Desloco-me ao mercado a uma sexta-feira para evitar o movimento dos sábados e deparo-me com o movimento dos sábados a uma sexta-feira. Não há como evitar os outros. As ruas estão desertas, mas é um engano. Entre portas continua a viver-se em comunidade, porque a vida está, desde há muito, organizada assim.
Mas há diferenças. Agora a mole divide-se entre temerosos e temerários. Aqueles que usam máscara identificam-se logo, tal como acontecia nos tempos em que havia futebol e seguiam para o estádio de cachecol e bandeirinha. Mas os adeptos da equipa adversária, apesar de não usarem distintivos, também se revelam sem qualquer subtileza. São os que ostentam olímpico desrespeito pelas novas normas sociais. Falam, movimentam-se, com alarde. Os mais afoitos ainda arriscam apertos de mão.
Na zona da peixaria, a banca mais popular do mercado continua com movimento e Rosa, que a dirige com mão de ferro, também faz questão de mostrar de que fibra é feita. Entra e sai da banca, escolhe o peixe com desembaraço, e não se inibe quando reconhece entre os seus habitués gente da sua equipa. Ei-la, toda sorrisos, a dois palmos de um cliente a quem trata por doutor. Pequena, franzina, à frente de uma equipa de homens, talvez descendentes de pescadores, aprendeu há muito que entre os seus, o respeito conquista-se à força de coragem para desafiar os elementos. Ele, quem sabe, convenceu-se de que a distância de classe o vai preservar, como sempre, de tudo.

Bom texto!
Que belo apontamento, obrigado.
Obrigada, eu, Jpt 🙂
Parece ser entre as classes populares que há mais o ‘quero lá saber’.
Já quando foi o caso do Taveira e depois o do Sócrates ouvia-se o ‘esperto é ele’.
Mas, por muito que sejam os ‘anos a virar frangos’, são as classes populares a sofrer em maior escala todos os tipos de pandemias.
Mas não foi o que observei nesta cena que descrevi, em que a classe popular e a outra se equivalem…
Delícia de texto, Teresa, um belo apontamento da “Vida como ela é”.
Obrigada!
Municípios com mais queda para a repressão, como Cascais, fecharam tudo, incluindo os mercados.
Es costumo ir a um mercado em Lisboa, e vejo que ele tem agora substancialmente menos gente (talvez 50% menos) do que tinha antes.
Aliás, tal como as lojas em geral, com possível exceção dos Pingos Doces e Continentes, que, suspeito eu, estão a vender bastante mais com esta crise.
Neste contexto não lhe chame repressão. Excesso de zelo será mais aceitável.