![sanfran-trolley-alcatraz-wharf_dp_700[1].jpg sanfran-trolley-alcatraz-wharf_dp_700[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2019/21591884_5PprR.jpeg)
Há uma atmosfera cintilante, tão parecida com a de Lisboa. E a luz coada. E a neblina, que cai quando menos se espera. E os carros eléctricos sulcando as curvas de Lombard Street. E os leões marinhos expostos aos raios do sol e ao olhar indiscreto dos turistas no Fisherman’s Wharf. E as frondosas alamedas verdes do parque Golden Gate, o maior pulmão verde da cidade. E a ponte. E os labirintos do bairro chinês. E a memória cinéfila ao espreitar de qualquer esquina, devolvendo-nos cenas míticas de alguns dos filmes das nossa vidas – Dark Passage, Vertigo, Bullitt, Dirty Harry, Basic Instinct. E os barcos que cruzam a baía, rumo a Sausalito. E o rochedo de Alcatraz, lá mais ao longe. E a eterna cantiga de Scott Mackenzie tocada algures em Union Square. E Haight-Ashbury, local mítico da geração das flores.
«Vimos estendida diante de nós a fabulosa cidade branca de São Francisco sobre as suas onze colinas míticas com o Pacífico azul e, ao largo, a sua muralha de nevoeiro marítimo a avançar, e fumo e a luz áurea do fim de tarde do tempo», escreveu Jack Kerouac nas páginas de On the Road. Com um deslumbramento que qualquer forasteiro sente ao visitar Frisco. À despedida, só apetecer trautear a canção de Tony Bennett. «I left my heart in San Francisco / High on a hill, it calls to me.

Sim, SanFran é uma cidade muito bonita. Mas segundo ouço dizer agora está com mais merda nas ruas que Lisboa (e é merda humana, não de cães), e com pessoas a viver em tendas espalhadas pelos passeios. A crise habitacional lá é ainda pior que cá.
Eu prefiro elaborar juízos com base no que vejo e oiço do que no “ouço dizer”.
Quando li o post pensei: uma das mais belas cidades por onde passei, mas que raio, pouco me lembro; duas horas depois já a memória se encheu de espaços. Estive lá no Verão de 98. Retenho o lago e os jardins do Fine Arts Museum, onde além dos artistas de rua, reparei pela primeira vez no hábito dos turistas recém-casados escolherem imponentes edifícios públicos para as fotografias de noivos e que o lilás é a cor de cerimónia em muitas partes do mundo (o que mais tarde confirmei no Oriente). Lembro da grande marina. E da minha imagem do país, aqui é tudo em ponto grande. Fiz a highway 1 de San Diego a San Francisco, e fiquei embasbacada com a extensão das bases militares. O mundo começou a ficar mais claro, com menos mistérios sobre a ordem natural do poder global. Em San Francisco derreti com os novos beetles. Em Portugal ou ainda não havia a nova versão, ou havia poucos; lá as ruas estavam apinhadas deles, muito coloridos, a contrastar com os imponentes carros americanos. Uma cidade luminosa e alegre. Vista da parte alta, distendida e relaxada, de gente descontraída e casas ao estilo europeu, mas mais desempoeiradas, e muito diferente do feio e frio centro de Los Angeles. Fiquei apaixonada. Lembro ainda da reservada Chinatown e dos fortune cookies. Recordo o avistar de Alcatraz divertida ao som dos muitos leões marinhos, mas sem Sean Connery. E do porto, do navio Queen Mary. E, claro, da Golden Gate, que dá excelentes fotografias. E das noites numa Van de sete lugares no meio de nada, ou num motel baratucho à entrada da cidade. Depois de passar por San Francisco nunca mais se ouve as músicas San Francisco e Hotel California da mesma forma. You can check out any time you like,/But you can never leave!’
Excelente comentário, Isabel. Gostei muito mais de São Francisco do que Los Angeles. Passar aquela ponte, que tanto nos recorda a de Lisboa, transmite-nos a sensação de sermos protagonistas dum filme. Foi ali que vi uma das mais engenhosas soluções para reduzirmos o tráfego para a capital: carros que transportem a partir de três pessoas só pagam um dólar de portagem; se nele forem uma ou duas, paga cinco.
Fui à praia, banhada pelo Pacífico – bastante mais inóspita do que as da nossa Costa do Sol: aí não há comparação possível. Em compensação, a “Cacilhas” deles é muito mais bonita: gostei imenso de atravessar a baía e aportar em Sausalito. Só não fui a Alcatraz: as filas de visitantes eram enormes e não me apeteceu esperar tanto tempo para conhecer o interior duma prisão desactivada, aliás bem conhecida também de tantos filmes.
Obrigada, Pedro. A ideia de pagar menos portagem por cada passageiro a mais é excelente sim. E São Francisco é de facto incomparavelmente mais bonita do que Los Angeles. Para dizer a verdade o centro de LA assustou-me; há ali uma frieza impessoal que não me agrada. Cheguei a visitar um tribunal e fiquei com a ideia de ali não é o sítio recomendável para praticar um crime. Coisa que também percebi quando fomos parados pela polícia numa das ruas por infringirmos um proibido virar à direita e pelo tom com que um dos polícias falou com a condutora. Mas percebo, ali corta-se a direito mesmo. À séria. Não estão para brincadeiras.
Fiz essa viagem para fugir à de fim de curso. Como ir para Varadero em excursão não era o meu ideal de destino, fui para a Marktest fazer entrevistas telefónicas durante ano e meio para pagar uma viagem de um mês e picos aos Estados Unidos.
Quanto ao sentirmo-nos como num filme, também experimentei a sensação mas de forma bem pífia. Éramos um grupo de 7, maioritariamente feminino. Como tínhamos poiso não muito longe das praias do Baywatch, resolvemos ir tirar uma fotografia com o salva-vidas in loco. Avistamos a vítima de calções vermelho no ponto de vigia e lá fomos, de máquina fotográfica em punho, pedir a alguém que registasse o nosso momento com um esbelto nadador salvador das praias de LA. Sucede que ao aproximarmo-nos demos com um desinteressante bexigoso com pança. E era ver-nos a implorar a quem tirava a fotografia para recuar e tirar de mais longe possível para não se notar muito. Mas ele esforçou-se na pose, fez peitaça e meteu a barriga para dentro. E tivemos o nosso momento Baywatch de trazer por casa. E o mar, convenhamos, tinha petróleo a mais. Ainda nadei um pedaço, mas não foi entusiasmante para estreia no Pacífico.
P.S.: acho que nunca vi um episódio do Baywatch. Quando muito uma cena ou outra enquanto mudava de canal.
Que relato tão sugestivo, Isabel.
)
(Eu, confesso, fui espectador regular dessa série por gostar muito de… praia
Adorava visitar.
Gostei muito – e encontrei nela muitas semelhanças com Lisboa. Aconteceu-me também com Istambul, outra belíssima cidade, de que fiquei a gostar para sempre.
Hoje é um desastre, aliás como a Califórnia…afogada em regulacionismo e esquerdismo.
https://www.city-journal.org/san-francis co-homelessness
“Failure to enforce basic standards of public behavior has made one of America’s great cities increasingly unlivable.”
“For the last three decades, San Francisco has conducted a real-life experiment in what happens when a society stops enforcing bourgeois norms of behavior. “
lucklucky
Alguns de vocês têm mesmo que meter a política em tudo.
Ainda não perceberam que existe vida para além da política.
Fico-me pela vertigem que era Kim Novak…
JSP
Sem ela, ‘Vertigo’ não seria – como é – o filme das vidas de tantos de nós. Em São Francisco andei a reconstituir o circuito de várias cenas dessa inesquecível longa-metragem de Alfred Hitchcock.
Infelizmente não vi a Kim Novak. Mas vi em palco o Jerry Lewis, para compensar. E a Suzanne Vega, que me autografou um CD.
São Francisco, tantas séries e tantos filmes.
E ,que dizer de Tales of the City de Armistead Maupin que
tanto prazer me deu . Mal acabava um livro lá ía eu a correr
comprar o seguinte. Um prazer simples e tão agradável.
Mas tudo tem um fim.
Bullitt yos
https://www.youtube.com/watch?v=FJZ-BHBK
Uma das mais fabulosas e trepidantes cenas de perseguição de automóveis da história do cinema, protagonizada pelo Mustang conduzido por Steve MacQueen, actor que chegou a ser piloto de competição.
Confesso que sou admirador incondicional e “coleccionador” destas cenas. Obrigado por tê-la trazido aqui (vê-se Alcatraz e espreita-se a ponte, lá ao longe).
É uma cidade absolutamente cinéfila. Como seria Lisboa: custa-me acreditar que tão poucos filmes sejam aqui rodados.
Há pouco tempo revi ‘Cidade Branca’, de Alain Tanner. Lisboa aparece-nos, vergonhosamente, como uma cidade feia e suja e decadente.
Gostei imenso desse filme que aliás foi premiado
no Festival de Cannes . Lisboa aparece-nos dessa forma ,
porque realmente era suja ( e continua) e decadente .
Feia nunca foi nem nunca será. 🤗
Não, não foi premiado no Festival de Cannes,
ganhou um César em Paris o que também tem um certo prestígio. 🙉
É verdade, Kika.
De facto Lisboa era uma cidade muito suja na década de 80, como este filme documenta. E um interessante romance da mesma década – ‘Hotel Lusitano’, de Rui Zink – testemunha também.
Não conheço o autor. Neste espaço passo a vida a ” tomar nota ”

Agradeço a dica
Aposto que gostará, Kika.
As drogas apareceram em força na Lisboa dos anos 80.
lucklucky
Assim foi. E de que maneira.