Os modelos “lá de fora”


João Pedro Pimenta,
 

Muito se tem discutido o “modelo sueco” de relaxamento face à pandemia, para mais depressa adquirir imunidade de grupo e manter parte da economia a funcionar. Não pondo em causa a legitimidade das autoridades científicas e políticas locais, tenho sérias dúvidas quanto a esse modelo, não só por sabermos pouco ainda sobre a imunidade a um vírus novo e porque as economias nunca têm grandes resultados se o resto do mundo está a meio gás, mas sobretudo porque até agora os números da letalidade têm sido pouco encorajadores. Com mais ou menos o mesmo número de contagiados oficiais que Portugal, a Suécia tem três vezes mais óbitos. Até agora, a experiência não parece ser de grande sucesso.

É verdade que os próprios admitem alguns erros. Mas mesmo que o modelo fosse usado noutros países (o que os seus vizinho nórdicos se recusam a fazer), é preciso tomar em devida conta as diferenças culturais nas diferentes sociedades, coisa que parece esquecida em prol da “economia”, globalização, etc. E isso não significa necessariamente maior civismo ou “adiantamento” da parte dos suecos. Como as relações familiares e sociais, por exemplo.

Sei do episódio por conversas de família, embora já fosse nascido. Resumidamente, numa altura perto do Natal, uma parente da nossa saudosa prima Eivor (a prima sueca, de geração mais velha) veio a Portugal e ficou maravilhada com as reuniões familiares, os encontros, a preparação para a consoada, etc. Na Suécia, dizia, nada daquilo tinha lugar. Os laços familiares eram completamente diferentes e muito mais distantes. Claro que o Natal existe na Suécia, como em boa parte do Mundo, mas de uma forma mais distante, sem que a grande maioria tenha festas de família, num país já de si frio, o que pode justificar o elevado número de suicídios.

É por isso que importar um determinado modelo, já de si discutível no país de origem, pode não fazer qualquer sentido e trazer males maiores. A natureza humana pouco muda, o Mundo é global, a Europa é unida, mas as diferenças culturais, ainda que esbatidas, permanecem e acabam sempre por vir à superfície. É bom que quando olhamos para o que vem “lá de fora” não pensemos que é tudo melhor e que os nossos hábitos são necessariamente “incivilizados”. Para isso já basta essa velha e perniciosa mania dos portugueses de dizerem constantemente mal do próprio país.

A imagem pode conter: 2 pessoas, ar livre

23 comentários em “Os modelos “lá de fora””

  1. Convém não esquecer que grande percentagem de infetados e óbitos se deram no seio das comunidades migrantes, acolhidas pela Suécia e provenientes de países árabes e do norte de África.

    Esse elevado número deve-se precisamente ao fator tradicional e de hábitos próprios das comunidades, bem como ao facto de ser uma parcela de população menos informada e menos formada que o sueco de origem.
    Comunidades que têm alguma desconfiança das autoridades, aceitável por todo o histórico de tirania que experienciaram ao longo de toda a vida.

      1. A certeza não a tenho, como ninguém poderá ter. Apenas observo uma declaração de um médico sueco, responsável pela unidade de cuidados a doentes covid, de um hospital de Estocolmo.
        Mas seja como for, tendo em conta o meu conhecimento, embora parco, do povo sueco e da Suécia, bem como o conhecimento da especificidade das comunidades migrantes, com tradições e formas de estar totalmente anagónicas dos suecos, vejo aqui uma possibilidade de veracidade.

    1. Os suecos registaram, analisaram e trataram dados étnicos nas mortes por covid-19?
      E será que fazem o mesmo nas mortes por outras causas?
      Curioso

      1. E qual é o problema de recolher dados étnicos? Ok, ok é politicamente incorreto, para uma mente pequenina. Mas faz-se em todo o lado, até aqui o nosso Portugal e não é só nas mortes, simplesmente não se divulga para não levar com as katares e mamadous e mortaguas.
        E já agora, é preciso compilar dados étnicos para ter informações sobre a infeção dentro de uma determinada comunidade?
        E há algum problema nisso? Até é inteligente da parte de quem tem responsabilidade, de forma a cartografar o contágio a nivel de população, área geográfica, idade, sexo, etc.
        Muita gente estuda isto de diferentes pontos de vista e o cultural é muito importante.

  2. “Com mais ou menos o mesmo número de contagiados oficiais que Portugal, a Suécia tem três vezes mais óbitos. “

    Tenho lido algumas frases que vão neste sentido e causam-me alguma perplexidade.

    O resultado pretendido pelas políticas de intervenção não-médica é a diminuição do contágio.

    Ou não?

    Como medir, então, o sucesso dessas políticas (confinamento, quarentenas, distanciamentos auto ou hetero-impostos, encerramentos de escolas e espaços públicos, uso obrigatório de máscaras, etc) pelo número de mortos SEM diferenças perceptíveis no contágio (n.º de infectados)?…

    1. O mais provável é que o número de contagiados suecos seja superior, já que o número de testes é muito inferior ao de Portugal. Cada país teve a sua estratégia e para além da grau de confinamento também contam outros factores, como a celeridade com que se efectuou esse confinamento, como se cumpriu, casos localizados, etc.

      1. Informação OMS, o número de infetados em Portugal é 5 a 10 vezes superior ao número oficial.

        Para quem ache que é uma falácia, veja a informação dada pela ordem dos médicos e confirmada pelo MS… o número de profissionais de saúde infetados é 5 a 10 vezes superior ao conhecido.

        Coincidências? Eu acho que não.

        1. Está-se a referir a alguns estudos feitos nos hospitais de S. João e noutro de Lisboa? Claro que o número de profissionais contagiados é mais alto, por razões evidentes. É diferente do comum da população. Não há quaisquer dados que nos mostrem quantos contagiados houve na realidade, temos apenas os números oficiais que são dos testados, por isso dizer que é “5 a dez vezes mais” até pode ser verdade mas não tem para já bases que o sustentem.

  3. JPP está desactualizado. Os suicídios entre os suecos é um mito de há 50 anos.
    A Suécia está abaixo da média europeia em termos de suicídios e ocupa o 65º lugar em homens e 46º. lugar em mulheres a nível mundial.
    E é no verão e não no inverno que acontecem mais suicídios.
    Nas imagens aparecem os jogadores de futebol, o português Cristiano Ronaldo e o sueco Zlantan Ibrahimovic não se percebendo a que propósito.
    A não ser que se queira dizer que a Suécia aceita muito bem quaisquer imigrantes, que no caso do Ibrahimovic ser descendente de ciganos bósnios que imigraram para a Suécia.

    1. Por acaso não anda assim tão longe, embora seja menor do que em tempos. Já vi que andou a fazer pesquisas no google. Aliás essa senhora que veio de visita teve uma filha que se suicidou, tal como muitos outros.
      Pus aí o CR7 e o Ibrahimovic como mera ilustração, recordando o famoso jogo de 2013 que deu a passagem para o Mundial a Portugal e a Bola de Ouro ao jogador português.

      1. Todos nós temos que obter informações de qualquer modo, em tempos eram as notícias dos jornais diários, telejornais, actualidades no cinema, crónicas em revistas, etc., agora é o google.

  4. Parece-me muito prematuro comparar modelos. Talvez os suecos tenham razão, talvez não, mas é preciso um bocado de simplicismo para comparar o número de mortos com o tipo de medidas tomadas, sobretudo se pensarmos que o efeito foi bastante desigual em países que tomaram medidas parecidas.

    É curioso como os suecos são sempre condenados à partida pela opção que tomaram. O desejo de justificar que a solução é má leva a que se diga que seria impossível noutro país, não vá correr bem e alguém ficar com ideias.

    “É por isso que importar um determinado modelo, já de si discutível no país de origem, pode não fazer qualquer sentido e trazer males maiores. “
    Foi isso que se fez por cá. Não foi o modelo sueco mas foi importado à mesma. No fundo está a dizer que só são válidas as teses com que concorda, independentemente da confirmação delas.

    1. Estou a dizer que até agora o modelo sueco não convenceu. Não sabemos quase nada sobre eventual imunidade adquirida, mas temos a certeza que morreram mais pessoas na Suécia do que em Portugal. Actualmente são estas as evidências, quer que lhe diga o contrário? Ou que não há hábitos na Suécia diferentes dos portgueses que poderiam fazer a diferença?

      1. O que acontece é que o modelo que seguimos não é coerente.
        Disseram-nos que o confinamento era para conter contágios e tínhamos que o começar um condicionamento muito restritivo com um determinado número de infetados. Neste momento temos mais infetados que isso, mas dizem-nos que temos de parar o confinamento, apesar de não haver imunidade de grupo.

        Fica a pergunta: O que estava errado, o confinamento violento inicial ou a abertura agora? É que não podem estar os dois certos. Se calhar estamos a adotar o modelo sueco, só que com atraso e depois de termos rebentado com a economia.

        Essa treta de hábitos diferentes é muito folclore. Nem os hábitos são assim tão diferentes nem isso explica que os dois países da Península Ibérica tenham intensidades tão diferentes da doença apesar de terem hábitos semelhantes, ou que haja mais infeções na Bélgica do que na Holanda, por ex..

        1. Para além disso também nos disseram que era preciso aguentar os contágios para preparar o SNS e poder haver tratamento para todos. Aliás ficou subtentendido que essa era até a premissa principal. Até agora funcionou, tanto que já fecham hospitais de campanha. Mas também fiquei com dúvidas noconfinamento/desconfinamento, pode ser que naquilo do Rt esteja a resposta.

          Os hábitos não serão de outra galáxia mas explicam alguma coisa, e a forma como os familiares se relacionam é uma delas. O resto são erros e estratégias própria de cada país. Por exemplo, em Espanha já havia mortos e ao mesmo tempo havia manifs feministas e congressos do Vox.

  5. A ser certo o peixe que agora vendem os média para continuar o espectáculo , de que irá haver novas vagas (duvido muito) , a Suécia já vai a anos luz , com a sua estratégia de longo prazo : terá todos os seus mortos agora , enquanto que os outros países os irão tendo divididos por vagas e com muito mais custos económicos.

    1. Se não houver novas vagas, então os suecos foram preicipatados. Mas eles lá sabem
      Já agora parabéns, finalmente alguém que escreve media com acento. Já não posso ouvir falar da “mídia” à brasileira, como se fosse uma palavra anglo-saxónica.

      1. Obrigada…já fui ver , não deveria ter acentuado , mas como masculino ” os média” ( mass media) , não se confunde com a média ( medida) não foi um grande erro -:) . Obrigada novamente , não vou repetir o erro.

        1. Não se culpe, Marina, até lhe estava a fazer um elogio: com a mania que há hoje em dia de se dizer ou até escrever “mídia”, a tónica no “e” repõe a palavra na sua fonética original.

          1. Exactamente, João Pedro. É isso. De regresso à fonética latina, que nunca devia ter sido abandonada. Porque se trata precisamente de uma palavra latina – nossa língua-avó.
            É um absurdo darmos entoação “inglesa” a um vocábulo que de inglês nada tem.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *