Quinta-feira


Teresa Ribeiro,

Trocar todas as mulheres do mundo por ela até ao fim dos meus dias? Não queria mais nada! exclamou, ufano, enquanto escolhia, aos repelões, a roupa que a mãe lhe engomava todas as semanas. O contacto das sedas e viscoses, mas sobretudo o aprumo que lhes dava o ferro, fê-lo lembrar-se, por escassos momentos, da progenitora. E o seu rosto iluminou-se. Uma santa, a prova viva em como, com todos os seus defeitos, ele era capaz de inspirar um amor incondicional, genuíno. Suspirou. Ainda estava para nascer a mulher cuja generosidade rivalizasse com a dela.

Andam todas ao mesmo, soprou entre dentes virado para o espelho, a avaliar o perfil. Tornaram-se demasiado exigentes, sentenciou, a meia voz, já distraído das altercações da véspera pelo vinco que detectava, contrafeito, na camisa.

Despiu-se num ápice. Escolheu a branca, de colarinho inglês. Estava perfeita e ficava-lhe realmente bem. Sorriu, cúmplice, para o  espelho. Às vezes bastava um olhar fugaz e retemperador sobre si próprio para recuperar o bom humor. Olhou o relógio. Se acelerar até pode ser que ainda a veja.

Passou-a, então, em revista, com vagares de gourmet. Olhos escuros, grandes, cabelo azeviche e longo, um belo traseiro. Faz mesmo o meu género. Sorriu com malícia. Olhei-a há dias como se não houvesse mais ninguém na rua e consegui impressioná-la, percebi bem. Resulta sempre. Ainda a sorrir, acaricia ligeiramente o lábio com a ponta do indicador. Adoro mulheres.

Num impulso sai para a escada, entra de rompante no elevador, pélvis ligeiramente projectada para a frente, como que a desafiar o destino. É hoje que a convido para um café.

15 comentários em “Quinta-feira”

    1. Ana, cuidado com os nomes – não vá – “tilintar campainhas” – despertar alguma “visão transcendental.)

  1. Mais um “dia” – outro retrato – muito bem feito , parabéns Teresa, repitam-se os “dias”…

    Aguardo, curiosa, ler “a crítica literária”, saber dos “signos” encontrados no “Texto” de hoje e particularmente a análise feita à luz da “terminação eufónica”, como o crítico de serviço referiu no texto de ontem, “Quarta-feira”;))

  2. Gostei muito. Só é pena que não haja aqui um nome feminino terminado em ‘ela’, para dar asas à imaginação do ‘Pancada’. Chame-lhe Felisbela ou algo parecido e bonito. Tenho a impressão de que sem essa deixa, ele não conseguirá verter-nos aqui a sua leitura única sobre mais este seu belo texto, Teresa. Que pena…

  3. Pela primeira vez porventura devido à denúncia que aqui tenho feito das críticas injustas à Drª Manuela Ferreira Leite, este blogue decide-se através deste «post» dar a perspectiva contrária, expondo a personalidade vazia, fútil e possuída do culto da própria imagem que é o incumbente Pedro Passos Coelho, um eterno jovem à procura de conquistar a presidência do PSD a todo o custo com a cumplicidade dos socialistas.
    O «post» revela até que ponto o eterno jovem PPC que nada mais fez na vida até hoje senão ser presidente da JSD, onde revelou todas as perniciosidades inerentes aos indivíduos que fazem carreira nas juventudes partidárias, é incapaz de orientar a sua própria vida pessoal, ficando dependente das escolhas que outros fazem por ele até para vestir uma camisa!
    Agradeço à autora do «post» a denúncia corajosa que faz deste individuo que alguns submarinos socialistas gostariam de ver na presidência do meu partido e ao qual eu me oporei firmemente se algum dia, Deus queira que não, isso vier a suceder. Digo que é corajosa por vir num blogue que é dominado pelo PS e feito por jornalistas que estão ao serviço do partido do poder e de agências de comunicação como a LPM que todos sabem ser a preferida de José Sócrates embora tenha trabalhado também para a campanha presidencial do Prof. Cavaco Silva.
    Despeço-me desta vez com os meus cumprimentos.

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