Havana? Caracas? Não: Lisboa


Pedro Correia,

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Parecia que passara por ali uma manada de bisontes. Ou que me via teletransportado para um “armazém do povo” em Cuba ou na Venezuela. Mas não: são imagens de um hipermercado num bairro residencial em Lisboa, captadas ontem, por volta das 11.30. A desenfreada corrida às grandes superfícies, como se estivéssemos na iminência de um bombardeamento aéreo, deixou neste estado as caixas e prateleiras do Continente em Alvalade. 

A população que adere com generosidade a iniciativas altruístas, como o Banco Alimentar Contra a Fome, é a mesma que vem revelando o mais desprezível comportamento, mal surgiram os primeiros temores e rumores relacionados com o coronavírus. Açambarcando o mais possível, comprando aquilo de que não necessita, acumulando víveres e produtos de higiene que ficarão esquecidos em armários e prateleiras lá de casa, usando a pandemia como pretexto para o consumismo mais obsceno e execrável.

Passei por lá e vi: os maiores estragos foram feitos nas zonas dos enlatados, cereais, bebidas, detergentes, iogurtes, rações para animais. Mas também nos frescos, sobretudo ao nível das frutas e legumes – bens perecíveis, não fazendo o menor sentido que sejam açambarcados.

Esta gente está mesmo a pedir a imposição de limites máximos de aquisição de bens por via administrativa. Ou, no limite, implora por senhas de racionamento – como aconteceu em Portugal, quando a Europa quase inteira estava mergulhada no pesadelo da II Guerra Mundial e os circuitos de abastecimento haviam sido torpedeados.

Mereciam viver em Havana. Ou em Caracas.

90 comentários em “Havana? Caracas? Não: Lisboa”

  1. Pedro, obrigado pelas fotografias. É serviço público. Não tinha qualquer consciência de que isto estivesse assim tão mau.

  2. Caro Pedro, uma família de 4, em 2 semanas de isolamento, precisa duma reserva. Eu só não andei a “açambarcar” porque detesto hipermercados e ajuntamentos e faço compras para o mês (se pudesse fazia para o ano todo).
    Talvez as pessoas tenham decidido fazer um bom stock também para evitar muitas idas ao supermercado, o que até não é má idéia.

    1. não é má idéia

      Pelo contrário, é má ideia. Os manuais de poupança em economia doméstica dizem que se deve comprar comida muito frequentemente e para poucos dias de cada vez, caso contrário as pessoas ficam com as prateleiras atafulhadas, perdem a consciência do que nelas têm, e acabam por deixar comida estragar-se.

        1. Os proprietários destas grandes superfícies comerciais agradecem esses carrinhos atafulhados de víveres (que em parte não serão consumidos). Só eles e as farmácias facturam por estes dias.

    2. Impossível fazer uma alimentação saudável com produtos frescos sem ir no mínimo 2 vezes por semana abastecer de alimentos frescos que não duram mais do que 2 ou 3 dias. Esse pessoal a comer só enlantados vai ficar mais vulnerável ao vírus pois comendo só conservas não ingerem vitaminas suficientes para manter uma boa saúde e imunidade. Faz lembrar os marinheiros que iam embarcar em viagens longas sem levarem frescos com vitamina C e acabavam morrendo de escorbuto…

  3. Ontem o El Corte Inglés, local que eu, na minha ingenuidade, pensei estar mais protegido destes fenómenos pela especificidade do seu público-alvo, tinha prateleiras de enlatados, massas e cereais dizimadas (excepto alguns produtos mais caros, aos quais fiz um pirete mental). Uma funcionária, vendo no meu olhar uma mistura de espanto e diversão, confidenciou-me que as pessoas esvaziavam as prateleiras mais depressa do que os empregados as conseguiam preencher.

    Quem visse este nível de acumulação sem saber a causa poderia ser levado a pensar que a população estava prestes a barricar-se em casa para fugir ao apocalipse zombie.

    Em relação à aquisição desenfreada de legumes e frutas, pergunto-me se as pessoas pensarão que o consumo intensivo de tais produtos durante três ou quatro dias irá melhorar exponencialmente o seu sistema imunitário…

    1. O El Corte Inglês livre dos fenómenos do açambarcamento!? Realmente há pessoal que não vive neste mundo…ignorante é ignorante, independentemente da conta bancária ou do local de residência…ora aqui está um comentário de uma pessoa também ela ignorante!

        1. Não sei qual a necessidade de identificação quando comentamos algo…o moderador relativamente a comentários de gente burra é que se devia manifestar, mas pronto…tomamos o partido daqueles com quem nos identificamos mais…não estou com isto a chamar nomes a ninguém…a carapuça pode servir, mas aí…nada comigo. espero é que não seja cobarde e publique o meu comentário anónimo…democracia, conhece?

    1. As pessoas, se levam grandes reservas para uma extremidade do tubo digestivo, têm também que levar grandes reservas para a outra extremidade…

  4. Concordo com o açambarcamento. Se o gajo tem que morrer, que morra gordo e farto. E de preferência que se enfarte com aquelas coisas gordas e picantes. O gajo morre, mas o covid que o f#deu não terá escapadela possível.

  5. Porque será que está tudo calado em relação aos camionistas?
    Essa classe profissional é imune ao virus?
    Se forem para quarentena quem repoe os bens nas prateleiras?
    Lá dizia o outro: os animais são todos iguais, mas uns mais que os outros.

  6. Ja estive em havana e em caracas… Não vi nada disto. Uma pessoa que faz esta afirmação é tão ou mais ignorante, como as pessoas que foram a correr, comprar a comida. Toda

    1. Nem se dê ao trabalho.
      Aqui o moderador tem um fetiche por Havana e Caracas. Lá, a culpa é do regime, cá, a culpa é dos estupidos. Quando chegar à terra santa chamada EUA, desconfio que também haverá por lá muitos estúpidos.

  7. O portuga é um bicho estranho.
    Tenho uma colega que a semana passada vazou a farmácia e comprou porcarias suficientes para desinfectar-se durante uma década.
    Ontem lançou um espirro que borrifou a sala.
    E é isto.

  8. Eu tenho por costume “açambarcar” promoções, e por tal neste momento não tenho espaço para armazenar mais coisas. Mas pão, fruta, legumes, etc, aquilo que se deve comer fresco, isso temos que adquirir conforme a necessidade e, ou estamos às 8:30h à porta do supermercado para poder ter o que precisamos, ou a partir das 10 da manhã começa tudo a escassear. Desde domingo que é assim.
    Faz-me lembrar Moscovo em 1981.

  9. Por vezes, face à nossa estupefacção sobre o comportamento dos nossos semelhantes, fica a máxima – rir é o melhor remédio.

    Lembrei-me de uma piada. Como vão as pessoas arranjar espaço para arrumar estas provisões se o têm todo ocupado com depósitos de combustível?

    Pois.

  10. Se o Pedro Correia ouvisse mais a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas e fotografasse menos, de certeza não se ia admirar tanto.
    Tudo compras para suprir a necessidade do vizinho.
    Ou vai dizer-me que não tem vizinhança.

    1. Pelo contrário, não perco uma prelecção dessa esclarecida senhora. Que há poucas semanas garantia não haver grande probabilidade de um vírus desses chegar a Portugal.

          1. Eu já contribui para o bem-estar nacional, plantando na varanda um vaso de tomate e outro de pepinos
            A minha preocupação é se chegará para a vizinhança toda.
            Enfim: assim sejam todos cidadãos responsáveis e façam o mesmo, que com mais tomate menos pepino alguns hão-de escapar.
            Sem vizinhança é que não. Antes a morte que tal sorte.

            Um tomate para a vizinha
            Um outro para a menina
            Um pepino para a tia
            Digam lá se há horta mais engraçadinha.

  11. Aposto que um ex-colega meu era um desses que leva a família toda ao super cada um com um carrinho e atafulha aquela merda toda até ao cimo até as coisas começarem a escorregar umas nas outras — nunca vi tanta ganância, tanto medo.

    Também é preciso fundo de maneio, diga-se. Só mesmo um funcionário público é que consegue fazer uma coisa destas. Eu não conseguia encher meio carro com atum e esparguete do Lidl mesmo que quisesse.

  12. Com o fecho das escolas será de esperar um aumento do abastecimento das famílias via supermercado em vez de via cantinas das escolas, para os pais que passam a ter mais refeições em casa também se passa o mesmo. Isto só explica uma pequena parte que se está a passar. A outra faz parte da psicologia da espécie humana apurada desta forma por centenas de milhar de anos de escassez. Na maior parte do mundo estão a ocorrer açambarcamentos como referem aqui: http://www.bbc.com/worklife/article/20200304-coronavirus-covid-19-update-why-people-are-stockpiling?xtor=ES-213-[BBC%20Features%20Newsletter]-2020March13-[Worklife%7c+Button] e aqui (TESCO limita número de items):
    https://www.bbc.com/news/business-51790375

  13. Sugestão para quem de direito: programar as máquinas para só passar um x número de items do mesmo produto. Por exemplo, uma pessoa leva 3 frascos de álcool mas a máquina só aceita 2 items daquele produto naquela compra. O empregado só tem de dizer que aquele já não passa. Voilá. A coisa assim normaliza-se rapidamente sem ser preciso fazer senhas de racionamento e coisas dessas que dão uma impressão de desgraça ainda maior.

    1. V, não o tinha como alguém que tivesse ideias comunas mas afinal enganei-me.

      Como o Pedro Correia nos descreve pelas fotos a natureza humana permanece igual logo ainda há esperança.

      WW

      1. Depois de a directora-geral da Saúde nos ter aconselhado a recorrer “à horta de um amigo”, venho perguntar-lhe se aqui no DELITO podemos recorrer à sua horta, WW.
        Caso contrário lá teremos de incomodar o comentador Lavoura.

      2. Se eu fosse de esquerda e paralítico quase de certeza seria comunista (é dessa esfera que vem a minha família, aliás) e se calhar muitos dos que votam agora nas esquerdas fazem menos do que eu já fiz e continuarei a fazer para o bem comum. Mas o que não serei nunca é esquerdista.

  14. Precavido estou eu há muito tempo… comprei alpista – faz as vezes de arroz – e numa série de vasos plantei esparguete… Bom fim-de-semana.

  15. Em Havana? Mas em Havana já há supermercados !?
    Vou rectificar a exclamação e dar uma ajuda ao Pedro Correia que queria dizer que em Havana e em Caracas as pessoas também estão a açambarcar
    produtos nos supermercados por causa do coronavirus. Quem é amigo.
    Ou então tem de incluir a Correia do Norte para ser ‘não tenho outra ideia’.
    Tinha tantas imagens por essa Europa fora e foi logo arranjar comparações estafadas não relacionadas com o coronavirus

      1. Ena ena. Deixou de ser singular.
        Até agora o mais conhecido, que eu soubesse, era o Bocage.
        Subiu na hierarquia, hem? Pedro Correia.

  16. Pedro Gomes
    Tenho vergonha de pertencer a estes mentecaptos.
    Reparem se alguém se protege das pegas, altamente contaminadas, dos cestos de compras (de rodinhas), e dos locais onde toda a gente agarra para conduzir os carros do supermercado.
    Quantos se observam, com uma luva na mão direita (…como eu faço e mal saio de casa) para teclar códigos, para abrir o fecho da porta do prédio/da caixa do correio?
    Prevenção contra o coronavírus: ver, durante horas a fio, TODOS os telejornais, desde muito cedo, comprar 10 garrafas de óleo e 6 garrafões de água (como ontem, ao meu lado, um idoso, ar triunfante, levava no carro), um saco de batatas, 20 pacotes de leite, outros tantos de papel higiénico. E, para se prepararem para a quarentena (como fizeram para a barriga) NÃO comprem nenhum LIVRO, podem estar infetados c/ o vírus da IGNORÂCIA!

  17. claro que em termos do politicamente correto, todos em coro criticam o açambarcamento.

    Ainda nem me abasteci. Como acabei de escrever no blog ao lado, tenho de acreditar que a situaçao nao vai piorar assim tanto , e portanto nao vou estar no futuro proximo a mendigar uns feijoes.

    Espero que hajam alguns a explicarem e portanto a defenderem do fenomeno, .

  18. Não conseguiu evitar falar nos seus fetiches.

    Só para informação, em Dublin aconteceu algo semelhante: prateleiras de supermercado vazias. Não é nenhuma característica do povo português, é inerente ao pânico humano.

    Vejo que coloca a hipótese de controlo estatal sobre decisões individuais. Deve ser para poder bradar qu Portugal se tornou numa Venezuela ou numa Cuba. Só pode…

      1. Ahahahaha, paladino, boa tentativa.

        Quando imagens semelhantes vêm de Cuba ou Venezuela, aí meu deus que é uma pobreza, escassez de alimentos e o diabo a nove, tudo porque culpa dos regimes maus que por lá há. Quando as mesmas imagens vêm de paragens mais simpáticas, a estupidez é das pessoas.
        Talvez a origem seja a mesma, do pânico das pessoas.
        Confesse lá, a intenção deste post era escrever as palavras-fetiche, confesse lá.

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