Já ouvi não sei quantas vezes comparações da pandemia do Covid-19 com a Gripe Espanhola de há cem anos, que matou milhões pelo Mundo e dezenas de milhar em Portugal, por causa da possibilidade de uma “segunda vaga” mortífera. Mas do que percebi poucas comparações se podem estabelecer. A Gripe Espanhola aconteceu sobretudo como consequência da Grande Guerra, com os parcos sistemas de saúde e as economias destruídas, numa época em que as pessoas não tinham os meios de higiene, a nutrição ou os meios hospitalares que têm hoje. Os soldados vinham das trincheiras num estado deplorável traziam com eles a epidemia. Ainda por cima a doença veio com uma carga bacteriológica num tempo em que não havia antibióticos. Ou seja, uma tempestade perfeita.
O covid será provavelmente mais próximo da dimensão da Gripe Asiática de 1957/58, de que os nossos pais e avós se lembram. Começou na China, depois veio pela Austrália, Irão, entrou na Europa pela Itália, França…tal como agora, com a diferença de que chegou no fim do Verão. O início das aulas teve de ser adiado, tal era a quantidade de alunos doentes, e as fábricas ficaram a meio gás. Segundo os dados oficiais, morreram mil e tal pessoas em Portugal, embora como não houvesse os testes nem o SNS como o conhecemos esse número esteja com toda a certeza subavaliado. Em França contabilizaram-se na altura onze mil e tal mortos, mas nos anos recentes chegou-se à conclusão de que seriam bastante mais, assim como no Reino Unido, com mais de trinta mil na altura. Nos Estados Unidos passaram os cem mil. Isso numa altura em que havia menos população, a média de idades era mais baixa e havia por isso menos “comorbilidades”. Mas ainda em 1957 criou-se uma vacina, que diminuiu muito a intensidade da pandemia, e meses depois praticamente desapareceu. Ao todo, terá deixado perto de dois milhões de mortos em todo o mundo.
Quais as diferenças? Provavelmente o facto de não haver tanta informação instantânea (pouca gente tinha televisão, por exemplo), de não circular tão depressa entre os vários continentes e da Ásia ser mais subdesenvolvida e portanto ter sofrido mais. E também dos sintomas durarem menos dias que o actual covid (a minha Mãe, que na altura era miúda, esteve cinco dias de cama). Talvez por isso os países não se tenham fechado tanto e a economia tenha sofrido menos. Mas o Mundo não acabou, a Europa e os EUA continuaram prósperos e os anos sessenta seriam animados. Além disso, demonstrou-se que uma vacina não precisava de anos e anos para ser concebida. Ou seja, esta pandemia do Covid é um assunto sério, mas não apocalíptico, mais ao nível da Gripe Asiática (ou da de Hong Kong, dez anos depois) e menos com a fulminante Gripe Espanhola. A importância da História é que nos ensina com a experiência passada.
Deixo-vos com alguns links em francês e inglês, com mais informação:

Obrigado pelo artigo
Sim, a covid19 é comparável à Gripe Asiática de 1957. Eu também fui um dos atingidos, e é verdade que as fábricas trabalharam uns 15 dias a meio gás, famílias inteiras caíram de cama, mas houve gente que, sem se saber porquê, não foi infectada, mesmo vivendo no meio dos doentes.
A situação do País é que não é comparável com a daquela época: aA idade média de vida, por aquela altura, pouco passava dos 50 anos e isso quer dizer que os mais vulneráveis eram em número reduzido, pois os mais débeis já haviam morrido.
E a recuperação da economia foi quase instantânea: quem tinha que apanhar a gripe apanhou e o surto foi rapidamente “esquecido”.
Agora, com o pânico instalado, a recuperação da(s) economia(s) vai demorar anos, e talvez venham a morrer mais pessoas em consequência do terror que incutiram às pessoas, cá e lá fora, do que em consequência do vírus, desta feita muitas ainda em idade de trabalhar.
Daí a comparação com as reacções a uma e outra doença. Isto não é uma coisa maneirinha mas também não é uma situação inteiramente nova (e não é nem a peste negra nem a gripe espanhola). O excsso de informação e a comunicação ultra rápida, aliada à falta de hábito destas situações, é que colocou o mundo covid-dependente.
Conclusão: o preço das casas vai continuar num patamar que os portugueses com salários ridículos (e os 500 mil desempregados do costume) não conseguem atingir a não ser que sejam funcionários públicos — ou tenham “amigos”.
Quanto a isso terá de falar com um agente imobiliário.
“URGENT
16/07/2020 – 10:26
France: le port du masque sera obligatoire dans les lieux publics clos «dès la semaine prochaine», annonce Jean Castex” (https://www.rfi.fr/)
Só agora? Aqui os franceses estão um bocado atrasados… Mas atente-se na citação seguinte do mesmo site e correspondente a um dos links em francês que figuram no post:
“(…)La grosse différence est là quand même : ce modèle de confinement donné par la Chine de contrôle de l’épidémie et qui a été remis en selle en Europe par les Italiens et les Français.
Abandonné depuis le XIXe siècle, ce vieux modèle médiéval avait été créé par les Italiens pour le contrôle des pestes : par quarantaine, lazaret (établissement de mise en quarantaine), cordon sanitaire. Il avait été abandonné, par l’Angleterre en particulier, vers 1860, et c’est le modèle anglais qui est ensuite devenu le grand modèle de gestion des épidémies : un système de néo-quarantaine, avec une visite médicale pour tout bateau arrivant dans un port anglais. Les personnes malades sont envoyées dans des « Fever Hospitals », aux autres on demande une adresse à laquelle ils peuvent être visités pour que leur état soit contrôlé pendant la semaine d’après. C’est ce système beaucoup plus souple, qui n’entravait pas le commerce et les échanges, qui a été maintenu jusqu’à il y a quelques mois.
Donc nous sommes dans une situation radicalement nouvelle sur le plan historique : c’est une vraie rupture, qui nous renvoie à plus d’un siècle et demi en arrière, aux épidémies de choléra de 1831-32 en Europe. (…)” (https://www.rfi.fr/)
E quem é que não seguiu esse velho modelo medieval de quarentena cega? É verdade, a Suécia… Comparemos então a evolução temporal dos números suecos com os de outros países que implementaram quarentenas cegas, sempre por milhão de habitantes, em dois gráficos.
https://ourworldindata.org/grapher/covid-d eaths-days-since-per-million?zoomToSelec tion=true&country=AUT~BEL~CAN~CZE~DNK~FRA~DEU~ISR~I TA~JPN~NLD~PRT~SGP~ESP~SWE~CHE~TWN~USA
https://ourworldindata.org/grapher/daily-c ovid-deaths-per-million-7-day-average?co untry=CAN~ITA~NOR~PRT~KOR~ESP~SWE~CHE~GB R~USA
(P.f., não perguntem o porquê do uso de escala logarítmica no primeiro gráfico e de escala linear no segundo. Façam uma pesquisa rápida. Dos países que figuram no primeiro gráfico nem todos implementaram quarentenas cegas, nomeadamente os asiáticos e os resultados estão à vista.)
Deixo as conclusões para quem se der a esse trabalho. Acrescento apenas que… pois, a Suécia. De facto. E para informação mais detalhada sobre o caso sueco consultar https://www.worldometers.info/coronaviru s/country/sweden/
Tenho seguido os números e não acho que a Suécia seja um modelo a seguir (como a China, com o seus sistema de quarentena à bruta, também não é). Opto mais pelos vizinhos nórdicos, com melhores resultados e que já estão noutra fase.
muito bem
Já vários especialistas chamaram a atenção para a diferença fundamental entre a gripe espanhola e a actual: no tempo da gripe espanhola houve a chegada de milhares de infectados (soldados da 1.ª Guerra) a locais onde as populações não tinham qualquer imunidade.
Hoje, pelo contrário, é difícil não termos tido já contacto com um Corona vírus e há imunidade cruzada, isto é, o sistema imunitário “lembra-se” de vírus semelhantes e age.
Será está a explicação para o facto de, naquele navio de cruzeiros em que houve um surto, apenas 25% dos passageiros ter sido infectado.
Aparentemente muita gente mais velha resistiu à gripe espanhola por já ter a experiência de outras epidemias menores do séc. XIX. A teoria da imunidade cruzada é bastante plausível e já a vi formulada por diferentes grupos de investigadores.