A História e o pedestal


joaomsandre,

Faz-me pena a questão das estátuas vandalizadas ou derrubadas, não porque isso não faça necessariamente sentido, mas porque acima de tudo distrai do essencial: várias (quase todas, diria) sociedades são de facto estruturalmente racistas, mesmo que apenas como herança do passado.

É hoje indiscutível que as condições em que cada pessoa nasce e cresce condiciona fortemente o seu futuro. Há quem destrua todas as condições de privilégio em que nasce e outros que ultrapassam as limitações do seu ambiente. Em geral, contudo, quem nasce pobre tem de subir um plano inclinado e quem nasce mais confortável terá uma inclinação mais suave pela frente.

O racismo passado criou condições para múltiplas pessoas serem condicionadas fortemente a terem montanhas bem íngremes pela frente só devido à cor da pele dos seus antepassados. O similarity bias continua a garantir que tais montanhas se mantenham inclementes mesmo quando se consegue começar a subir. Isto é também indiscutível. Há casos em que certos grupos conseguem ultrapassar essas dificuldades mas habitualmente obtêm um patamar intermédio entre o grupo dominante e o grupo mais fortemente discriminado. Um exemplo extremo eram os indianos na África do Sul, discriminados mas acima dos negros (situação que continuará).

No fundo tudo se resume a um aspecto simples: acreditamos que há grupos que são mais ou menos capazes devido à cor da sua pele ou à sua origem geográfica? Se sim, então a visão é racista (os estudos honestos modernos continuam a negar tal conceito) mas a situação actual é compreensível e uma consequência destas diferenças. Se se entender (como eu) que não há qualquer diferença significativa nas capacidades das pessoas de grupos diferentes, então é a sociedade que é racista se não virmos uma representação em cargos públicos, nos quadros das empresas, nas universidades, etc, razoavelmente equivalente à distribuição dos diferentes grupos na sociedade.

Esta é a realidade actual e não é por o presidente anterior dos EUA ser negro (ou mestiço) ou o primeiro-ministro português ser de descendência goesa que o resto da sociedade é não-racista. E se é racista, é normal que haja grupos cujas frustrações colectivas mantidas ao longo de séculos a certa altura extravasam. Ainda mais normal é que estas se manifestem em símbolos desse passado, sejam estes símbolos do racismo (nos EUA, Jefferson Davis) ou apenas representantes do seu tempo (George Washington ou Thomas Jefferson, que possuíram escravos).

Relembremos: as estátuas não são a priori história, antes representam figuras históricas. Nalguns casos as estátuas pertencem à história, pelo que representam, pelo que demonstram, pela arte que as construiu. Não devem por isso ser destruídas, mas não significa que tenham que ser mantidas. Não devemos simplesmente juntar uma turba furiosa para as derrubar, mas a presença de tal exigência deveria levar a uma reflexão sobre o valor da mesma estátua e a validade de a manter. Isso sim, ajudaria a pensar a história. O resto é apenas esconder o passado debaixo do pedestal.

57 comentários em “A História e o pedestal”

  1. O coliseu de roma deve manter-se, sabendo se ser um simbolo de opressão para com escravos das províncias de roma que o construiram? E as pirâmides devem manter-se?

  2. Os pedestais estão aí exactamente para nos advertir que nenhuma geração é diferente da outra em matéria de justiças e injustiças.
    A construção da memória faz-se precisamente com uma e outras. O que ninguém poderá afirmar é que se encontra em estado de pureza tal que possa sentir-se mais elevado que qualquer predecessor.

    No caso português em particular, o vandalismo aponta para símbolos cristãos (padre António Vieira e o fundador do escutismo) em uma clara afronta ao que se constitui como pedra basilar desta cultura, isto é, ao valor do cristianismo que é transversal, incluindo não crentes.
    Mas esta afronta também vem pela passividade dos cristãos, tenham eles as opções de igrejas que tiverem, que se deixaram dominar pela sábia ignorância cultural e revelam dificuldades, que devia começar nas estruturas representativas dessas mesmas igrejas, em progredirem no seu imobilismo.

    Perante uma atitude paroquial e paroquiana (com o devido respeito pela limitadas excepções), isto é, acomodada ao pároco e/ou pastor, as diferentes comunidades cristãs revelam-se como “produto” final de prosélitos que transformaram prosélitos em 2 x mais sem sal e sem luz que seus progenitores.
    Perante tal acontecimento é normal que o sal ao perder o sabor seja espezinhado e a candeia de luz permaneça debaixo da mesa e não no topo da sala.

    Assim, António Vieira, ao afirmar que “ou é o sal que não salga ou é a terra que não se deixa salgar”, aponta para uma atitude comum quer nos ditos crentes quer nos ditos não crentes.
    Portanto, socialmente somos a mesma massa sem levedura.

    No capítulo externo, e em particular no que diz respeito ao racismo, presumo que devamos substituir as estátuas pelas dos sobas e chefes tribais que na mira do lucro pactuaram com essa mesma situação, quer na África subsariana quer mesmo no médio oriente e outras partes. Sim, construí-las para que a memória se avive na demonstração que os traços de injustiças são comuns e não só peçonha no corpo e mente de alguns. Mas também é necessário analisar o contexto em cada época.

    O problema reside no facto de se pretender generalizar uma postura onde ela não existe, só porque determinados acontecimentos apontam para casos que não revelam o todo, sem obstar que os traços de crueldade devam ser reprimidos.
    Creio que poderei dizer que este choro pseudo-global se assemelha a lágrimas de crocodilo só para se poder dizer que se está vivo, mas sem vivificar nada. E em alguns é pretexto para justificar o vandalismo que carregam em si mesmo.

    Deixai que os mortos enterrem seus mortos.

  3. O mundo é racista, todo sem excepção.
    Pelos motivos apresentados e ainda por uma questão de superioridade, mesmo quando essa não existe mas são na mesma reivindicadas.
    Todo o ser humano se considera superior ao outro. O rico no poder que o dinheiro outorga, e o pobre camuflando a frustração através do pensamento de que sou pobre mas sou honrado e mostro a cara onde tu a escondes.
    O politicamente correcto é uma farsa, que toda a gente sabe que é mas finge aceitá-la no conveniente de que não importa sê-lo desde que se possa parecê-lo.
    No fundo só há uma verdade. O mundo é um palco onde todos somos actores que representam o seu papel. Os melhores actores são os mais acreditados sem que, contudo, não deixem na mesma de professarem o cinismo que rege a humanidade.
    Só o riso de uma criança é verdadeiro, mas depois cresce.

  4. O racismo dos factos em duas questões, muito embora concorde e advogue o princípio segundo o qual ninguém deve ser discriminado em função da especificidade cromática da pele, do credo religioso, do sexo e da filiação partidária.

    Porque que razão, aquando da chegada dos europeus a África, lá para os lados da Ásia já se tinha descoberto a pólvora, apesar dos europeus ainda não suspeitassem da sua existência e os africanos continuassem, na generalidade, a viver na Idade do Ferro? Resposta: vd. questão seguinte.

    Existem estatísticas do QI médio da população mundial, desagregadas por raças, a demonstrar quais os mais inteligentes? Resposta: sim, os números indicam que os asiáticos são os mais inteligentes, seguidos dos brancos, aparecendo em último lugar os negros.

    Corolário: um agradecimento às “grandes migrações” que trouxeram para o continente europeu a roda, os cavalos e, eventualmente, os cães, entre outras coisas.

    1. Presumo que se refira ao livro The Curve Bell.(uma falácia científica)

      Não há nenhum gene da inteligência. Aliás, para a inteligência entram variadíssimos e singelos factores, entre eles, comer e passar fome, entre eles, ser criado num ambiente de guerra ou paz, etc.

      Leia um estudo sobre as apetências naturais dos asiáticos pelas matemáticas e a inaptidão feminina para aquela matéria. Reforce-se esta associação, este estereótipo, e as mulheres asiáticas tendem a ter piores resultados que as suas congéneres americanas (ensaio americano ; não vou citar fontes porque não vale a pena ;o preto é estúpido, e o louro, de olhos azuis superior ao latino… hmmm, e eu que sou louro, muito branco, de olhos azuis. Pergunto-me como será o Elvimonte? )

    2. Ha múltiplos estudos desses mas ou não são honestos ou nem sequer podem ser considerados viáveis, dado que o teste de QI, se não for administrado a crianças pequenas, não vale de muito.

      O resto reflecte mais os pré-conceitos de investigadores que realidades.

  5. A biblia, o corao e a torah tem muitas passagens onde se faz apologia a escravatura e de como se devem tratar os escravos, gostava de uma discussao para se retirarem esses escritos dos livros sagrados. os dez mandamentos passam a ser 9.

    1. Sabendo-se que os mesmos livros serviram de inspiração à luta pelos direitos dos escravos e pela libertação da escravatura.
      Basta ouvir Go Down Moses.

  6. Sabendo-se que a pena de morte se ira extinguir deveremos tambem apagar os memoriais aos laureados de paises que ainda tem a pena de morte?

  7. acreditamos que há grupos que são mais ou menos capazes devido à cor da sua pele ou à sua origem geográfica? Se sim, então a visão é racista

    Discordo.

    Não há nada de inerentemente racista em acreditar que certas raças têm maiores ou melhores capacidades que outras.

    Por exemplo, eu acredito que os negros têm capacidades de corrida superiores às de outras raças. Também acredito que os indianos têm capacidades matemáticas superiores às das outras raças. Também acredito que os judeus são em diversos aspetos intelectualmente superiores às outras raças. Mas não creio que nada disso faça de mim racista.

    Da mesma forma que acreditar que os homens são mais fortes que as mulheres, ou que acreditar que as mulheres são mais hábeis de dedos do que os homens, não faz de mim sexista.

    Ser racista não é acreditar que as raças têm capacidades diferentes. Ser racista é preconizar que seja dada maior prioridade, maior dignidade, maior vantagem, e mais direitos a seres humanos em funcão da sua raça.

    1. Não há características psicológicas, cognitivas, inerentes às raças ou géneros. Há é culturas que fomentam umas, em detrimento de outras.

      Veja bem a sua falácia :

      “Por exemplo, eu acredito que os negros têm capacidades de corrida superiores às de outras raças.”

      Veja-a desmontada :

      Eu acredito que as pessoas altas tenham capacidades de corrida superiores aos mais baixos.

    2. Por acaso essa é uma das definições de racismo. Aquela que você dá serve para o supremacismo branco (ou negro, ou azul…)

      Quanto ao resto, pode acreditar no que quer. Até que o elvis era um alien judeu nascido no bayou. Isso não faz a sua crença verdadeira.

  8. Eu discordo profundamente desta visão. O facto de certos grupos não estarem igualmente representados na sociedade tem a ver com características culturais específicas de cada grupo e não propriamente com racismo na sociedade. Eu tenho a certeza de que há racistas em Portugal. Mas a sociedade não é racista. De todo. Há quem as consiga aproveitar as oportunidades e quem não consiga, dadas a suas características socioeconomicas e culturais específicas. Uma criança de uma família desestruturada cuja mãe tenha baixas habilitações literárias e que viva num bairro de lata tem baixas probabilidades de ter sucesso escolar, independentemente da cor da pele. Isto não é racismo… é pobreza.

    1. É verdade. Mas se se reduzir a isso, explique lá porque razão estão certos grupos de tez mais… escura… sobrerepresentados nas classes mais pobres. Em Portugal e noutros sítios.

      1. Eu não posso responder a essa questão de forma fundamentada. Não tenho dados nem bibliografia ( não sou da área). No entanto tenho olhos para ver… Alguns indivíduos de pele mais escura safam-se muito bem (veja o primeiro ministro). Parece-me que não depende da cor da pele mas do estrato socioeconómico e cultural familiar. Eu vejo que as crianças negras raramente são boas alunas. Não me parece ser uma questão de inteligência porque quando adoptadas têm um performance muito superior. Tem a ver com as expectativas e o apoio dos pais. E a cultura. Por exemplo, em Cabo Verde a poligamia está enraizada na sociedade. Um homem tem várias famílias. Numa sociedade moderna é dificílimo uma mãe trabalhar e educar sozinha os filhos, normalmente um de cada pai. Os miúdos andam à solta e não estudam, logo não têm acesso aos melhores empregos e não conseguem romper ciclo da pobreza. Não é que Portugal seja um país meritocrático. Mas sem nome e sem estudos não é fácil subir a escada social… Tive um colega negro que era estudioso e dedicado. Mas a família era um lastro. Tinha de sustentar a mãe, a irmã, os filhos dela e às vezes os namorados. Por razões culturais era-lhe difícil renunciar a estas obrigações…

        1. Sim, a cultura pode ser um empecilho, mas a cultura é Também um produto das condições socio económicas. Repare. Diz-me que em Cabo Verde existe poligamia. Mas cá também ela existe. Veja bem quantas vezes, em média, se casam os homens mais bem sucedidos e quantos filhos acabam por ter de diferentes mulheres. Veja agora as dinâmicas de ascensão social entre as camadas mais previligiadas da “nossa” sociedade e as outras classes sociais. Por cá, mas não só, o chamado elevador social parece avariado. Segundo sei, a poligamia está relacionada, também, culturalmente (biologicamente), nos países onde ela é legalmente permitida, com as possibilidades económicas /status do homem. Só aqueles com status económico superior têm o direito, a aceitação, por parte da comunidade, à poligamia (na Índia é assim. Na Arábia também, aliás neste país os mais ricos consideram ser 7 o número ideal de mulheres).

          Depois fala na adopção. Geralmente quem adopta apresenta um quadro cultural, educacional, económico acima da média. (outras vez a componente sócio económica)

          “Um homem tem várias famílias. Numa sociedade moderna é dificílimo uma mãe trabalhar e educar sozinha os filhos, normalmente um de cada pai.”

          Como disse, veja o número de famílias monoparentais brancas em Portugal e veja em termos relativos o percurso profissional, académico, escolar da descendência usando dois critérios.” Raça “e estrato social. Depois veremos o que conta mais para perspectivar o futuro sócio económico da descendência.

          ” Mas a família era um lastro. Tinha de sustentar a mãe, a irmã, os filhos dela e às vezes os namorados. Por razões culturais era-lhe difícil renunciar a estas obrigações…”

          Cá, mas não só, existe também uma obrigação moral perante a família, embora o quadro por si apresentado seja de uma família desestruturada, não servindo de grande referência para grandes inferências.

          1. Tem razão relativamente à poligamia. Por isso existe a pensão de alimentos que minimiza o problema nos estratos sociais mais elevados. Mas se o pai estiver desempregado não tem de contribuir. Em Cabo Verde é vergonhoso um homem não sustentar todas as suas famílias. Existe uma pressão social forte que deixa de se fazer sentir quando os indivíduos se encontram fora da sua cultura original.

            Não há estatísticas relativamente à cor da pele em Portugal que eu saiba… por isso não se pode fazer o estudo que sugere ( e que seria interessante). Eu acho a mobilidade social seria muito baixa para pessoas nas mesmas condições independentemente da cor da pele… Cumprimentos

        2. É uma lógica circular: eles são assim, por isso não são melhores e por isso ficam assim e não ficam melhores. O que define tudo nesta lógica são as condições iniciais (isto é coisa de engenheiro, mas compreende-se o conceito perfeitamente). Se um grupo (seja lá de que cor for) a certa altura for subjugado de tal forma que fique preso nesse ciclo, nunca de lá sair caso não se tente quebrar o mesmo.

          1. Então concordamos. Não tem a ver com racismo mas com as condições económicas e socioculturais da família. Mas ninguém se preocupa com os brancos pobres que não conseguem sair da pobreza. Porque há muitos brancos remediados. Eu acho que a pobreza é preocupante independentemente da cor. Agora, quem derruba estátuas são as castas dominantes ou os delinquentes, não são os pobres…

          2. Susana o que diz também é verdade. Mas onde são possíveis estatísticas usando a cor da pele sabe-se que para um mesmo grupo sócio económico um negro tem muito mais portabilidade de continuar na pobreza do que um branco. Um branco pobre tem de lutar contra a força da miséria para dela sair. Um preto tem de lutar também contra ela e contra o prejuízo da sua pele.

            https://www.google.com/amp/s/www.businessinsider.com/charts-black-americans-gaping-economic-inequality-white-unemployment-earnings-financial-2020-6%3famp

            E não é uma questão de cultura “étnica”. Muitos dos negros portugueses ou americanos provêm de famílias sem ligação às terras de origem. São portugueses ou de outras nacionalidades há largos anos, há várias gerações

  9. Decepcionante, este post. A existência de pessoas, em Portugal, que tomam decisões relevantes para o futuro profissional ou cívico dos outros com base na cor da pele, é muito menos óbvia do que das que tomam essas decisões com base no nome de família, no sotaque, no modo de vestir, nas escolas frequentadas, no local da residência (para não falar de filiações partidárias ou em certas organizações discretas). Uma pessoa que more na Rua Maria Pia, em Lisboa, e lá tenha passado a vida toda, até pode ser licenciada em Direito, pela melhor faculdade pública, com uma nota alta, e ser branca como a neve, que dificilmente algum escritório de advogados ou empresa a contrata (salvo para amanuense). Isto não é teoria, é a vida. Qualquer “beto”, licenciado com um 10 da Autónoma, tem incomparavelmente mais hipóteses de ser contratado e não ser dispensado, mesmo que seja nulo. A única excepção a esta inacessibilidade é o Estado (nas funções acessíveis por concurso aberto) – e daí o facto de as procuradoras do MP serem maciçamente Tânias da Trafaria e Carlas do Cacém – e, claro, a filiação partidária em idade oportuna (mesmo assim, também as jotas já são controladas pelos filhos da classe alta). Ora, a população africana em Portugal, tal como a conhecemos, é um fenómeno que começou no final dos anos 70 e aumentou exponencialmente neste século. Salvo casos excepcionais, vieram fazer os trabalhos que mais ninguém faz (limpezas, obras, segurança), e habitaram as periferias das periferias. Progressivamente, muito conseguiram deixar as AUGI e passar a habitar apartamentos convencionais, sempre nos subúrbios (porque os brancos que as habitavam “subiram de divisão”), mas nas freguesias que, agora, foram declaradas “loca infecta”. Seria estranho, considerada a natureza estratificada, e cada vez menos permeável, da sociedade portuguesa, onde o nepotismo e a cunha são a regra, que numa ou duas gerações, os filhos destas pessoas fossem “casos de sucesso” ou pudessem aspirar a muito mais do que ser caixa na Zara ou motorista da Carris. Houve umas janelas de oportunidade, nos anos 70 a 90, onde a regra cedeu um pouco, e, devido, sobretudo, ao brutal crescimento do Estado e do terciário, houve oportunidades inéditas para as pessoas mudarem de estatuto social e económico (o maldito Cavaco). Mas não é previsível que, tão cedo, isso volte a acontecer (pelo contrário, a conversão de Portugal ao turismo de massas, reforçou o acesso ao mercado de trabalho via limpezas e obras). Por isso, se os “afro-descendentes” se convencerem que é a cor de pele que determina a sua má fortuna, não vão combater as causas reais da desigualdade económica e social em Portugal, o que dá imenso jeito a quem as explora – que não é, certamente, quem lhes dá emprego, mas os profissionais da “industria do racismo”, como os do Livre, que, à vista de toda a gente, praticaram dos actos mais racistas e paternalistas do Portugal democrático: 40 brancos reuniram-se para mandar “a preta” para o parlamento e 40 brancos reuniram-se para corrê-la de lá.

    1. Tem razão o maldito Cavaco das desastrosas políticas do ensino, da proliferação de uma dúzia de universidades privadas sem qualidade, que apenas visavam o lucro.

      1. Percebo a irritação. Se não fossem essas universidade privadas que visavam o lucro (malandros, realmente), haveria menos uma carrada de licenciados, a reduzir as oportunidades de emprego para a prole das nossas elites, e não era preciso andar a importar brasileiros para arranjar canos, instalar a tv cabo e servir às mesas, porque sobejaria mão-de-obra nacional para isso. Irritante mania, essa de dar oportunidades às pessoas para saírem da cepa-torta!

        1. Então tem que explicar a muitos licenciados dessas universidades, que trabalham em caixas de supermercados, alguns em segurança, call centers…etc. e que ao fim de anos de trabalho não conseguem trabalhar nas áreas de formação.
          Se tem duvidas sobre isso basta ir a um centro de emprego.
          Essa é que a verdadeira questão, a dificuldade em absorver licenciados, então na área de Direito, são uns desgraçados.
          O erro foi acabar com os cursos profissionais, e (investir em cursos de papel e caneta), nada contra, mas novamente pergunto tirar uma licenciatura para andar a fazer trabalhos em que é preciso o 9 ano, quase a vida toda.
          Se o JPT for a um Call center quantos licenciados é que por ali andam anos sem perspectivas nenhumas,grande parte precários e com poucos direitos.

          1. Não leu o que escrevi (percebo): “Houve umas janelas de oportunidade, nos anos 70 a 90, onde a regra cedeu um pouco, e, devido, sobretudo, ao brutal crescimento do Estado e do terciário, houve oportunidades inéditas para as pessoas mudarem de estatuto social e económico”. As pessoas que tiveram a sorte de se licenciar em universidades privadas no anos 70 (a Livre) a 90 (as várias então surgidas) não “trabalham em caixas de supermercados, alguns em segurança, call centers”. Eu, por acaso, licenciei-me na pública (em 1992), mas sou dos poucos, no meu escritório. O problema foi que, depois disso, a nossa economia parou. Aliás, andou para trás. Uma economia que não cresce, ou que assenta o seu “crescimento” no turismo – um sector que privilegia os baixos salários e a precariedade – obviamente não tem o que fazer a licenciados, sejam da pública, sejam da privada.

          2. JPT possivelmente sou um pouco mais novo,tirei um curso profissional em 1993 e mais tarde acabei a licenciatura numa universidade privada( não entrei no curso
            que queria na publica mesmo tendo media positiva )

            Posso dizer -lhe que dei formação na área dos call-center entre 2001 e 2004 e apareciam muitos licenciados na formação para trabalhar, acredite que sei o que estou a dizer.

            O resto estou de acordo consigo Como vê a minha opinião é de que o ensino de nível privado entrou no sistema não com preocupação de formar, mas sim de fazer dinheiro e apenas isso.(basta ver a quantidade de ilustres professores de partidos políticos que dão aulas e alguns pagos a peso de ouro)

            Universidades como internacional,independente,moderna,lusofona(então esta ultima quando começou os cursos nem eram homologados pelo ministério da educação(ou seja não valiam nada mas estavam cheias de alunos), depois de algumas guerras lá para o ano 2000 é que foi acreditada.

            Há um falhanço sério no ensino em Portugal.(desde o final da década de 70 e 80)
            E eu podia enumerar aqui muito mais em relação aos cursos com financiamento europeu em Portugal.
            Provavelmente o maior projecto e mais sério de cursos foi da Fundatec, mas até ai houve alunos que nunca desempenharam trabalho na área da sua formação.

            Cumprimentos

          3. Concordo com o que acima refere. As universidades privadas foram uma resposta ao brusco crescimento demográfico (sobretudo por via dos retornados), económico e de expectativas de evolução social que aconteceu entre os anos 70 e 90. Mas, se muito se perdeu por ganância e desonestidade (aliás provada em tribunal e com penas duras, para a nossa realidade), muito se ganhou, porque deram, a muita gente, acesso a outros patamares económicos e sociais – dos quais estavam barrados pelo “numerus clausus”. Claro que também muita gente andou anos a queimar pestanas e dinheiro para pouco mais que nada – em parte, por ter havido “bar aberto” em cursos como Direito, gerando demasiada oferta para a procura, em parte (maior, a meu ver), devido à estagnação da nossa economia, pelo menos de há vinte anos para cá.

        2. Chamar oportunidades para sair da cepa torta, está-se a referir ao Pedro Passos Coelho ao Miguel Relvas ….etc…etc…etc….

          1. Porque não? Ainda que comparando a Massamá com o 16eme Arrondissement houve quem aproveitasse melhor as oportunidades.

      1. Sou outro JPT, o maiúsculo. A decepção ocorre porque tendo a concordar a 100% com os posts que escreve e desta vez saiu-lhe um pastelão “politicamente correcto”. A frase “a sociedade que é racista se não virmos uma representação em cargos públicos, nos quadros das empresas, nas universidades, etc, razoavelmente equivalente à distribuição dos diferentes grupos na sociedade” é disso um perfeito exemplo. Racista seria termos deputados afro-descendentes, quando as pessoas não negras que se encontram nas mesmas condições sócio-económicas dos afro-descendentes não têm qualquer presença no parlamento (excepto na bancada do PCP/PEV). E quem diz isso diz “quadros públicos, empresas e universidades”. A divisão da sociedade em segmentos pigmentários, e a tomada de decisões fixação de quotas e adesão a partidos políticos com base nisso, essas sim, são inerentemente racistas, próprias de países com uma história de comunalismo e racismo como os EUA e a Índia. As oportunidades a têm de ser dadas a todos os que dela carecem, e não por serem mais escuras nem mais claras, mas por serem mais pobres.

        1. Perdoe-me a confusão.

          E lamento, mas discordo completamente perante a realidade. Em condições normais eu dar-lhe-ia razão, mas a realidade é que não é possível a um grupo que está por baixo e é facilmente identificável por cor de pele, nome ou outras características, atingir o patama de igualdade a não ser num espaço de tempo muitíssimo alargado e com esforço consciente do(s) grupo(s) dominate(s).

          Sim, sou a favor de quotas, mas ainda mais de outros mecanismos que eliminem mecanismos de identificação.

          1. Errata: eu julguei que o post era do seu colega de blogue Paulo Sousa (o que motivou o meu comentário) e não seu. De facto, é raro concordar com o que o João André escreve (“no offense”, como diria o Cabo Hicks no Aliens). E esta foi só mais uma vez. Estou muito mais descansado! 🙂

          2. Não fico minimamente ofendido, estou frequentemente em desacordo com os meus colegas de blogue e já me peguei várias vezes com o Pedro Correia :).

            Mas é nestas discussões que, mesmo que não nos convençamos uns aos outros – e raramente acontecerá – pelo menos podemos aprender como os outros pensam e aquilo que os motiva.

            E agora entendo a minha confusão quando escreveu que costuma concordar comigo. Só vou escrevendo de tempos a tempos (questão de disponibilidade) e não me lembrava de lhe ver comentários.

            Cumprimentos.

  10. Um pormenor que talvez nos tenha escapado : “isto” já não é eurocentrico…
    Com a idade que tenho, a coisa não é relevante, mas para quem cá vai ficar ( ou vai ficando…) talvez não seja dispiciendo ( palavra cara…) ir dando umas vistas de olhos à forma de encarar o Mundo daquela gente que fica para trás , não do sol posto, mas imediatamente à frente do sol-nascente…
    É com esse que se vão (des) entender – e , segundo consta, não primam pelo diálogo…
    O choque, ou coisa pior, que espera os “sambos” americanos…

    JSP

    1. Tentei escrever isto de forma relativamente “ageográfica”. Deixei umas referencias ao EUA, mas por conveniência.

      Note-se: gostamos de criticar os “amaricanos” mas eles ao menos estão a questionar esta situação. Na Europa a herança colonialista não é menos marcante e não há esta catarse.

    1. Obrigado Maria Dulce. Discordâncias são normais, mas quis que o meu texto fosse o menos carregado emocionalmente possível, para que o raciocínio fosse compreensível.

  11. João André, não querendo duvidar da honestidade do conteúdo do seu “post”, a única coisa séria que lhe tenho a dizer é que hoje, como cada vez mais se costuma dizer, já é muito tarde para se ser apenas “não racista”: os 3 polícias que presenciaram ao assassinato de George Floyd, por Derek Chauvin, até também se reclamam como “não racistas”!

    Ah, e também lhe gostaria de dizer que não me faz «pena (alguma) a questão das estátuas vandalizadas ou derrubadas» – muitas mais deveriam ser alvo até desse tipo de protesto pacífico!

    É claro que há muitos homens brancos zangados com o que fizeram à infeliz estátua do padre António Vieira… e que, possivelmente, até nos querem convencer que se sentem humilhados com o que lhe fizeram. É a desgraçada estátua transformada em tabu pelos membros da tribo!

    Ao longo destes últimos meses tenho lido uma série de artigos de opinião – em especial os – de membros da nossa Academia que, a propósito do que fizeram à sua estátua (mas definitivamente ignorando-a por completo) desataram a defender o que é supostamente representado nela. Os argumentos são conhecidos e reduzem-se aos habituais que ele era um génio, um orador único, com um domínio impar da nossa língua escrita, para além de é claro, um defensor dos índios brasileiros (e dos novos cristãos, e contra a inquisição, etc, etc)

    Num artigo no DN, da responsabilidade de 3 catedráticos, “descobri” que ele «Se conviveu com a escravatura dos Negros nunca a defendeu. Limitou-se a verificar um facto quando escreveu que sem Negros não haveria Brasil. Mas doía-lhe fundo na alma quando lhes pregava e dizia» toda aquela ladainha típica de assegurar aos escravos negros que o seu destino até tinha sido traçado divinamente, que os milhares de dias de sofrimento da sua existência se equiparavam aos 3 (4?) dias do calvário de Cristo e que, por isso, não se deveriam revoltar, recorrer à violência ou até fugirem para o quilombo mais próximo.

    Contradição? Não, aparentemente, como dizem os nossos 3 catedráticos, isso tem a ver com «julgar o passado com os princípios morais do nosso século»!

    1. Julgar o passado com os princípios morais do nosso século fará algum sentido.
      Limpar, apagar a história só porque não é do nosso agrado.
      Os alemães estiveram na origem de duas guerras mundiais com as consequências conhecidas.
      Devemos então dizer hoje que um alemão bom é um alemão morto?

      1. Caro “Anónimo”,
        Nunca defendi o “seu” «Julgar o passado com os princípios morais do nosso século fará algum sentido»… quando falo do padre António Vieira, estou a falar de um homem 1) altamente instruído; 2) que tinha uma noção muito ampla de injustiça; 3) defendia que os índios “não mereciam” ser escravizados; 4) que os negros “mereciam” ser escravizados; embora 5) reconhecesse que ambos grupos de vítimas do colonialismo europeu, até eram filhos do seu deus. O que escrevi são factos ponto final e se são sujeitos a uma abordagem, a que chamam de opinião, é apenas porque os que recorrem a truques semânticos pretendem que a História tenha a narrativa que mais lhes interessa para perpetuar todos os embustes e mitos com que até ela foi construída.

        «Devemos então dizer hoje que um alemão bom é um alemão morto?» – Não, meu caro. O povo alemão cometeu muitos erros… não sei se mais, se menos, do que outros povos – detesto os merceeiros da História que se dedicam a “contar” as vítimas dos povos, regimes, etc, “mais criminosos”… – mas sei que só os racistas e xenófobos entram por essa ladainha: a Alemanha, desde a derrota do seu regime nazi, fez um esforço de tal modo que, hoje em dia, ninguém pode sequer atrever-se a criticar Israel… já sobre o que eles fizeram na Namíbia, naquele que é considerado o 1.o genocídio do século XX eles, como nós, insistem que até foram os melhores colonizadores de sempre.
        O que eu gosto mesmo é de um alemão vivo, bom ou mau é-me indiferente, que seja capaz de reconhecer que aos “pretos” que foram vítimas de um seu governo se deve aplicar o mesmo tipo de justiça que foi adoptado para os “judeus”…

    2. Obrigado pelo voto de confiança na minha honestidade.

      Quanto a António Vieira, procure o texto de Alexandra Lucas Coelho de há uns 2 anos ou assim. Escreveu sobre ele e a sua estatua melhor, com mais conhecimento e claridade que eu conseguiria.

      1. Deduzo que se refira ao artigo “O meu último voto em Lisboa e a cruz de Vieira”… se sim, ele é contundente não só «Quanto a António Vieira» mas também, como refere, sobre esta «sua estatua».

        PS. Confesso que nesta altura até sou obrigado a rever uma conclusão que tinha como garantida, sobre este blogue: a de que nem todos os homens, machos, que “postam” nele, são “brancos” e estão zangados… e isso, evidentemente, nem tem nada a ver com a questão de estar, ou não, de acordo consigo a 100%. Só por isso, o meu Obrigado.

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