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A CASA DOS ESPÍRITOS (1982)
Autora: Isabel Allende
Realizador: Bille August (1993)
O primeiro romance da autora chilena tem um fôlego e uma densidade que faltam à adaptação filmada, que redundou numa fita medíocre, apesar de contar com um elenco cheio de estrelas (Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder, Jeremy Irons, Antonio Banderas) e ter sido parcialmente rodada em Portugal. Fico-me pelo livro.

Fica-se pelo livro e fica muito bem.
Raro é o filme que consegue ser, pelo menos, tão bom como o livro.
Eu assim de repente só me lembro de um, O Padrinho… mas esse tinha o privilégio de ter o próprio Mario Puzo como co-argumentista.
E já agora só uma nota, O Padrinho consegue outro feito… fazer uma sequela melhor do que o original… não é fácil.
Boas leituras
O filme “Jurassic Park” do Steven Spielberg é muito superior ao livro “Jurassic Park” do Michael Crichton. Mas sim, não é comum acontecer.
Por acaso lancei aqui no DELITO esta série que já vai bem longa com o objectivo de tentar responder a essa questão.
A regra do livro ser superior ao filme é menos fixa do que parece. Vou dar um exemplo: ‘Vertigo’, que a ‘Sight & Sound’ classifica agora como o melhor filme de sempre, baseia-se numa medíocre novela policial. ll-time
https://www.bfi.org.uk/greatest-films-a
Para me ficar pelos 25 melhores filmes, ‘O Desprezo’, de Godard, é bem superior ao romance de Moravia que lhe dá origem, ‘O Padrinho’ suplanta claramente o romance homónimo de Mario Puzo e ‘Apocalypse Now’ é superior à novela de Conrad (por mais elogios que esta nos mereça).
Desconheço a obra de Arthur C. Clarke que serve de referência a ‘2001’, mas aposto também que o filme de Kubrick é superior.
Na verdade, Pedro, a história do “2001: A Space Odyssey” é um pouco mais complexa.
A ideia original vem de um conto do Arthur C. Clarke de 1951 intitulado “The Sentinel”, onde é descrito o monólito na Lua. Foi a partir dessa ideia que o Clarke e o Kubrick desenvolveram o guião do filme, e em simultâneo o Clarke escreveu um romance para desenvolver a ideia paralelamente ao filme (julgo que a ideia era que o livro fosse lançado quando o filme estreasse, mas a estreia acabou por ser antecipada).
Na prática, nem o filme do Kubrick é uma adaptação do livro do Clarke nem o livro do Clarke é a novelização do filme do Kubrick – é uma mesma história escrita dois meios diferentes ao mesmo tempo. Não sei se existirá algum outro caso idêntico.
Claro que o livro perde na comparação – não há nada que se compare ao filme do Kubrick (sou suspeito, como sabes). Mas há um outro detalhe que funcionam muito bem no livro. Como o momento em que o Dave Bowman, sozinho na órbita de Saturno (no filme temos Júpiter porque o Douglas Turnbull não conseguia fazer efeitos credíveis para os anéis de Saturno), se aproxima do enorme monólito que se abre para dar lugar ao “Stargate”, e envia uma última exclamação para a Terra:
“The thing’s hollow – it goes on forever – and – oh my God! – it’s full of stars!”
Enfim, quem não percebe o que se passa no filme e quiser entender, pode ler o livro, que explica tudo muito bem.
Hei-de ler um dia esse conto, João. Interessa-me, na medida em que considero este um dos filmes da minha vida. Ao nível de algumas obras de Welles, Visconti, Ford, Kazan, Coppola e poucos mais.
Há filmes que nos acompanham para sempre, aconteça o que acontecer. ‘2001’ é um dos destes casos, necessariamente raros.
“2001” é mesmo “o” meu filme. O conto nunca li, mas tenho duas cópias do livro (um paperback com alguns anos, e um hardcover muito bom de uma colecção recente introduzida pelo Neil Gaiman). Vale bem a pena.
Ainda não calhou foi ler as sequelas. E se calhar até é melhor assim.
Podias reeditar no DELITO a tua lista – devidamente fundamentada – dos melhores filmes de ficção científica que publicaste dez anos.
Vale a pena confrontá-la, “post by post”, com novos leitores. E também como teste aos teus próprios gostos, que terão (ou não) mudado nesta década.
Julgo que valeria a pena. Há dez anos, como bem te lembras, suscitou comentários muito interessantes.
Junto-me ao Pedro para pedir ao João a reposição da série sobre SF. O 2001 também é um dos meus filmes, seguido de muito perto pelo Blade Runner 🙂
Come on, João!
Vou ficar à espera.
🌻
Maria
Por acaso tenho esse projecto pensado há já alguns anos, mas a vontade de escrever, como se nota, não tem sido abundante.
É um exercício interessante, até porque uma lista feita hoje seria mesmo muito diferente da lista que fiz há dez anos. Não me comprometo com um prazo, mas vou rabiscar qualquer coisa para um destes dias.
Já não é o primeiro que ouço dizer isso sobre Jurassic Park.
Infelizmente não sou apreciador de ficção científica, monstros, demónios, do fantástico em geral.
Mas recordo-me de ler com interesse o livro Next, de Michael Crichton.
E essa aversão aos temas também não me permitem avaliar o rei das adaptações ao cinema, Stephen King, sendo a adaptação
de Shining imensamente elogiada.
Entretanto, mesmo sem o brilhantismo dos livros, recordo aqui algumas adaptações de grande qualidade:
E tudo o vento levou
O monte dos vendavais ( versão William Wyler)
Doutor Jivago ( uma obra muito exigente para se adaptar, exemplo disso é nunca ter sido agraciado com um remake )
Trainspotting
O Silêncio dos inocentes
Entretanto, convém não esquecer as séries, com house of cards a ter lugar de destaque.
Curiosamente, consta que o Stephen King não gostou muito da adaptação do Kubrick…
Gosto muito de alguns filmes baseados na obra do Stephen King – teria de destacar The Shawshank Redemption e The Green Mile, claro. Mas como não li os livros, não posso dizer se as adaptações são boas.
A grande diferença do filme Jurassic Park para o livro é aquilo que em inglês se designa por “sense of wonder”: o momento em que seguimos o olhar do Alan Grant até ao braquiossauro é absolutamente mágico. No livro não há nenhum momento que se compare a esse.
Quando a FC aponta para os mitos de criação — quem fez o quê e quem fez o que fez primeiro — acho que tudo se torna interessante. Foi o caminho que inteligentemente Ridley Scott deu aos Aliens no Prometheus, mas aquilo degenerou numa trapalhada perfeitamente idiota. Nesse aspecto o filme Moon, que é um pastiche do 2001 e de outras experiências do género (incluindo a gloriosa série “Espaço 1999” — toda feita com lata, papelão e esferovite) acaba por ser um exercício muito mais bem conseguido — e com uma nota dominante de melancolia que é a meu ver uma forma genial de traduzir em sentimentos a enormidade das distâncias no Espaço. Tarkovsky, aliás, apercebeu-se logo disso.
‘O Padrinho’, diz bem, rema na direcção contrária. No melhor sentido, neste caso.
E também concordo: será um dos raros filmes em que a chamada “sequela” é melhor do que a primeira parte.
Os filmes dos livros de que eu gosto são sempre uma desilusão
Dno
Nem sempre, pela parte que me toca.
‘O Leopardo’, de Visconti, está ao nível do romance de Lampedusa: ambos geniais.
O mesmo direi d’ As Vinhas da Ira’ – o filme de John Ford presta a devida homenagem ao romance de Steinbeck.
N’A Ponte do Rio Kwai’, o filme supera largamente o livro. E ‘Vertigo’, como lembro um pouco mais acima, também.
Adorei o livro, …o filme vi porque tendo sido filmado em Portugal fiquei curiosa mas o filme, apesar de bom não captou a mística do livro … o filmes que fazemos na nossa cabeça são sempre melhores …seremos sempre os melhores realizadores dos livros de lemos….
Talvez o facto de o filme ter sido parcialmente rodado em Portugal tenha contribuído para a nossa decepção, na medida em que terá aumentado as expectativas. Mas é como diz: falta ao filme captar aquela atmosfera quase mágica do livro.
Por acaso fiz parte dos figurantes nas filmagens perto de Vila Nova de Milfontes.
A frontaria do ‘palacete’ foi erigido perto de Milfontes com a serra do Cercal como fundo. Por falar inglês consegui entrar nos figurantes e a Glenn Close, o Banderas e outros estivemos na casa duns familiares para os lados de Almograve a comer percebes e melão com vinho tinto. Deram um ‘feriado’ à catering e sairam tardíssimo para Lisboa.
A Glenn Close comentava a mania dos homens portugueses virarem-se para trás
depois das mulheres passarem para olharem para o rabo e para as pernas delas.
Melão com tintol — sempre me disseram que dava cortiça e que fazia mal
Com melância é que faz mal.
Então com uma entrada de melão com presunto bebe-se o quê?
Agua pé
Agua-pé ou beber água em pé.
A vulgo água-pé é o chamado vinho novo que aparece em Novembro no São Martinho.
A colheita do melão é no verão, e o vinho que era servido aos trabalhadores era vinho misturado com água. Pudera no o vinho no Ribatejo 14/15º se não houvesse mistura com água lá se ia a apanha do melão.
Além do mais a chamada água-pé é proibida a comercialização.
Tem razão! fiz confusão.
Mas que ganda melão
Já vi o filme, não li o livro.
Não gostei particularmente do filme, não obstante o elenco sagrado que o compunha, e agora fiquei a saber porquê.
Mais uma boa obra adulterada pelo cinema. Como de resto salvo honrosas excepções, raras, raríssimas, quase inexistentes, o cinema vai pela bilheteira sem a mínima preocupação de insultar o autor da obra.
Acontece mais isso do que o contrário. O que não invalida a existência de honrosas e muito louváveis excepções.
Haverá, seguramente honrosas excepções, mas então sou um azarado do caraças porque só me lembro de ver um filme que suplantou o livro: “Guerra e Paz.”
De resto sobre os que os leitores/comentadores avaliam neste postal, não me vou pronunciar porque nalguns casos não li o livro, e noutros não vi o filme.
Por exemplo: no postal abaixo sobre livros, “Duas Irmãs e um Rei” obra também levada ao cinema, alguma vez há resquícios de comparabilidade? Nem semelhanças.
É como pôr a competir a luz e o som. Enquanto a primeira dava sete vezes a volta ao mundo, a outra pouco mais percorria que uns míseros trezentos metros.
Sobre ‘Guerra e Paz’ nada posso dizer: já vi o filme (com a deslumbrante Audrey Hepburn) mas nunca me atrevi a ler as mil e muitas páginas do livro.
E por falar em Audrey Hepburn, gostei muito mais do filme Breakfast at Tiffany’s do que do livro do Truman Capote.
🌻
Maria
Também eu.
Excelente livro e filme.
Gostei bastante do livro, mas não do filme.
Subjectivo, como não podia deixar de ser : “Os Canhões de Navarone”, filme , suplanta a obra escrita.
JSP
Por acaso também gostei muito do livro. Já o mencionei aqui: a-li-o-livro-e-vi-o-filme-257-10943128
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/j
A Casa dos Espíritos foi o primeiro livro que li da Isabel Allende e gostei imenso.
Mas também gostei muito de ver o filme; vi-o no cinema e depois em DVD. Só pela interpretação dos actores já valeria a pena, mas depois há a história (obviamente sem a riqueza de pormenores da escrita) e o facto de ter sido filmado em duas zonas onde vivi e que conheço bem: Lisboa e Alentejo.
Embora a crítica do filme tenha sido má, eu gostei muito de o ver.
🌻
Maria
Já agora refiro aqui dois outros filmes que não me desiludiram relativamente aos livros: Rebecca e Out of Africa.
Bem lembrado, Maria. Dois excelentes livros – de duas escritoras – que originaram filmes muito bons. Com as prestigiadas assinaturas de dois realizadores de primeiro plano, Alfred Hitchcock e Sydney Pollack.
As memórias africanas de Karen Blixen são um dos melhores livros do género que já li.
Vi o filme antes de ler o livro. Isso dá-nos a vantagem de já haver um rosto para os personagens, embora já saibamos como acaba. No caso desta adaptação, há imensa coisa que é cortada e que nos dá uma obra “manca” por comparação com o livro (os dois filhos do casal pura e simplesmente não existem no filme). Mas gostei da interpretação do Jeremy Irons e de ver São Bento transformado em La Moneda (os tanques em frente ao parlamento deram na altura origem a várias piadas).
Existem bons livros que deram excelentes filmes.
Destaco estes:
O full metal jacket(nascido para matar) de gustav Hasford do realizador Stanley Kubrick, Shuter island de Dennis Lehane do realizador Martin Scorsese.