Intercâmbio colonial


Paulo Sousa,

Já aqui falei da simetria do Livre, agora da Joacine, e do Chega.

Perante a inação dos partidos moderados, que têm responsabilidades de moderação, estes dois partidos comportam-se como adolescentes. Regularmente geram cabeçalhos, aspergindo o espaço público com fricções que agitam o instinto gregário da natureza humana e a que não reagimos uniformemente. 

Pela ocupação do espaço público, Joacine e Ventura acreditam que terão benefícios de curto prazo, o que até pode ser verdade mas, como já aqui defendi, dificilmente os dois serão beneficiados na mesma proporção.

A relação de Portugal com os territórios que, mal e bem, colonizou, foi sempre biunívoca. Muito se trouxe mas também muito se deu e muito de nós lá ficou.

É uma repetição habitual dizer-se, e é um facto, que se não fossem os portugueses teriam sido outros a ocupar aqueles espaços. Uns geriram melhor que nós e outros muito pior. Nisto, como em quase tudo na nossa história, raramente fomos excelentes, e poucas vezes fomos péssimos.

Nesses territórios, agora países, deixámos um legado que será certamente preservado e refiro-me, por exemplo, às respectivas fronteiras. Milhares de portugueses daqui partiram, por lá viveram, combateram e morreram, para ajudar a definir os traçados dos territórios que agora são o chão pátrio destes países com que estaremos sempre irmanados. Pontualmente, os territórios poderão não coincidir com as divisões étnico-geográficas que facilitariam a criação de uma identidade própria imediata de um estado-nação nos moldes actuais, mas tendo sido a respectiva independência posterior à definição da unidade geográfica, podemos legitimamente assumir este legado.

Além disso, a língua de Camões é uma ferramenta de comunicação válida e efectiva no mundo global, com a espessura técnica e científica que nenhum dialecto regional ou tribal poderia proporcionar. Também pela língua que partilhamos, sempre estaremos irmanados.

Especificamente sobre devolução das obras de arte gostaria de questionar Joacine se acha que a arquitectura, enquanto abordagem artística sobre as circunstâncias, pode ser incluída na sua proposta.

Nesse sentido proponho-me a criar aqui uma pequena rúbrica com sugestões para a troca que Joacine sugere.

ponte tete.png

Ponte pensil sobre o Rio Tete – Moçambique

ponte tete hj.png

Ponte Samora Machel sobre o Rio Tete – Moçambique

Obra assinada pelo Prof. Edgar Cardoso

15 comentários em “Intercâmbio colonial”

  1. J. Katar está a agir como se fosse deputada do parlamento da Guiné Bissau. Isso até poderá vir a acontecer. Porque não?.
    Poderá até vir a agir como titular de um orgão de soberania de aquele país, responsável por património roubado e que forçosamente discriminará.
    Para já nem deputada de um partido português, o Livre, é.
    É sim, apenas, a representante de si mesma(!), uma má solução para um problema que uma Lei Eleitoral cria.

    1. Joacine está a seguir o programa do Livre com que foi eleita. O que defende serve os seus objectivos eleitorais e alimenta a ideia que ela tem de si própria, ou seja o seu ego.
      O propósito do post não é debater o sistema eleitoral, mas apenas salientar a troca, de coisas boas e más, entre os nossos antepassados e os povos com que se cruzaram durante a aventura ultramarina.

  2. Julgo que há pessoas – e essas duas que refere são bom exemplo – que não estão preparadas para a casa da democracia. Por ali existem e vagueiam outros que tais, mas silenciam e não damos por eles. Esses dois são como crianças a quem se dá um doce inesperado, têm que pular e dar nas vistas para que todos saibam, estou aqui e agora vão ver do que sou capaz. Ok. Espero eu que lhes passe, não há paciência para caloiros de uma vida inteira.

    1. Pois, mas parece que o regime vai ter de aprender a lidar com adolescentes na AR. Os ditos “adultos” sofrem de um elitismo cinzento desligado da linguagem e da vivência do público. Corremos o risco de os eleitores, olhando para as muito esbatidas e gastas cores frias das opções disponíveis, possam preferir os espalhafatosos e lunáticos teenagers.
      Lembrando Vegas, apetece dizer que o que acontece na AR fica na AR, mas isso não acontecerá.

  3. Hoje os partidos moderados são PS/PCP/BE/PSD/PAN, porque se substituíram aos bons alunos transformando-se em bem comportados perante o comité de Bruxelas.

    O Chega terá possibilidade de crescer, se reproduzir internamente a imagem dos 30 aos 120 anos, é esta a sua faixa de crescimento.

    Joacine foi a imagem de um radicalismo caucasiano que a olhou como uma processo de capitalização de um “mercado” a conquistar. Mas não é possível fazer uma revolução negra em continente de brancos.
    Porém ela tem uma ambição maior que sua própria dimensão, e não lhe restará alternativa que não a de ser absorvida pelos citados moderados ou, então, transformar-se na mulher negra que em terras caucasianas pretende lutar por todos quantos são desfavorecidos: brancos, negros e mestiços. O que é de todo improvável, mas não impossível.

    Joacine talvez pensasse que seria possível reproduzir aqui um Martin Luther King, Mondale, Mandela, Ghandi…, mas a realidade é outra e o local também. Errou ao juntar-se a uma fantasia caucasiana que busca no presente aprisionar um passado e transformá-lo em realidade. Seria sempre viver na fantasia.

    Mas o Livre encontrou maneira de se manter livre de Joacine.

      1. Por favor, onde se lê Mondale, leia-se Mondelane.

        É radical, mas é verdade. Bruxelas deixou-os a todos a fazer o discurso virtuoso do défice, sem crescimento económico e com esmagamento das despesas intermédias.
        Significa isto que qualquer deles, com excepção de Rio no PSD, por motivos de sua postura económica, e o PAN, que cresceu, está a lutar para manter a clientela e recuperar o êxodo verificado na última votação.

  4. A África deve mais a Portugal do que Portugal a África! Primeiro que tudo paramos a expansão islâmica que desde os finais do sex XX da sinais vida… Depois tiramos a alimentação de carne humana da gastronomia deles e oferecemos uma hiper avançada… Até Nelson Mandela se tornou moderado após observar o que aconteceu nas antigas regiões ultramarinas após a saída dos portugueses… Depois da mortandade em África após a saída dos portugueses ainda tivemos que ir para lá promover a paz, senão ainda andavam para lá a matarem se uns aos outros… África deve mais a Portugal do que Portugal aos Africanos… Agora querem denegrir a imagem de Portugal com um museu da escravatura… Ingleses, Franceses, Judeus, Holandeses,Mohameds, Belgas praticaram na, e os portugueses é que vão ficar com as culpas de toda a escravatura que existiu desde séculos no planeta Terra… Lisboa quer construir uma Mesquita, um Museu a condenar os portugueses e um museu a venerar os Judeus… Está é a Lisboa do séc. XXI… Não admira que tenham expulso as ancestrais comunidades portuguesas do centro de Lisboa

    1. Quem deve mais a quem é dúvida contabilística que nunca será esclarecida pois envolve variáveis intangíveis. A maneira de lidar com este processo, que tem muitos aspectos delicados, passa por olhar para o futuro e não para o passado, especialmente com os olhos de hoje. É um exercício de torcicolo permanente que não pode trazer nada de bom.
      Temos de assumir a história comum, mas olhando para um futuro melhor.

  5. No nosso sistema todos os eleitos têm lugar, incluindo aqueles que alguém considere não estarem preparados para a Democracia.
    É óbvio que Joacine tem uma concepção muito diferente da minha do que é a democracia e o acto mais grave, deste ponto de vista, foi quando chamou a GNR para a defender dos jornalistas. Se me fosse dado votar nos órgãos do partido que a fez eleger, só por isso eu votaria que lhe fosse retirada a confiança política.
    Provavelmente vai continuar como deputada uma vez que as regras previamente estabelecidas o permitem. Note-se que Rui Tavares fez uma coisa parecida quando saiu do grupo do Bloco de Esquerda como eurodeputado. Houve quem votasse nele porque ele era candidato apresentado pelo Bloco e que se não o fosse não votaria nele. Do ponto de vista ético a atitude dele e de Joacine parecem-me idênticas.

  6. Se os meus caixotes não tivessem sido “desviados”durante o meu Retorno, no 25 de Abril, já tinha devolvido a Arte Indígena que vinha nos meus caixotes.

    Ficava com a consciência mais tranquila.

    Retornado

    1. Dos relatos da época fica a sensação que não seria apenas arte indígena o que circulava nesses caixotes.
      Já passou tempo suficiente para que esse tempo e essas vivências, que fazem parte da nossa história e da nossa memória colectiva, passem a papel ou a tela de cinema. Se isso não acontecer será como se nunca tivesse acontecido o que seria uma perda para todos.

    2. “Se os meus caixotes não tivessem sido “desviados”durante o meu Retorno, ” E se não tivesse ido para lá, nunca teria retornado.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *