente meses), veio a Elsa. A minha memória faz-me pensar que terá sido muito depois da Ana Rita, mas pode ter sido um mês apenas. Nessa altura isso era muito tempo. Sei no entanto que era da minha turma no 1º ano do ciclo (5º ano hoje) e que era bastante mais desenvolvida que eu (leia-se: notava-se que já tinha algum peito). Dizer que uma rapariga era mais desenvolvida que eu não é uma confissão excepcional: qualquer rapariga da minha idade era mais desenvolvida que eu. Eu diria que qualquer mulher com uma diferença de idade de cerca de 10 anos será mais desenvolvida que eu ainda hoje. Mas na altura isso era normal: é que eu era um rapaz, e os rapazes são completamente imaturos em relação a raparigas.
Isto é factual, mas será talvez meta-factual. A diferença não é apenas que as raparigas amadurecem física e psicologicamente mais cedo que os rapazes, mas que os rapazes não parecem amadurecer de todo no que diz respeito a raparigas. Se víssemos um gráfico do desenvolvimento emocional de rapazes por tópicos ao longo dos anos, veríamos uma progressão em todas as categorias e estas mais ou menos ao mesmo nível. No que diz respeito a raparigas, os rapazes atingiriam um determinado nível por volta dos 8 a 10 anos e ficariam nesse nível por uns 15 anos. Eu não era diferente. Mais: era pior.
Não que eu fosse parvo para as raparigas. Não, nem pensar (pelo menos não mais que a minha androcondição impõe). Cresci numa família essencialmente matriarcal e rodeado de mulheres, quase só com exemplos femininos. Aprendi muito cedo a respeitar as mulheres. Só que eu era um… como exprimir isto bem? Bom, com a palavra de então: um coninhas. Não é que eu não fosse fixe – não, não era – mas era quase o oposto de fixe. Não tinha roupas de marca, não lia revistas fosse do que fosse, não tinha música em casa para lá das cassetes dos meus pais e preferia ficar a ler (fosse onde fosse) do que ir para o centro comercial subir e descer as escadas rolantes. Isso significa que quando tinha que interagir com uma rapariga que eu não conhecesse minimamente, ficava com os méritos orais de Frankenstein num momento de paralisia mental. A maior parte das raparigs que me conhecessem provavelmente perguntariam como poderiam encontrar a cor de rouge que eu usava quando as conhecia e jurariam a pés juntos não serem vistas na minha presença a não ser que fosse num momento de caridade cristã.
Em resumo: eu era um nerd antes de saber o que era um nerd e nem sequer sabia queStar Trek começara como série.
Isso significa que eu não tive namoradas. Os sentimentos de desejo e atracção estavam lá, como em todos os rapazes. Hormonas são hormonas e não pedem licença ao nosso cérebro para começarem a festa no nosso corpo. Por isso continuei a ter paixões ao longo da minha vida. A seguinte foi a C. (a partir daqui deixo as iniciais, que algumas das pobres vítimas ainda serão conhecidas e prefiro manter o anonimato delas – e esconder as minhas vergonhas). Eu tinha uns 12 anos e ela era da minha turma. Note-se que não era a rapariga mais gira da turma, mas havia algo que me atraía. Possivelmente porque eu me sentava com ela na aula de Trabalhos Manuais (ou Educação Visual, não sei) e ela era simpática para mim. Isso era quanto bastava: alguma rapariga que desejasse a minha devoção infinita, para obter um escravo só precisaria de se lembrar do meu nome enquanto me passasse a borracha para apagar a asneira que eu tivesse desenhado. Isto seria verdade para a maioria dos rapazes, mas para aqueles que estavam no fundo da cadeia alimentar da escola, como eu, tinham reacções algo diferentes.
A C., fora esses momentos que ela nem saberia existirem, mal notaria a minha existência. Ela namorava um rapaz mais velho e andava com o grupo de raparigas populares da escola, uma boa parte delas oriundas da minha turma. Era das coisas mais curiosas: eu dava-me bem com todas as raparigas populares da minha turma. Passava as tardes em casa de uma delas (que era uma amiga da família) e era lá que umas duas vezes por semana o grupo se juntava. Nessa intimidade e afastados de todos, eu era aceite pelo grupo. Todas as raparigas se riam comigo, em vez de se rirem de mim, e tratavam-me como se eu fosse… normal. Uma vez descida a encosta para chegar à escola… eu era novamente o antepenúltimo rapaz mais giro da turma e que tinha ficado atrás do miúdo conhecido como “Formiga”.
Depois da C. não se passou muito. Tinha mais com que me preocupar. Mudei de escola, cheguei ao Secundário e a puberdade tornou-me excessivamente consciente da minha própria incapacidade de interagir de forma decente com raparigas. Afundei-me nos livros, nos filmes e passava os recreios a ler com outro amigo nerd (ainda mais que eu) e os momentos de ócio a perguntar-me se alguma vez teria uma namorada. Suponho que terei escrito má poesia, mas felizmente não tenho provas físicas disso. Até à S.
A S. foi provavelmente a primeira rapariga que realmente amei. Amar, como nós entendemos a palavra de forma adulta. Claro que o meu amor era obsessivo, doentio e consumia-me de forma inapelável, mas era um amor verdadeiro. Não era uma paixoneta por uma rapariga gira, popular e que me teria um dia dirigido um sorriso. Era real. Dado que esse amor não trouxe com ele qualquer cura para o meu embaraço perante raparigas, eu continuei sem agir. Vi a S. a começar a namorar o R., um rapaz enorme, o dobro do tamanho dela, popular mas burro como uma manada de vacas, e não comprendia. Ele não era engraçado, simpático, esperto nem sequer fumava. Tinha talvez umas roupas de boas marcas, mas não era o único. Até hoje é um mistério. Claro que a minha imaginação concebeu cerca de 1.763.901 formas de o R. ser exterminado (ou pelo menos removido de cena) em momentos que me elevariam a herói da S. Claro que passei meses sem dar o mais pequeno passo.
Até que, num momento de loucura, após um encontro de fim de semana da turma, lhe perguntei quando ia para casa, se queria namorar comigo. O estômago estava provavelmente na zona dos tímpanos, o fígado dava voltas em torno do esófago, o coração fzia iô-iô entre os pés e o cabelo enquanto esperava uma resposta. Seria agradável dizer que ela confessou o amor que sentia por mim e que teríamos passado por um periodo infinito de felicidade (i.e., cerca de um mês), mas a verdade é que ela sorriu com compaixão e me disse que não.
A obsessão não amainou e ameaço consumir-me excessivamente. Durante os testes, eu olhava para ela, durante as aulas, eu observava-a. A R. e a T. fizeram-me chegar as suas manifestações de interesse pelas vias regulares: dizendo à amiga, que explicou à prima, que disse ao irmão, que informou o colega de futebol, que passou isso ao colega de turma que por acaso ia comigo no autocarro nº 4 durante 3 paragens – convém explicar que elas eram ambas da minha turma, mas estas coisas não se dizem de forma directa. Por esta altura eu já não andaria pelo antepenúltimo lugar, mas não era popular. Ainda assim a R. e T. eram giras, simpáticas e eu dava-me muito bem com elas. Mas não eram a S.
Até que decidi – sim, decidi – que não seria mais consumido pela paixão. Decidi-me a largar esse desejo pela S. A fechar o meu coração à sua existência. Caso contrário, não viveria. Foi mais fácil do que eu supunha. Num dia eu passava os dias a pensar nela e a observá-la, um par de dias mais tarde não o fazia. Suponho que o meu amor terá abrandado e que aquilo que eu sentia era antes de mais uma obsessão – adolescentes são solo fértil para as cultivar – e que o amor teria decidido seguir em velocidade de cruzeiro. No entanto era como se eu tivesse sentido o meu coração a endurecer (já expliquei que eu lia muito e via muitos filmes?) e passei depois vários anos até sentir que me tinha apaixonado novamente, já na universidade.
A universidade é outro tempo e não falo nisso. Foram 20 anos mas era eu já (mais ou menos) adulto. Não conta para estas memórias.
Falar da Ana Rita, da Elsa, da C. e da S. não é dar conta de toda a minha vida amorosa até aos 18 anos. Nada disto refere os namoricos de Verão, os jogos de bate-pé (cujas regras me pareciam algo esotéricas), os beijos (chochos, no termo estranhamente apropriado que usávamos) em excursões – perdão, “visitas de estudo” – ou festas e idas às matinés da discoteca local. Aos poucos tais actividades foram removendo a minha incapabilidade de interagir com raparigas de forma mais física (se as circunstâncias fossem assexuadas, eu dava-me melhor com raparigas que qualquer outro rapaz que eu conhecia) e aprendi aquilo que qualquer rapaz deve aprender na adolescência. Nunca fui popular, mas não precisava de o ser. Quando olho para trás, vejo que desejei, tive paixões e amei. Não fui particularmente retribuído, mas para dizer a verdade pouca gente que eu conheço diz que o tenha sido. Penso que a minha experiência amorosa, enquanto cresci, terá sido um exemplo da de qualquer rapaz, com as pequenas variações devidas às personalidades individuais. Todas as raparigas que fizeram parte desse meu imaginário estão gravadas na minha memória exactamente como eram na altura, mesmo quando as conheço hoje, mulheres da minha idade. Não tenho nostalgia, mas tenho uma enorme gratidão por terem sido parte tão importante da minha vida. Mesmo que nunca o tenham sabido.
* – título demasiado bom para não roubar Sérgio Godinho

Como é que o João André se lembra dessas miúdas todas da sua infância e adolescência?! Tem a certeza de que se lembra de facto delas, que não está a inventar nada?
Lembro-me de todas (pelo menos até certo ponto) e também de outras que não referi e que fariam a história mais longa (não foram assim tantas, mas acrescentariam alguns nomes). Sempre imaginei que assim fosse com toda a gente, mulheres ou homens.
Eu não me lembro de praticamente nenhuma miúda antes dos meus 18 anos. Tenho uma vaga ideia de 3 ou 4 nomes e nada mais.
E imaginou muito bem, João André, há mais pessoas assim: amaram muito e não fizeram grande coisa, talvez porque os tempos eram outros e havia muita repressão…
Gostei imenso de ler estas suas memórias, subjectivas ou não 🙂
🍂🍂
Maria
Amar é como a opinião: não podem ser reprimidos. Apenas sua expressão o pode ser. E no amor costuma sê-lo, começando por nós próprios.
Padrinho, objectivamente e cientificamente devo dizer-lhe que sin tetas no hay paraiso. Aliás, a belle toujour ali abaixo postada confirmou isso no filme em que participou, com o mesmo nome. Este desenvolvimento das raparigas é sempre motivo de crescimento para um rapaz.
Porém uma mulher boa ou boa mulher não necessita de decote.
Devo ainda motivá-lo para o facto que terá bastante tempo para recuperar todas as letras do abecedário, para voltar a viver todos esses momentos incompletos.
Porém não se deixe arrastar por ondas feministas se pretender concretizar o sonho. Uma feminista é uma espécie de machista, isto é, querem ser donas de tudo e de nada.
Uma dona de casa é verdadeiramente uma dona de tudo, isto é, de toda a família. E quando assim é não vale a pena fazer guerras porque elas ganham sempre. Um gajo tem de se fazer de morto nestas matérias. Em matéria de família são elas as donas, elas as mulheres.
Porém um feminista é como um fofinho. Mas para isto há gatos e cachorrinhos.
Seja naturalmente macho no amor e nas relações. As raparigas desenvolvidas gostam disto.
«recuperar todas as letras do abecedário»
Suponho que isso seja referência a erros
…
Espero que sejam de tipografia, de me esquecer de carregar nalguma tecla ou de o teclado não funcionar a 100% (escrever num teclado alemão não facilita). Espero bem que não seja asneira minha…
Não, padrinho. Não existem erros. O abecedário é o concerto que completa aquela parte que foi só uma parte.
Obrigada por esta partilha, tão tocante pela sinceridade que se percebe em cada palavra.
Obrigado Teresa.
Gostei muito do seu post. Já passei os 50 mas ainda me lembro de todos “os meus amores”, desde os correspondidos até aos em que as “miúdas” nem sabiam que eu existia
Pedro Cunha
Acho que de certa forma lembro melhor aqueles onde elas não sabiam que eu existia.
Um dia, quando fosse grande, como eu gostava de escrever assim parecido…!
Também eu
Obrigado.
Acho que deveria ter recomendado, logo de início, o Pet Sounds, dos Beach Boys, como banda sonora para o seu “post” a propósito da (nossa) angustiante adolescência…
O “balio” admirou-se de «Como é que o João André se lembra dessas miúdas todas da sua infância e adolescência?!»… caro JA, não está sózinho nisso: eu lembro-me de todas as minhas “paixonetas” desde os meus 8 anos, ou seja da “paixoneta” que senti pela vizinha mais velha (é que ela até tinha para aí uns 17 anos…) que passava as tardes a ouvir (do que mais me lembro, até era aquele pedaço de merda infantil que é) o “Obladi Oblada”, dos Beatles, até à mais atrevida, quando eu já tinha uns 16 anitos mas que me vi aterrorizado com os seus avanços desavergonhados, para os quais a única solução que até consegui encontrari foi fugir, mesmo apesar do que eu sentia por ela: como é que eu poderia admitir que eu, macho, temia caminhar por caminhos de que não sabia nada quando ela até parecia saber tudo?
Tenho um filho com quem tive o privilégio de conviver diariamente, a partir dos seus 15 anos aos 18 anos e, para minha alegria, apercebi-me que a sua geração até conseguiu lidar com essa questão de uma maneira mais natural do que a minha… e por isso até nem me admira que ele, até hoje, só tenha “conhecido” 4 mulheres.
Não sou um grande apreciador do Pet Sounds (preferência musical pessoal, compreendo a genialidade) mas também percebo onde quer chegar.
Também me parece que quanto melhor se lida com estes sentimentos menos será necessário “saltar” de amor em amor. Não há necessidade de avançar na descoberta bocadinho a bocadinho, com cada parceira/o a fornecer apenas uma parte do puzzle. É muito melhor fazer como o seu filho: ter relações com significado que permitam descobrir mais.
Adorei a sua história. Obrigada pela partilha
Obrigado.
Questiono, pelo menos por mim, a parte da memória corresponder total e realisticamente à verdade dos factos.
O cérebro é um escritor e a vida uma história, todas as biografias têm as suas liberdades poéticas.
Garanto que aquilo que escrevi é, fora a brevidade, a realidade que lembro. Já se a minha lembrança é absolutamente factual, não o garanto. Por isso chamo a esta série “memórias subjectivas”.
Não sei se conseguiria abrir-me com esta franqueza, mas reconheci-me em algumas destas passagens, e várias vezes lembrei-me do hit do Jobim. “Os desafinados também têm coração”.

Penso que em maior ou menor extensão, todos nós vivemos alguns destes episódios Paulo. Abrir-me desta forma parece-me normal. Já passaram bastantes anos e são memórias que guardo com carinho e que me ensinaram muito, mesmo quando eu não percebi conscientemente a lição. São pedaços prvados de quem fui a caminho de ser quem sou.
Inventada ou real está muito bem a sua história e faz-nos lembrar as nossas paixonetas infantis. Acontecem a todos e não creio que nos esqueçamos delas. E escusa de pôr o masculino lá tão em baixo. Sou mulher e vivi coisas semelhantes:). Não me parece que a diferença de sexo faça assim uma diferença abismal neste caso.
“Não me parece que a diferença de sexo faça assim uma diferença abismal neste caso.” Penso o contrário. Pelo menos no meu tempo (há muitos anos) acho que era diferente e muito. Para os rapazes era muito sexualidade (ou generalizado) e para as raparigas não era, Talvez tenha mudado com o tempo. Não sei bem como é agora.
Bom dia, Referia-me ao desacerto com as raparigas (rapazes); a “amores” de semanas, meses, dias; ao “sem pena nem paixão” de passar de uns a outros; ao nada em que o alvoroço redundava. É verdade que nós miúdas não pensávamos em sexo, havia atracção e desejo de proximidade. E ter namorado fazia-nos subir na escala, acrescia valor.
Não sei se os rapazes pensavam em sexo dessa forma. Pelo menos eu não pensava. Sexo era um conceito a que eu almejava, como almejaria ter uma casa enorme com vista para a praia e uma sala de cinema privada. Era bom, mas eu nunca pensaria que isso realmente aconteceria.
Como referi acima noutro comentário, as histórias são reais (se bem que truncadas por questões de espaço). Têm liberdades (não posso garantir que terão sido 1.763.901 formas de imaginar o R. a ser exterminado) mas escrevi aquilo que me lembro. Claro que o nosso cérebro cria a sua realidade e preenche lacunas com pormenores que nos parecem tão reais como os factos a que se ligam. Quanto a isso, nada a fazer.
A realidade é que as raparigas amadurecem mais cedo que os rapazes e, por via da sociedade, também têm que ter certos cuidados que são dispensados aos rapazes. Basta este exemplo: um rapaz que tivesse múltiplas namoradas era um garanhão. Uma rapariga… bom, não preciso de o escrever.
… e lá está: “um livro está primeiro na cabeça e depois escreve-se só com as mãos…”
Neste caso estava na vida e passou para a cabeça.
Há lembranças que não se esbatem. Estas suas são tão bonitas, João André! Acredito que não haja uma alminha sequer, que depois de ler esta publicação não tenha retrocedido no tempo com um sorriso nos lábios. Afinal, todos estivemos lá, só que uns viveram e os outros estiveram apenas de passagem. Obrigada pela partilha.
Obrigado Maria Dulce. Espero que sim, que tenha feito cada pessoa recuar à sua história pessoal. Contei a minha, mas a intenção é sempre fazer as pessoas pensar nas suas.
Muito bom, João André.
Memórias de um passado que tornavam a vida de uma criança, e depois adolescente, numa intensa e enigmática aventura.
O Balio admirou-se porque seguramente nunca as viveu, ou mais certamente nunca foi criança e já nasceu assim desenvolvido, o mesmo será dizer-se, desconfiado, para este mundo cruel .
Revejo-me muito no que escreveu de si, dos seus amores desconhecidos para quem os espoletava, das suas angústias e fracassos e acredite que podia perfeitamente ser eu a escrever tudo isto.
Também fui criado num ambiente maioritariamente matriarcal onde as mulheres prevaleciam numa percentagem assaz elevada. Uma mãe, duas avós, seis tias, três irmãs, número indeterminado de primas e incontável de amigas.
Que me lembre, só de oito, pelo menos a minha mãe era madrinha.
Ora isso levava a respeitá-las exageradamente, embora em todas visse e sentisse atributos merecedores da mais profunda paixão. Todas eram lindas e encantadoras e a todas amava por igual, e da mesma maneira todas eram desconhecedoras de tanta e profunda paixão.
Na escola o meu grande amor foi a Rosinha, quando consegui negociar com o detestável Bi o lugar ao lado dela na carteira, mercê do meu berlinde abafador e de uma algibeira de rebuçados que a Rosinha roubara da loja do pai.
Ficámos noivos, mas separámo-nos logo a seguir à quarta classe quando os pais dela foram morar para Nova Lisboa.
Separámo-nos muito tristes, chorosos e jurando amor eterno.
E assim fui vivendo de fracasso em desgosto, de desgosto em infortúnio até ao dia do meu aniversário dos dezassete anos quando a indelével e formosíssima senhora minha vizinha, exactamente com o dobro da minha idade, num momento de descuido dos demais ter aproximado a boca do meu ouvido e sussurrar-me: tenho uma prenda para ti, vai logo à noite à minha casa.
Recordações, feliz de quem as tem. Só o Balio é que não.
Grande Abraço.
Obrigado pela sua partilha caro cunhado. A referência ao abafador fez-me sorrir, ams habitualmente era eu quem era abafado. Nunca apanhei o jeito à coisa.
Tenho muita pena por esse noivado interrompido, tinha tudo para dar certo. Berlindes e rebuçados eram garantias de ligações profundas. Mas creio que essa vizinha terá lavado algumas das mágoas remanescentes…
Não sei se o Balio não estará a reprimir essas ideias. Se cada um fizer um esforço, acaba por se lembrar, pelo menos acredito nisso. Tenho pena de quem não o queira ou possa fazer.
Ahh, as memórias de amores passados
Li com gosto, com banda sonora imaginária (It must have been love, Roxette, 1995 ou por aí…alguém se lembra?). Eu também me recordo de tuuudo, cada
amorzito, curte ou paixão, nem tinha consciência de recordações tão pormenorizadas (tendo em conta que nem recordo o almocei ontem – o cérebro humano é surpreendente).
esta viagem ao passado, obg!
Aahhh…. Roxette. Eu tinha uma preferência pelo Spending my Time, mas confesso que se as canto na minha cabeça não vejo diferença na música. Eram quase a mesma coisa…
Faz-me lembrar aquela frase de High Fidelity: «Did I listen to pop music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to pop music?»
Abraço