Um crime é sempre um crime


Pedro Correia,

 

Tiago Mota Saraiva limita-se a chamar "erros" aos crimes do estalinismo. Nada mais que isto: erros. Um termo que podemos usar ao referimo-nos a uma simples operação aritmética. Espantoso: mais de meio século após estes crimes terem sido denunciados pelo próprio secretário-geral do PCUS, Nikita Khrutchov, numa sessão à porta fechada do XX congresso do partido soviético, ainda há quem ande à cata do eufemismo mais à mão, numa desesperada tentativa de apagar as evidências da História. Posições destas representam o equivalente moral às teses negacionistas, capazes de jurar que o Holocausto nunca existiu.

Lamento contrariar o Tiago, mas nenhuma sociedade justa se constrói sobre um cortejo de crimes. Um crime, por ser praticado em nome da "esquerda", não deixa de ser um crime. E jamais alguém deve considerá-lo um mero erro, sob pena de se desqualificar em termos intelectuais e éticos. Um crime é sempre um crime. Ponto final.

 

Ler também

– Alguns erros, claro. Do Tiago Moreira Ramalho, no Corta-Fitas.

22 comentários em “Um crime é sempre um crime”

  1. .. operação de cosmética.
    E sim Pedro, um crime será sempre um crime e quando começarmos a arranjar desculpas para o justificar passaremos a pertencer à mesma categoria: a de criminosos.

    1. Nem mais, Once. Quando relativizamos um crime, seja em nome do que for, acabamos a relativizar um milhão de crimes. E perdemos autoridade moral para condenar seja que crime for.

  2. Perfeitamente de acordo.
    Podemos agora falar dos erros/crimes do capitalismo? É que se estamos condenados a edificar uma sociedade que se quer justa em cima disso e já que “não há alternativa”, convém ser igualmente crítico.

    1. Podemos – e devemos – falar de todos os crimes. Podemos – e devemos – condenar todos os crimes. Relativizar os crimes do estalinismo é o primeiro passo para não condenarmos crime nenhum.

      1. Mas a questão, Caro Pedro, é que se deitamos sumariamente para o caixote do lixo da história todas a ideias que sustentaram ou foram sustentadas por crimes, sobra muito pouco.

        Lembro por exemplo a recente polémica sobre a igreja/religião. A palavra de ordem era “não interessam os crimes, olhem para o que se fez de bom”. Agora que o assunto é comunismo, muda-se o critério? Porquê?

        1. Nenhum ‘amanhã que canta’ justifica crime de espécie alguma, meu caro. Matar hoje para construirmos uma sociedade perfeita amanhã, sobre um monte de cadáveres, é inaceitável. Isto vale para todas as ideologias. Mas não divaguemos: era mesmo do estalinismo que eu estava a falar.

  3. Bom dia Pedro,
    Realmente estes eufemismos dão cabo de qualquer argumentação.
    E também acho curioso no texto do Tiago M Saraiva a referência às experiências. Pois vão fazendo experiências, mas o curioso é que ignoram os resultados ( além da URSS, também houve a China, Cuba, Camboja, Jugoslávia, etc ). Por isso vamos continuando a experimentar.
    Se isso exigir mais uns crimes…avancemos.
    Haja paciência
    Cumprimentos

    1. É isso mesmo, António. Tantos anos depois, ainda há quem feche os olhos à mais elementar realidade. Em nome das ‘conquistas da História’, da construção de uma ‘sociedade mais justa’ e sei lá que mais, cometeram-se alguns dos maiores crimes do século XX. Falam e agem como se os milhões de mortos do comunismo não pudessem falar. Mas falam, por mais que alguns façam orelhas moucas.
      Abraço.

  4. Não há volta a dar…

    Os crimes estalinistas
    mataram muitos inocentes,
    contudo, há iluministas
    de argumentos displicentes.

    Com tantos eufemismos
    dissimulando a realidade
    acicatam-se endemismos
    carregados de boçalidade.

  5. Excelente frase:
    “ainda há quem ande à cata do eufemismo mais à mão, numa desesperada tentativa de apagar as evidências da História”.
    Parabéns pelo post.

    1. Choca-me sempre quando vejo que alguns dos mais repugnantes crimes da história contemporânea são justificados em nome seja do que for. Nenhum deles tem justificação.
      Obrigado pelas suas palavras, Odete.

  6. Caro Pedro,

    “Um crime, por ser praticado em nome da “esquerda”, não deixa de ser um crime.” Na mouche! Muitas vezes uso e abuso deste argumento perante pessoas de esquerda que só veêm ditaduras na extrema-direita, eu vejo nas duas! Comunismo e Fascismo são 2 ditaduras que exterminaram milhoes e milhes de pessoas. Tanto uma como a outra têm provas dadas em diferentes países daquilo que acarreta a sua aplicação.

    Excelente texto! Fiz questão de colocar o texto no meu blogue, mas claro que, com as referências devidas!

    Cumprimentos

  7. concordo perfeitamente com o que aqui foi dito: crimes sao crimes. Mas a nossa democracia ocidental nao está isenta deles, muito menos os regimes de mercado livre.

    É claro que os nossos crimes sao justificaveis, sao pela democracia, como no iraque; sao pela liberdade, em guantanamo; foi a necessidade de terminar a guerra que ja estava terminada em 1945, matando de forma gratuita, selvagem e indiscriminada 240 000 cidadaos japoneses.

    Acho que na nossa Europa, nos consolamos todos a falar de danos colaterais, baixas nao calculadas, erros estratégicos, falta de visibilidade de campos,…ora essa, tudo eufemismos para justificarmos os nossos crimes ou nao?

    1. Quando se fala em estalinismo há sempre quem vire rapidamente a agulha, mudando de assunto. Percebo que é um tema ainda hoje incómodo, tal como o nazismo. Mais um motivo para se falar dele.

      1. completamente de acordo. O stalinismo é um periodo negro da historia contemporânea, muitos milhares de crimes foram cometidos em nome de um ideal. nao percebo é porque existe esta obstinaçao em nao encarar os nossos crimes em nome da democracia. pergunto-lhe, caro Pedro, condena com a mesma veemencia que condena os crimes stalinistas, os crimes da democracia que referi acima? E essa condenaçao é assumida pelos partidos portugueses?

        E já agora, reparei que coloca ao mesmo nivel os regimes fascistas e comunistas, coloca tambem as democracias ocidentais com o maccartismo, operaçao condor e outras, ou países como os Emiratos Arabes, onde a repressao sobre os trabalhadores e sobre as mulheres e os homossexuais sao brutais a esse nivel? e Israel, também considera que é um país (ironicamente, se nao fosse demasiado triste) genocida, onde soldados denunciaram que tinham instruçoes especificas para matar civis incluindo crianças?

        E a ondenaçao desses crimes, muito mais recentes, actuais e infelizmente, actuantes. Onde fica a critica para que deixem de acontecer?

        1. Caro Rafael, os crimes cometidos pelos sistemas totalitários – organizados sistematicamente pelo Estado, que se confunde com o partido único – não podem ser comparados com os crimes ocorridos em sistemas democráticos. Essa pergunta que aqui deixa faz pouco sentido. Seria o mesmo que eu devolver-lhe a questão perguntando-lhe se condena com a mesma veemência os crimes cometidos pelas democracias e os crimes cometidos pela Alemanha nazi. Ou se condena no mesmo plano os crimes ocorridos no Portugal salazarista ou no Portugal democrático. Simplesmente não faz sentido. Porquê? Porque não há equivalência ética, moral ou política entre a democracia e o totalitarismo. O Estado totalitário é um Estado criminoso por natureza.

          1. Caro Pedro,

            faço uma clara distinçao entre crimes que constituam genocidio com crimes politicos e/ou militares (mesmo de estado). Creio, nao tenho a certeza, mas o TPI faz a mesma distinçao. Quanto às comparaçoes entre nazismo e comunismo e crimes das potências ocidentais, creio que deixo clara a minha posiçao.

            Quanto aos crimes dos regimes democráticos, nao vejo porque hao de ser atenuados pela natureza dos regimes que as suportam. A América dos anos 50 a 70 perseguiu e reprimiu brutalmente organizaçoes de esquerda e homossexuais, sem contar com o apartheid que existia no sul. devemos considerar esses crimes menos graves por ser uma democracia?

            Em hiroshima e nagasaki, 240 000 pessoas foram mortas em poucas horas apenas porque os EUA queriam enviar uma mensagem à URSS. 240 000 seres humanos. já reparou, 240 000, em horas.

            se pudesse o que diria às familias, amigos e conhecidos desses 240 000 homens, mulheres e crianças que foram brutalmente assassinados, muitos deles que sofreram mortes dolorosas ao longo de vários dias pelos efeitos da radiaçao. “Sinto muito, nós somos democratas”? ou “Foi pelo fim da guerra, lamento que tenhamos tido que matar 240.000 pessoas”.

            Como o Pedro disse e muito bem: “Um crime é sempre um crime. Ponto final.”

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