As canções da minha vida (18)


Pedro Correia,

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WE’LL MEET AGAIN

1939

 

Há 80 anos, uma jovem londrina chamada Vera Lynn cativava milhões de ingleses que a escutavam na telefonia com um dos maiores sucessos de sempre no universo da canção. Esse tema, levado ao mundo pelas ondas hertzianas e popularizado em discos de 78 rotações, ajudou o Reino Unido a enfrentar as legiões armadas de Hitler. Intitulava-se, emblematicamente, We’ll Meet Again: na voz dela, ganhava uma vibração semelhante aos discursos de Winston Churchill, tornando-se um autêntico hino da resistência à barbárie. Aquela mulher loura e franzina, que começara ainda criança a trabalhar com os pais nos palcos do teatro musicado e aos 18 anos já era vocalista em orquestras, contribuiu para manter elevado o moral britânico.

We’ll Meet Again nasceu em 1939, precisamente no ano em que começaram a soar os canhões do maior conflito bélico de todos os tempos, graças à inspiração de dois amigos que formaram uma bem-sucedida parceria: o pianista e compositor Ross Parker (1914-1974), mais tarde também actor, e o futuro produtor teatral Hughie Charles (1907-1995). Vinham embalados de um sucesso discográfico alcançado no ano anterior, I Won’t Tell a Sound (That I Love You), o que terá influenciado o inquebrantável optimismo do novo tema. We’ll Meet Again galvanizou largos milhares de soldados britânicos que partiram para as diversas frentes de batalha, não apenas em solo europeu, mas noutros continentes. E também nos ares e nos mares.

Vera Lynn tornou-se uma combatente civil: cantou entre os escombros de Londres, actuou em casernas improvisadas no Egipto, na Birmânia e na Índia, aterrou nos mais remotos palcos onde estacionavam forças britânicas para entoar aqueles versos que a Inglaterra inteira não tardou a saber de cor: «We’ll meet again / Don’t know where / Don’t know when / But I know we’ll meet again some sunny day.» Dando a todos a confiança plena de que haveria sempre um amanhã.

E houve mesmo: foi ao som destes versos que os britânicos saudaram euforicamente nas ruas o fim da guerra na Europa, em Maio de 1945.

 

Vera Lynn retirou-se cedo do mundo do espectáculo, no final da década de 50, dedicando-se à vida familiar: durante muitos anos, quase não se falou dela. Mas aqueles aparentes versos de amor que ganhavam um significado diferente em cenário de guerra nunca deixaram de preencher o imaginário popular.

Em 1964, Stanley Kubrick encerrou a obra-prima Doutor Estranhoamor com a antevisão satírica de um holocausto nuclear ao som de We’ll Meet Again: escutei-a aí, fascinado, pela primeira vez. Num registo pop, os Byrds incluíram o tema no seu álbum de estreia, Mr. Tambourine Man (1965). Em 1979, os Pink Floyd dedicaram à intérprete a canção Vera, no álbum The Wall, logo transposto para cinema pelo realizador Alan Parker.

Oito inesquecíveis versos de Roger Waters que me ficaram na memória: «Does anybody here remember Vera Lynn? / Remember how she said that / We would meet again / Some sunny day? / Vera! Vera! / What has become of you? / Does anybody else here / Feel the way I do?»

 

Em 2009, o impensável ocorreu: ela entrou pela primeira vez no top discográfico do Reino Unido – que ainda não existia em 1939 – superando a concorrência graças a uma colectânea dos seus êxitos, intitulada The Very Best of Vera Lynn e que incluía The White Cliffs of Dover e Auf Wiedersehen Sweetheart, outros temas que a celebrizaram. Gravações registadas entre 1936 e 1959, numa época em que a maioria dos que adquiriram o disco nem havia nascido.

O fenómeno deveu-se ao revivalismo da II Guerra Mundial naquele ano em que se recordava o 70.º aniversário da dramática invasão da Polónia pela Alemanha. Agraciada em 1975 como Dama do Império pela Rainha Isabel II, Vera Lynn recebia um novo título: o da cantora britânica mais idosa desde sempre representada na exigente lista das melhores vendas. Tinha 92 anos, confessou-se orgulhosa com a proeza, totalmente inesperada, e apressou-se a declarar que nem lhe passava pela cabeça regressar aos estúdios de gravação. Bastavam-lhe aparições esporádicas em salas de espectáculo, como interveniente ocasional ou mera espectadora em galas de homenagem. Para que não a esquecessem de todo – costumava dizer, meio a sério meio a brincar.

A precaução era desnecessária: os ingleses foram transmitindo esta canção de pais para filhos, de avós para netos. Portadores de uma fortíssima identidade colectiva, robustecida durante os bombardeamentos de Londres pela matilha nazi, não ignoram quem contribuiu para manter a nação unida em tempo de dor e trevas.

 

A mais recente homenagem prestada em vida a Vera Lynn veio da boca da própria Rainha, outra testemunha directa da II Guerra Mundial, já com a actual pandemia em curso. Aconteceu na noite de 5 de Abril, numa rara alocução televisiva da monarca aos britânicos, a propósito deste vírus que assombra o planeta: «Better days will return. We will be with our friends again. We will be with our families again. We will meet again.»

Era uma referência directa à canção, fazendo a ponte entre dois conflitos de natureza muito diferente mas ambos sérios testes à resistência humana. A última batalha na longa e frutuosa vida de Vera Lynn, que a 20 de Março, ao celebrar 103 anos, dirigiu uma mensagem aos compatriotas, com vídeo musical alusivo à efeméride. Sob o signo da esperança, incentivando-os a enfrentar o Covid-19. 

Há poucos dias, a 18 de Junho, o seu coração cansou-se enfim de bater. Mas a voz dela nunca nos abandonará, servindo-nos de inspiração e guia noutras causas e noutros combates. Com a certeza antecipada de que voltaremos a encontrar-nos, sem escudos nem máscaras, numa manhã inundada de sol. 

 

«So will you please say hello / To the folks that I know / Tell them I won’t be long / They’ll be happy to know / That as you saw me go / I was singing this song // We’ll meet again / Don’t know where / Don’t know when / But I know we’ll meet again some sunny day…»

 

34 comentários em “As canções da minha vida (18)”

    1. Nas minhas memórias, esta canção ficará para sempre ligada à cena final do filme do Kubrick.
      Escutei-a aí pela primeira vez.
      Foi uma forma na aparência ambígua, mas hoje para mim cada vez mais evidente, de o grande realizador britânico homenagear esta belíssima canção que Vera Lynn transformou num espécie de segundo hino do Reino Unido.
      Um hino de paz. Contra todas as guerras.
      Mas sem derrotismos. Porque, para vencer as guerras, há primeiro que derrotar quem as provoca.

  1. Fantástico, Pedro!
    Adorei ouvir a versão “Byrdeana” e também aquelas cenas do Kubrick, que não associava a esta música.
    O que a canção We’ll Meet Again me recorda de imediato é a série televisiva com a Susannah York e o Michael J. Shannon.
    Curiosamente, há uma semana (aquando da morte da Vera Lynn) estive a recordar essa série no Prosimetron, pois a MR pôs no blog a Vera Lynn a cantar The White Cliffs of Dover.
    Nessa época eu lia muito em inglês e, como fazia muito nessa altura, comprei os dois livros da série : ‘We’ll Meet Again’ e ‘We’ll Meet Again, the end of an era’.
    Recordo-me que a série teve imenso sucesso em Inglaterra e por cá também; agora com a morte da Vera Lynn seria interessante se a RTP Memória se lembrasse de a repetir.
    Ainda vou voltar mais vezes para ouvir melhor (grande trabalho de pesquisa, Pedro!) mas ficam, desde já, os meus sinceros agradecimentos por toda esta trabalheira. 🙂

    🌻
    Maria

    1. A memória trai-nos, Maria.

      Estava convicto de ter ouvido esta canção no genérico dessa série de que tanto gostei e que acompanhei na íntegra quando se estreou na RTP, em 1983.
      Afinal, no trabalho de pesquisa que faço sempre faço para textos como este, verifiquei que ‘We’ll Meet Again’ está presente apenas no título. Nada mais.
      Seja como for, a sua sugestão para que seja reposta na RTP Memória faz todo o sentido.
      Aqui fica, sabendo que somos lidos lá.

      Pensei que ‘We’ll Meet Again’ estaria também noutro filme com o mesmo tema (a presença de militares americanos no sul de Inglaterra entre 1942 e 1945): ‘Yanks’, de John Schlesinger. Um magnífico filme que vi há cerca de 30 anos e que se tornou quase invisível.
      Mas afinal também não está lá.

      No entanto, ‘Yanks’ vem associado a outra canção da minha vida: ‘I’ll be seeing you’. A trazer em breve também aqui.

      Grato – uma vez mais – pelas suas palavras de incentivo.

      1. Claro que acredito em si, Pedro, e é verdade que a memória nos trai: estava convencida que era a música do genérico… mas é verdade que quando oiço a canção penso na série 🙂
        [Tenho que fazer um ajustamento nesse neurónio ;)]
        Quanto aos livros (que já não tenho) quase jurava que um tinha capa amarela e a do outro era verde: e isso consegui confirmar.
        Só por curiosidade, vou-lhe enviar as capas.

        Tenho o Yanks em DVD, vou tentar vê-lo um destes dias.
        🌻
        Maria

        1. https://youtu.be/f6HZwWQXTBw

          Esta série, suponho.

          As voltas que a descolagem daquele B-17 (“aquela”, se se for pela sua designação vulgarizada) dava à cabeça deste maluquinho dos aviões. Em qualquer caso, ao tempo, vinte e poucos anitos de idade, já sem ilusões quanto ao horror da guerra.

          Costa

    2. Lembro-me bem da série, Maria. É excelente. Para além de excelentes actores, os britânicos são mestres em recriar ambientes de época.
      Fiquei com a ideia de que a série se chama “Well meet again” exactamente por causa da canção, porque normalmente fico curiosa por saber de onde, de que livros, por exemplo, foram adaptadas as séries e filmes e esta foi escrita para televisão.⚘⚘

      1. Sim, Dulce, eu sei, eu tive e li os dois livros : o primeiro do Keith Miles e o segundo do David Butler.
        Consegui encontrar as capas dos livros na net – mas como já não os tenho, não dá para ver os pormenores 🙂
        Por exemplo, da série The Jewel in the Crown tenho os quatro livros e respectivos DVD: foi adaptada do The Raj Quartet, do Paul Bowles.

        Beijinho e boas séries!
        🌻
        Maria

        1. Um destes dias … já foi há algum tempo, calhou ver um filme para televisão com o Tim Piggot- Smith, o Art Malik e o James Dance, que , por muitos outros filmes e séries famosas em que tenham actuado, a primeira associação que faço é sempre a The Jewel in the Crown. Uma série verdadeiramente extraordinária.

          1. Do melhor que já se fez, eu adoro ver séries britânicas.
            Dulce, o Dance era Charles, James era a Geraldine, que de vez em quando também aparece em filmes antigos, e a maravilhosa Peggy Ashcroft: gosto imenso dela.
            É bom recordar, é sempre bom pôr os neurónios a trabalhar…
            🌻
            Maria

      2. Adenda:

        Paul Scott (e não Bowles) obviamente.
        Por acaso até gosto muito do Bowles e de um livro dele que deu um grande filme: Um chá no Deserto.
        🌻
        Maria

  2. We’ll Meet Again.

    É, sem sombra de dúvida, uma das “canções da minha vida”. Comecei a ouvi-la na versão Byrds, onde pontuava aquela Rickenbacker de 12 cordas, magnífica nas mãos de Roger McGuinn, originalmente tocador de banjo.

    Só mais tarde vim a conhecer a versão original da Vera Lynn e foi então que me apercebi do seu significado histórico. Ainda mais fã fiquei e hoje, passados largos anos, continuo a apreciar ambas as versões.

    Repetindo algo que, em ambientes mais intimistas, por vezes dizia a concluir: “And that’s all folks. We’ll meet again.”

    1. Eu também adorei a versão dos Byrds, não me recordo de a ter ouvido, mas gostava imenso deles.
      E também uso muito a primeira expressão (sou daquelas pessoas, irritantes para alguns, que gosta de largar umas larachas noutras línguas, assim em jeito de private joke).
      E sim, ficam muito bem juntas. 🙂
      🌻
      Maria

  3. Curiosidade: a mesma guerra que fez saltar para a ribalta Vera Lynn empurrou para a escuridão o Novachord, o sintetizador que acompanha a cantora no registo original.

  4. Quem me ensinou o significado desta musica foram os Pink Floyd e o filme de Alan Parker.

    Durante anos trauteava esta canção convencido que a “tal” Vera Lynn seria alguém já falecido tal a nostalgia e o sentimento pesaroso que saía da voz inconfundível de Waters.

    Sempre li muito sobre a WWII e ou estava desatento ou não associei uma coisa a outra.

    Aprendi bastante sobre o tema ao ler este seu texto.

    Grato.

  5. O pessoal cá de casa já ouviram também a Vera Lynn, e graças a este post conheceram o seu significado. São novos e vão lembrar-se dela e do seu significado por muitos mais anos.
    Obrigado por isso Pedro

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