A História devida de um dos nossos leitores


Paulo Sousa,

Na sequência do meu texto de há dias, o nosso leitor que se identifica por o cunhado enviou num comentário a sua História Devida. O relato e o episódio merecem um destaque que não teriam se ficassem apenas como um comentário. Por isso aqui ficam, com o devido agradecimento ao cunhado pela sua partilha.
Um abraço

“Dois anos depois do meu pai nos ter deixado naquela pequenina casa daquela ainda mais pequenina aldeia incrustada no sopé da grande serra; à minha mãe, a mim com quatro anos e às minhas irmãs, uma com cinco e outra em ventre materno e ter abalado em demanda de terras africanas onde se constava que era só abanar a árvore, embarcávamos no “Mouzinho de Albuquerque” numa viagem que juntaria a família em Angola, onde, tudo o indiciava, o meu pai soubera com arte e proveito abanar devidamente a árvore.

O navio era velho e pequeno, navegava devagar e às vezes até parava. Essa seria mesmo a sua última viagem. A minha mãe enjoou logo ao início e a minha irmã mais nova, essa embarcou já doente mercê de uma malga de azeitonas galegas que a tia Rosa lhe dera, pitéu a que a miúda não resistia. Esteve mesmo em risco de vida, mas escapou. De modo que com essas duas de cama, foi a minha irmãzinha mais velha com os seus responsáveis sete aninhos a ter de assumir a responsabilidade por todos, mais concretamente por aquelas duas inúteis, que eu sabia bem tomar conta de mim e não dava trabalho a ninguém. Tinha liberdade, por mim estava tudo bem e não carecia de mais nada. Assim, corria o barco de popa à proa, à minha maneira sem ser minimamente molestado com parvas recomendações disto e daquilo, e ao contrário da minha mãe e irmãs que se lamentavam que aquilo nunca mais acabava, só pedia que tivessem razão porque não me incomodava nada viver o resto da minha vida lá dentro.

Ia também nessa viagem um contingente militar, desses que o Governo mantinha nas colónias, com quem no primeiro minuto travei conhecimento e por quem ainda mais rapidamente fui adoptado como mascote. Andava com eles para todo o lado, comia com eles, via-os beber vinho pelos garrafões, jogarem às cartas e cultivar-me-ia a preceito na sublime retórica do palavrão. Enfim, a minha felicidade era plena e só me queria ver grande depressa para envergar aquela bela farda de caqui amarelo e combater em todas as guerras deste mundo, porque guerra foi a palavra mais ouvida na minha infância. Nasci em 40 e estava-se agora em 47.

Declinava um certo dia quando eu me passeava por ali, frustrado por não ver ninguém, quando reparo num militar que de costas para mim debruçado sobre a amurada contemplava o mar, perdendo-se sabe-se lá em que estranhas divagações. Era um homem grande, ainda o estou a ver. Corri para ele, contentíssimo pelo ocaso da minha solidão ter chegado ao fim, e ele quando me viu pareceu ficar muito surpreendido. Baixou-se ao meu nível e vi-o olhar receoso para todas as direcções. Ninguém nas imediações. Então soergueu-se, comigo segurado pelos braços, estendeu os dele comigo nas suas mãos, colocou-me fora o barco e disse-me numa voz rouca e segredada, que ainda hoje estremeço quando a recordo:

– E se eu te deixasse cair?

Não soube o que senti. Olhava para baixo, para o que me parecia um abismo interminável, e na medida em que a escuridão que já caíra me permitia, via água ondulante lá em baixo. Então algo explodiu na minha cabeça pedindo-me para não gritar. Depois ele jogou comigo. Largava-me e apanhava-me, largava-me e apanhava-me. Por vezes jogava-me mais acima, deixava-me cair e apanhava-me no último instante. Subitamente soube que me ia deixar cair. Vi-lhe nos olhos a decisão, até lhe senti o afrouxar das mãos. E exactamente nesse momento, um barulho fez-se ouvir mais acima, que se foi gradualmente tornando mais distinto à medida que se aproximava. Dois marinheiros vinham por ali conversando. Provavelmente com medo que eu gritasse ao ser largado, recolheu-me rapidamente, pousou-me atabalhoadamente sobre o tombadilho e fugiu a correr para a parte oposta.

Nos quatro dias restantes para término da viagem nunca mais saí do nosso cubículo, pomposamente alcunhado de camarote. Tinha feito há pouco seis anos. Todas estranharam a minha súbita dedicação familiar, mas nunca souberam nada, nem nunca saberiam. Mas soube eu, e saberia tudo. A partir desse episódio nunca mais esqueceria nada e recordo todos os factos da minha vida até à data de hoje. Todos! até o mais insignificante.”

13 comentários em “A História devida de um dos nossos leitores”

  1. Bom dia, Paulo Sousa.
    Muito obrigado.
    Essa foi a primeira, mas não a única vez que a minha vida correu riscos inusitados e, penso, que provavelmente nunca nenhuma criança correu. Pelo menos em mais duas ocasiões; uma aos onze anos, outra aos doze e ainda outra aos dezoito, os riscos foram muito maiores do que o relatado nesse episódio que fez o favor de publicar, aos seis anos.
    Fui um protegido do acaso, ou do destino, mas eu prefiro chamar-lhe de Deus.
    Para quê não sei se analisando todo o meu passado não vejo ter feito mais nem menos do que qualquer outro.
    Reitero os meus agradecimentos.
    Um Abraço.

    1. Olá de novo!
      Saber que sobrou para contar alivia o espírito durante a leitura. Venham de lá essas histórias. É um prazer.
      Respondendo à sua questão do post anterior, os referidos 15 livros são de Ken Follet que durante algum tempo gostei de ler. De tudo o que ele publicou sobrou pouco embora tenha deixado de me motivar.
      Um abraço e obrigado

      1. Não me lembro de ter lido livros do Ken Follett, mas tenho cá duas séries em DVD que gostei imenso de ver: Os Pilares da Terra e Um Mundo sem Fim. Penso que saíram com o Expresso.
        🍁
        Maria

        1. Também vi as séries depois de ter lido os livros. Como é habitual nesses casos o livro supera o filme que ainda assim é bem interessante.
          A trilogia do secXX tem muitos detalhes históricos e muuuiiitas páginas. Quando a acção se vai aproximando da actualidade a visão ideológica do autor vai ficando mais visível, o que acaba por desvalorizar a obra que no geral merece ser lida.

    1. A natureza humana intacta e, neste caso, quase à solta. O potencial de violência e de crueldade está sempre presente.
      No último instante foi contida pelo peso da avaliação, e suas consequências, do que a sociedade aceita ao individuo.

      1. Sinceramente não sei se isto corresponde a alguma coisa de natureza dos humanos — presumivelmente, a grande maioria protege uma criança mesmo que seja desconhecida.

        Parece-me mais óbvio (e mais simples) que o que existe é gente má índole, que faz coisas más.

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