Estava uma noite escura como breu quando aterrei em Ljubliana. Não se ouvia o ribombar dos trovões, mas os sucessivos relâmpagos que rasgavam o céu testemunhavam a intempérie.
Uma luz branca suja iluminava a sala de desembarque, conferindo ao ambiente um ar de presídio. As pessoas alinhavam-se em duas longas filas, diante de homens fardados que escondiam a carranca por detrás de óculos escuros. Perguntei-me a razão de os guardas da alfândega usarem óculos escuros numa noite de tempestade, mas os meus botões, únicos interlocutores possíveis naquele momento, não me deram resposta. Optei pela fila da direita. Estava avisado do rigor do inquérito alfandegário e preparei-me para uma longa espera. Era quase meia-noite, o avião aterrara com duas horas de atraso, devido a uma paragem não prevista em Milão, forçada pela tempestade. Fiz figas para que a pessoa que me devia esperar do outro lado da fronteira não tivesse debandado. Sabia o nome do hotel, mas não tinha moeda local para pagar o transporte e a agência do banco local já encerrara. .
A fila foi avançando lentamente e o mau humor dos guardas alfandegários parecia aumentar à medida que ia engrossando. Passara quase uma hora quando enfrentei o guarda. Apresentei-lhe o meu passaporte diplomático. Ele tirou os óculos escuros, fixou demoradamente o olhar em mim e finalmente perguntou:
-Quanto tempo vai ficar na Jugoslávia?
– Para já, três meses…
O corpo de quase dois metros de altura virou-me as costas mostrando o coldre que abrigava uma arma. Parecia procurar qualquer coisa que não encontrava. Fez-me um sinal para esperar e afastou-se em passo lento. Levou com ele o meu passaporte, que segurava na mão direita e fazia bater na esquerda em compassos impacientes. Vi-o desaparecer por detrás de uma parede cujo único ornamento era uma fotografia de Tito. Passados uns minutos, voltou acompanhado de uma mulher igualmente fardada em tons de castanho esmaecido debroados a vermelho vivo. A farda escondia-lhe as formas, mas não o cabelo loiro curto e dois olhos verdes emoldurando um rosto agreste e másculo. Olhou-me sem mexer um músculo da face. Depois folheou o passaporte e perguntou:
– Vai ficar em Ljubliana?
– Apenas esta noite. Amanhã sigo para Split . É lá que vou ficar.
-Onde vai ficar esta noite?
– No hotel …
– Como vai para lá?
– Tenho alguém à minha espera lá fora.
– Nome?
– Jorge Martinez. É funcionário da OCDE.
– Sabe onde é que ele está à sua espera?
– Creio que deva estar na sala de espera, mas é a primeira vez que cá venho, não conheço o aeroporto. Provavelmente terá um cartaz com o meu nome.
Mandou-me sair da fila e aguardar.
Embora um silêncio respeitoso continuasse a pesar no ambiente da sala, senti que as pessoas respiravam de alívio atrás de mim. A fila ia voltar a mover-se.
O guarda alfandegário voltou à sua rotina.
Já só havia três ou quatro pessoas na fila, quando a mulher regressou. Vinha com cara de poucos amigos.
– Não há ninguém com esse nome à sua espera.
– Mas deverá estar alguém. Não viu nenhum cartaz com o meu nome?
– Não. Acompanhe-me.
Deixei-me conduzir. Desaguei numa sala tão inóspita como a anterior. Apenas os tectos eram mais altos e no topo havia um varandim onde meia dúzia de pessoas deviam estar a aguardar familiares. Olhei em volta, à procura de um cartaz com o meu nome. Em vão.
– Se não estiver ninguém à sua espera, nós levamo-lo ao hotel. Amanhã de manhã resolveremos o assunto. Sabe como vai para Split?
– Não. Alguém irá buscar-me ao hotel.
Finalmente o rosto da mulher abriu-se num sorriso.
– A mesma pessoa que devia estar aqui à sua espera?
– Tenho um número de telefone. Amanhã de manhã entro em contacto, no caso de não aparecer ninguém.
Um homem apareceu junto de nós, vindo do nada. És o Carlos Oliveira? Desculpa, mas atrasei-me com o temporal. Devia ter saído de Split mais cedo, porque a estrada está um caos. Acompanhou a frase, em espanhol, com um gesto indicador de destruição.
A zelosa funcionária perguntou:
– É esta a pessoa que devia estar à sua espera? Virando-se para o Jorge pediu-lhe os documentos.

……..
Saímos do aeroporto em direcção ao hotel. A cidade estava deserta.
No dia seguinte, um sol anémico espreitava entre nuvens ameaçadoras. Antes de partirmos para Split, o Jorge ofereceu-me uma visita rápida pela cidade. Subimos ao castelo, descemos para o centro histórico, atravessámos o rio Ljublinica, percorremos algumas ruas ladeadas de edifícios belíssimos, respirando história. Tomámos um café num local que me pareceu inóspito, na rua Mestni. Passavam pela rua algumas pessoas, cujo caminhar me fazia lembrar a marcha dos militares. Mulheres jovens, altas e bonitas vestiam de forma simples, embora mais descontraída do que noutros países de leste. A breve visita deixou-me uma sensação de incomodidade. Estava lá tudo que qualquer cidade deve ter, mas faltava-lhe um sopro de vida. Quiçá um beijo de um príncipe encantado que a despertasse do torpor em que parecia mergulhada.
Esta foi a Ljubliana que eu vi em 1985. Cerca de 20 anos depois, quando lá voltei, a cidade parecia ter ressuscitado de um período de hibernação. Resta saber se foi graças ao beijo de um príncipe, ou de uma malévola figura disfarçada de fada madrinha, que a cidade ficou assim.

Gostei de ler isto, Carlos. Não deve haver muito em comum, mas lembrei-me de Praga: belos edifícios cheios de História, o rio e as pontes, o torpor, o ar decrépito de uma velha fidalguia arruinada: e depois a ressurreição, o júbilo da vida nova.
Em 87 foi talvez a cidade da Jugoslávia, depois de Dubrovnick, de que mais gostei. E na fronteira perto de Trieste, aparte a estranheza por não ter hoteis reservados e a seca da palestra sobre os dinares, ninguém nos incomodou. Nem a mala do carro, onde jazia o meu carregamento habitual de cigarros, abriram.
Talvez fossem pozinhos de uma fada chamada Perestroika.
Adorei ler, Carlos. É para o seu livro de memórias, ’tá visto!
Adorei esta conjugação dos dois posts, Carlos e fiquei com vontade de visitar Ljubliana.
Já agora, que tal ficar por lá?
Bela história Carlos. Já agora umas notas, se me permite.
Nós habitualmente escrevemos o nome da cidade como o Carlos fez, mas estamos errados ao fazê-lo, porque o podemos escrever em português da mesma forma que eles o pronunciam. Deveríamos escrever “Lhublhana”, sem nenhum “i”. De forma semelhante, o nome do rio deveria ser “Lhublhanitsa”. Já a rua Mestni dever-se-ia escrever “Messtni”, para não termos a tentação de ler o “s” como “ch”.
Lamento se estrago um pouco o prazer à leitura, mas são coisas que para mim se têm tornado importantes.
Gostei muito Carlos. Muito bem a conjugação dos dois posts.
Decididamente sou fã destas tuas crónicas, Carlos. Podes continuar 🙂
Gostei muito Carlos, duas belíssimas “viagens”.
Muito boas, as duas crónicas. E bem interessante esta tua forma de aproveitar da melhor maneira os dois blogues, complementando as leituras em vez de repetir textos,o que acaba por não gerar tráfego de leitura.
Sabes que ler isto, a esta hora, neste silêncio entrecortado com o barulhos de pequenas gotas que caem lá fora, à meia luz… parece que vi um filme!
Ainda bem que não ficaste por lá e estás bem perto para contares!
Excelentes crónicas, Carlos. E sempre com ponta de romantismo…
O comunismo fica a todos tão mal.
Gostei muito de ler, Sr. CBO. 🙂
Gostei muito de ler, Carlos.
Venham mais memórias…
:)))