Solidários com os milionários


Pedro Correia,

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Pode ter sido distracção minha, mas até ao momento ainda não ouvi uma palavra oriunda do PCP sobre o que está a ocorrer em Angola – nomeadamente, as mais recentes notícias acerca das «lucros fabulosos» (expressão muito cara a Jerónimo de Sousa) acumulados pela filha do antigo Presidente da República que ali se perpetuou durante quatro décadas no poder – e foi amealhando também uns cobres muito razoáveis, ao que rezam as crónicas.

A repugnância dos comunistas perante fortunas pessoais – neste caso em contraste com as situações de extrema pobreza que afligem grande parte da população angolana – dissolve-se quando os milionários pertencem ao MPLA, “partido irmão” do PCP?

Não haverá, nas fileiras comunistas, vozes críticas capazes de se insurgirem contra esta chocante conivência? Pode ser que existam, mas andam emudecidas. Porque daquelas bandas nem um sussurro se tem escutado.

 

A verdade é que, ao longo de todos estes anos, o PCP alinhou sempre com José Eduardo dos Santos, a sua próspera família e o partido que tem gerido Angola em sistema monopolista. Com indecorosas atitudes de subserviência perante o poder angolano, agora deposto. Basta lembrar a censura ao livro Diário de um Preso Político Angolano, de Luaty Beirão, na Festa do Avante! de 2018, e o chumbo comunista de um voto parlamentar contra as penas de prisão aplicadas a 17 activistas angolanos, em 31 de Março de 2016 – aqui em jubilosa parceria com o PSD e o CDS.

Sem um reparo que fosse, sem o mais ligeiro tremor de perturbação. Pelo contrário, o exercício da crítica, por parte dos comunistas portugueses, visou sempre aqueles que ousavam contestar a autocracia angolana, inserindo-os em maquiavélicas conspirações orquestradas por Washington – numa patética recriação da linguagem soviética dos tempos da Guerra Fria.

 

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Aqui ficam alguns exemplos, com sublinhados meus:

 

Avante!, 22 de Outubro de 2015:

«Portugal não deve ser instrumento e servir de plataforma para a promoção da ingerência contra um Estado soberano, designadamente ao serviço daqueles que, envolvendo e mobilizando cidadãos angolanos partindo de reais problemas, contradições, fenómenos negativos e legítimos anseios, de facto agem com o intuito de os instrumentalizar para desestabilizar e concretizar a denominada «transição» ou «mudança» de regime em Angola. (…) Existem interesses externos e sectores da sociedade angolana que consideram criadas as condições e chegado o momento de fomentar a desestabilização neste país. (…) Não seremos instrumento para fazer de Angola uma nova Líbia com o seu rasto de destruição, sofrimento, devastação e morte.»

 

Declaração de voto parlamentar, 31 de Março de 2016:

«O PCP não acompanha campanhas que, procurando envolver cidadãos angolanos em nome de uma legítima intervenção cívica e política, visam efectivamente pôr em causa o normal funcionamento das instituições angolanas e desestabilizar de novo a República de Angola. (…) O PCP não acompanha os votos apresentados na sequência da decisão do Tribunal Provincial de Luanda, adoptada em 28 de Março, que condenou 17 cidadãos angolanos a penas de prisão pelos crimes que o Tribunal considerou como de actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores. (…) A rejeição do presente voto por parte do PCP emana da defesa da soberania da República de Angola e da objecção da tentativa de retirar do foro judicial uma questão que a ele compete esclarecer e levar até ao fim.»

 

Avante!, 7 de Abril de 2016:

«Usam ora Rafael Marques ora Luaty Beirão para se guindarem a educadores do povo angolano, ditando aos angolanos o que o seu país é e o que dele devem fazer. (…) Será que ninguém estranha que as posições assumidas por BE e PS nos votos que apresentaram sobre Angola sejam convergentes com aquelas que foram assumidas pelo Departamento de Estado norte-americano e pela União Europeia? (…) O PCP nunca será instrumento ao serviço das operações que querem fazer de Angola mais uma vítima, que queiram fazer de Angola uma nova Líbia.»

 

Avante!, 14 de Abril de 2016:

«Interesses externos e sectores da sociedade angolana que, não deixando de utilizar uma qualquer oportunidade para envolver cidadãos angolanos a partir de reais problemas e legítimos anseios, de facto agem com o intuito de os instrumentalizar para promover a desestabilização de Angola e, se possível, concretizar a sua tão almejada mudança de regime. (…) Os significativos e genuínos laços históricos e afectivos que unem o povo português ao povo angolano e Portugal a Angola não devem ser instrumentalizados por intensas e hipócritas campanhas mediáticas que, objectivamente, contribuem para “legitimar” obscuras operações contra Angola e os interesses e aspirações do seu povo.»

46 comentários em “Solidários com os milionários”

  1. Perante a gravidade dos factos, relevar a incoerência de um qualquer partido, é seguramente desviar o foco do essencial.

    João de Brito

    1. Se os factos têm gravidade, como você reconhece, e o “partido irmão”do MPLA em Portugal se cala perante eles, isso não é incoerência. É algo muito pior. É cumplicidade.

          1. Obrigado, Pedro. Talvez sexta feira retire a tala. Ontem foram quase 30 km na Serra do Soajo. Lá em cima, mas ainda com os pés no chão, entendemos que a maioria dos problemas não passam de bolinhas de sabão. Vida dura, a daquelas brandas. Gente que sendo da nossa terra, parece de outro mundo. Para o ano pergunte-me pelo pólipo vesical. Achado acidental, numa ecografia de rotina. Estou a ficar entradote. Abraço. E sobre o PCP, mais os angolanos, que se danem.

  2. O habitual facciosismo do Pedro Correia sempre em defesa dos “democratas liberais” que se untaram nos milhões vindos de Angola.
    Toda a gente sabia como eram (e são) conseguidos esses milhões lavados em Portugal em empresas de referência que estavam (e estão) atoladas em dividas pela brilhante acção dos seus gestores com o beneplácito e respectivas prebendas da classe política portuguesa por isso engavetaram o Rui Pinto assim que puderam.
    Espero que isto seja só o começo e que sejam divulgadas informações sobre outras situações graves que se passaram e passam em Portugal.

    ” Os portugueses podem confiar no BES ”
    ” O FMI já não vem “
    ” Os vistos gold são bons para a economia “
    ” A PT é uma empresa bem gerida “

    WW

    1. Aqui estrá o WWW sempre pronto a desculpal os camaradas, mas desta vez quem argumentos requentados.
      Mude de cassete, homem!

  3. Não entendo esta atitude do PCP. Até me parece mal. Eu que, no geral, até admiro a postura e o carisma de Jerónimo de Sousa . Será coisa relacionada a interesses do partido comunista chinês ou por aí?! O que me irritam estas posições e apoios aos camaradas sejam eles quem sejam e façam o que façam. Ora bolas.
    Jerónimo, desceste uns degraus

    1. Em relação a Angola, a “postura” do PCP é tudo menos recomendável. Começando pela vergonhosa censura ao livro do Luaty Beirão na Festa do Avante!
      Como se tivesse lepra. Ou peste.

  4. Comungo do seu pensamento.
    Políticos que nos amofinam sistematicamente com falta de seriedade num discurso muito hipócrita, agressivo e carregado de chavões.

    É assim desde Abril de 74.

    1. “É assim desde Abril de 74.”
      Antes é que era bom.
      Basta haver censura aos media para todos os problemas se resolverem.

  5. Acabou a era do MPLA russo. Agora vem a era MPLA chinês. (O diabo escolher o pior dos dois)
    Em Portugal o testemunho disso deixa de estar nas mãos do PCP para passar para as do BE.

  6. Seria caso para perguntar como é que o PCP quer ser levado a sério, mas basta ver a evolução dos seus resultados eleitorais para obter a resposta.
    A surpresa na tendência longa, se tal não uma contradição, é o tempo que tem sido necessário para que o último partido comunista europeu desapareça.

    1. O PCP está em competição acelerada com o PC grego nesse campeonato dos últimos. Mas o PC grego, tanto quanto se sabe, nunca foi financiado por Angola. Desvantagem competitiva.

      1. O PCP foi financiado por Angola?
        A Gomes sabe disso e não diz nada, ou está com medo dos marfins da UNITA.
        E o Pintinho de crista não pia.

  7. A culpa é nossa.

    Por preguiça mental e física deixámos medrar a esquerda e os comunistas , após o 25/11/75.

    Nessa data devimos ter ajustado contas com os comunistas.

    A.Vieira

      1. As “contas” da desgraça das lavagens cerebrais efectuadas pelos comissários a mando do PC estalinista da época, iguais á antiga União Nacional, que se estabeleceram nos organismos do Estado.

        Como sabe nunca um país comunista se tornou uma democracia ocidental

        A.Vieira

        1. Lavagens cerebrais no espaço de 17 meses?? 25-04-74 a 25-11-75
          É pá, não me lembro desse detergente.
          Lembro-me dos resultados eleitorais das primeiras eleições.
          O que é isso de uma democracia ocidental?
          A Índia conta pra ocidental?

  8. A Guerra do Ultramar foi o fim do Salazarismo, a Paz do Ultramar foi o fim do comunismo português…embora ficassen uns resquícios de uns e de outros.

  9. Adenda :

    https://www.google.com/amp/s/www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/amp/machete_pede_desculpas_a_angola_por_investigacoes_judiciais_mp_garante_autonomia

    https://www.google.com/amp/s/www.publico.pt/2012/01/24/portugal/noticia/rdp-acaba-com-espaco-de-opiniao-que-serviu-de-palco-a-criticas-duras-a-angola-1530455/amp

    https://www.google.com/amp/s/amp.expresso.pt/luanda-leaks/2020-01-25-CMS-Rui-Pena–Arnaut-garante-que-nunca-interveio-na-montagem-e-estruturacao-de-quaisquer-operacoes-ilegais

    “O ex-ministro português já tinha tecido esta semana, em entrevista à Rádio Renascença e ao Público, duras críticas à forma como este processo está a ser conduzido pela Justiça portuguesa, ao considerar que ainda «há setores em Portugal que olham para Angola – pior do que colonial – com uma visão neocolonial» e um deles parece ser a Justiça. «Angola é um país soberano, reconhecido por todos nós. A Justiça em Angola funciona, funciona com normalidade. Este processo é da Justiça angolana e é na Justiça angolana que devia ser tratado», disse, Miguel Relvas, sobre o “Irritante” caso de Manuel Vicente.

    Em termos teóricos, os comunistas portugueses têm posições execráveis. Em termos práticos há, no nosso país, piores, nomeadamente aqueles que depois de terem mamado da teta angolana, arrotam para o lado.

    Pedro…. Pedro….

  10. «Só falo de questões políticas, não de questões criminais.»
    Aparentemente, quando o PC escreve «as mais recentes notícias acerca das «lucros fabulosos» (expressão muito cara a Jerónimo de Sousa) acumulados pela filha do antigo Presidente da República que ali se perpetuou durante quatro décadas no poder – e foi amealhando também uns cobres muito razoáveis, ao que rezam as crónicas» está “apenas” a falar de «questões políticas»… o que lhe permite reclamar, com inocência suficiente para atirar a habitual lama hipócrita ao PCP esquecendo, por exemplo, que no 7.º Congresso do MPLA, em 2016, a representação “política” do PCP se limitou a um único membro, enquanto a do CDS-PP, PS e PSD, apresentaram-se aos pares.
    É evidente que o império “criminoso” dos “milionários” angolanos em Portugal – que é sobre isso que é construído este “post” do PC – nada tem a ver com as “políticas” dos governos portugueses mas sim o apoio “político” do PCP…

  11. Não se engane! Não é ser solidário com os milionários e sabe-o muito bem!
    Solidariedade com os vencedores do Kuito-Canavale,isso sim! Porque a luta foi de morte e assim continua. Os derrotados de então nunca desarmaram.Pelo menos na comunicação social ainda dão muito fogo. Mas é tarde, Inês é morta!
    Tem de se ser franco e leal. Assim a direita sabe para onde dirigir o seu fogo de salva! Quando os fogos forem reais já sabemos o que vai acontecer as pessoas não mudam com a idade, só refinam.

      1. O general Ochoa foi acusado,julgado,condenado e executado!
        Por,no campo de batalha, não ter cumprido as ordens do seu Comandante.
        Ordens que eram explorar o sucesso militar que aconteceu no Kuito Canavale.
        O que implicava perseguir e desbaratar as forças sul-africanas e da Unita já em retirada desorganizada.
        A exploração do sucesso é uma acção básica de qualquer táctica militar!
        As vidas que se teriam poupado se tal acção fosse cumprida conforme as regras e as ordens…
        As notícias da morte da Esquerda,de tão desejadas,já são realidade para os delirantes.

        1. Arnaldo Ochoa, o militar mais popular de Cuba à época, herói do Kuito-Canavale, com o peito coberto de medalhas em combate, foi assassinado pela ditadura castrista no regresso ao país natal.

          O ditador, receando ter ali um futuro rival a fazer-lhe sombra, mandou forjar um “processo judicial” contra o general, à revelia de qualquer elementar direito humano: Ochoa é levado a “julgamento” a 25 de Junho de 1989, com sentença de morte ditada de antemão. Dezoito dias depois(!) era conduzido ao pelotão de fuzilamento.
          Sem advogado, sem recurso, sem apelo – um herói nas mãos dos carrascos do comunismo cubano. Um dos casos mais macabros de perversão do poder judicial registados em todo o século XX.

          A “morte da Esquerda”, a que você alude, concretizou-se ao longo de cem anos nas execuções sumárias de milhões de Arnaldos Ochoas em todas as tiranias que ostentaram e ostentam o símbolo da foice e do martelo. Às ordens de Fidel Castro, Enver Hoxha, Pol Pot, Nicolae Ceausescu, Erich Honecker e os sucessivos Kims da monarquia vermelha da Coreia do Norte, entre outras figuras sinistras.

          Estaline, por exemplo, liquidou mais comunistas do que todos os ditadores de direita juntos. Isso sim, é a “morte da Esquerda”.

  12. O Pedro Correia é que topa este pessoal.
    Mas atenção, bater em quem está com parkinson, não fica bem na fotografia.

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