Fora da caixa (9)


Pedro Correia,

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«Estamos a viver num período de desaceleração geral de grande parte das economias europeias.»

António Costa, no debate com Rui Rio (ontem)

 

Rui Rio venceu esta noite o mais badalado debate da campanha eleitoral em curso. Teve a tarefa facilitada: em vez de lhe surgir um “animal feroz”, para usar uma expressão popularizada por um antigo líder do PS, saiu-lhe um bonzo propenso à beatitude. António Costa, embalado por todas as sondagens, entrou em estúdio com ar de quem passara parte da tarde a dormir uma boa sesta. Faltava-lhe ânimo para uma refrega. E, sobretudo, faltava-lhe motivação: Rio anda há quase dois anos a dizer que o seu principal desígnio estratégico é tirar o Bloco de Esquerda da área da governação e rubricar grandes pactos de regime com o PS. Música para os ouvidos socialistas.

O presidente do PSD seguramente não se encostou ao travesseiro durante a tarde. Na mais recôndita parcela do seu instinto político deve ter soado enfim uma campainha de alarme: se desperdiçasse o tempo de antena proporcionado por este debate – transmitido em simultâneo por três canais de televisão – podia desde já fazer as malas, de regresso definitivo ao suave aconchego doméstico do seu Alto Minho.

Decidiu, portanto, ser combativo. E fez bem: assim o que resta da campanha promete tornar-se menos desinteressante. Naquele seu estilo peculiar de quem parece sempre um recém-chegado à política, apesar de não lhe ser conhecida outra actividade relevante nos últimos 35 anos, Rio falou de coisas concretas. Dos novos salários dos magistrados, em chocante disparidade com os dos professores. Da queda sem precedentes do investimento estatal, sujeito às cativações do ministro Centeno. Da enorme degradação dos serviços públicos. Da carga fiscal que não cessa de aumentar. Da actual execução orçamental na saúde, inferior à registada nos duros anos da tróica. Dos 330 mil portugueses que abandonaram o País nesta legislatura, num silencioso êxodo que noutros tempos daria notícias de abertura nos telejornais.

Bastou-lhe isto para sobrepor-se num debate ao qual chegou com expectativas pouco acima do zero, dadas as suas prestações anteriores e o seu insólito hábito de gastar energias a combater jornalistas e empresas de sondagens em vez de dar luta aos rivais políticos.

O bonzo, à sua frente, parecia surpreendido com o assomo de protagonismo de quem até aí só lhe merecera um aceno de condescendência, não isento de comiseração. A dado passo, terá até sentido um vago impulso de se sujeitar ao confronto verbal. Mas a inércia levou a melhor. Picou o ponto, debitou os chavões da praxe («devolvemos rendimentos», «temos contas certas», etc.), foi advertindo a massa ignara para a «desaceleração» que está prestes a chegar – quase como se falasse no diabo – e deu-se por satisfeito com a sofrível prestação. «Poucochinho», diria ele se estivéssemos em 2014. Falando não de si próprio, mas de outro.

Esta tarde – sou capaz de apostar – volta a dormir uma boa sesta outra vez.

35 comentários em “Fora da caixa (9)”

  1. A maior desvantagem de Rui Rio não é o legado da governação socialista, é a cumplicidade dos media com António Costa.

      1. Claro, todo o mundo sabe que a CS só recebe de um lado toda a informação e passa para o outro lado toda, toda, toda essa informação, igualzinha, igualzinha, igualzinha!

        1. Catarina Martins não diria melhor quando o “caso Robles” preencheu as manchetes na imprensa e nos telediários:
          «A notícia foi mal contada.»
          https://sol.sapo.pt/artigo/620558/caso-robles-a-noticia-foi-mal-contada-diz-catarina-martins

          Na hora do aperto, sobra sempre para os jornalistas. Como os monarcas do tempo antigo faziam com os portadores de más novas. Alguns perdiam (literalmente) a cabeça.
          Freud explica tal fenómeno: essa reacção é originada por um impulso natural destinado a rejeitar tudo quanto seja perturbador ou insuportável.
          Como escreveu o sábio Sófocles na sua ‘Antígona’, «os homens poderosos não gostam de que se lhes diga a verdade».

      2. Rui Rio leva “porrada” de dois lados: da esquerda e dos “órfãos” do Relvas e do Passos. Ontem na SIC Notícias foi cómico o ar de raiva do David Dinis e da Marina Costa Lobo por José Gomes Ferreira não ter seguido a cartilha do resto do painel, e ter afirmado que o líder do PSD venceu o debate. A Graça Franco, outra “viúva”, até viu golos na própria baliza do ex-presidente da Câmara do Porto.

        O que os portugueses viram foi uma narrativa clara, concisa e despretensiosa, que posteriormente passou muito bem nos resumos do debate. Hoje, nos noticiários da hora do almoço, os portugueses viram o líder do PSD a desmontar em dois minutos a propaganda socialista do “milagre económico” português.

        É lidar.

          1. Não sou “expert”, mas pelo menos não votei no Varandas. Bolas, eu tinha vergonha…

      3. “Mensageiro” !?

        Desde quando algum alguém vai para jornalista para dar notícias?

        Um jornalista é alguém que quer ser padre, quer fazer proselitismo, apregoar a sua moral . Um religioso da religião política.

        E em Portugal é pior não há varias religiões há só uma: Marxismo

        Se os incêndios que mataram mais de uma centena de pessoas tivessem ocorrido com um Governo PSD-CDS os jornais teriam encarregado de forçar a demissão do Governo. Até teríamos vistos fotos de pessoas carbonizadas para o efeito.

        Os jornalistas até acabaram com a Democracia em Portugal, hoje impediriam um governo eleito com um programa de Direita de o implementar. Seriam protestos na rua, violência, perseguições até em casa de ministros, ninguém desse governo poderia comer num restaurante com a família sem ser incomodado.

        É isto a “democracia” hoje em Portugal.

        lucklucky

  2. Mas quem é que tem pachorra para assistir a debates que não resolvem nada? Um milhão, dois milhões, o povo que vota na vê debates e o Costa já ganhou e não vai ser por poucochinho…

  3. Folgo em saber que Rui Rio esteve melhor.

    Mas estou consigo, Pedro: Costa “volta a dormir uma boa sesta outra vez”. Para quê ralar-se?
    Recordo: no debate decisivo entre Passos e Costa, Passos ganhou claramente; de seguida, ganhou as eleições e depois… foi o que se viu: deu geringonça.

    1. Nesse debate, Passos ganhou em toda a linha. Prenunciando a vitória nas urnas.
      A vitória de Rio foi muito menos categórica. E deve-se, em larga medida, ao confronto entre as expectativas e o resultado.

      Costa pode dormir a sesta porque sabe que o próximo grupo parlamentar do PSD, no essencial, alinhará com ele. E em certas matérias Rio até o ultrapassa em posições nada consentâneas com o historial do partido laranja.
      Dois exemplos: agora já admite retomar a regionalização (a que prefere chamar “desconcentração”) e o comboio de alta velocidade (a que chama “comboio de velocidade acelerada” ou eufemismo equivalente).

      Isto já sem falar da indignação de Rio perante a relação alegadamente muito próxima entre o Ministério Público e os órgãos de informação que produz “condenações nas primeiras páginas dos jornais” – ideia que José Sócrates e Ricardo Salgado certamente aplaudiram no remanso dos respectivos lares.

      1. Se o debate tivesse sido enquadrado para esclarecer eleitores sobre quem seria melhor primeiro-ministro, não restariam dúvidas sobre a resposta.

        Mas Rio, infelizmente, falhou na consolidação e união de apoios dentro do PSD, e aceita a “narrativa”, muito endossada pela dominante xuxa prensa da Capital, que o problema não foi a Troika ou troika, for ir “além da troika”.

        Jorg

        1. Rio tem um problema de base: nunca parece um dirigente de uma equipa sólida, coesa, motivada e mobilizada. Parece quase sempre um homem só.
          Estas percepções contam muito mais do que possamos pensar no momento da decisão do voto.

          1. Soares, Cavaco, e mesmo Marcelo sempre se apresentaram solitários.
            A diferença com Rio é que este perdeu demasiado tempo e energias a hostilizar gente válida no PSD e pessoas fora das lides partidárias que enventualmente poderiam sustentar tecnica e politicamente a sua candidatura a primeiro-ministro. Adicionalmente, abastardou politicamente a acção governativa de Passos Coelho – um dos motes de combate politico que não vejo discutido é a pobreza e incompetência que campeia na Geringonça e no seu governo, o quanto olvidável, quando não lamentável, é o legado politico dos actuais geringonços ministros.

            Jorg

          2. Cada vez que se fala na governação Passos, Rio até muda de cor. Ele sabe muito bem o que fez e o que disse e com quem alinhou nesses tempos duros.
            E Costa também sabe muito bem o que ele fez e disse e com quem alinhou nesses tempos, claro.

            Sublinho – concordando – este seu trecho:
            «A diferença com Rio é que este perdeu demasiado tempo e energias a hostilizar gente válida no PSD e pessoas fora das lides partidárias que enventualmente poderiam sustentar técnica e politicamente a sua candidatura a primeiro-ministro.»

          3. Sempre será menos mau não ter estado com Passos do que ter estado, até há pouco, com Sócrates.

  4. Tem sido a ausência dos portugueses em exercer o seu direito de voto, que faz com que Portugal hoje, tenha péssimos políticos de esquerda, dado que a esquerda vai sempre votar.

    Rui Rio melhor que Costa (o promessas).

    Acordem e vão votar dia 6

    A.Vieira

        1. Não é para si que Rio deve falar. Para os eleitores fidelíssimos, irredutíveis.
          É para os indecisos, os oscilantes, os que decidem para que lado irá inclinar-se a balança.
          Só ontem – e não em todo o debate – ele começou a fazer isso. Claramente tarde de mais.
          Faltam três semanas para as eleições.

  5. Vi partes do debate, não é novidade que quando a conversa desvia da “política” (tricas da treta) para questões técnicas o Costa derrapa. Ja naquela coisa do Bem e Mal, a cada questão concreta o Costa respondia com os chavões da cábula e nada mais. Nesse aspecto o Rio parece mais preparado. O problema é tudo o resto.

    PS: a questão da alta velocidade é discutível, temos um Alfa que chega a 220km/h, mas só o faz em percentagem reduzida do percurso. A linha férrea hoje não é de alta velocidade, e para o ser não são necessários TGV

    1. Rio esteve menos bem na recta final, quando desancou o Ministério Público e gaguejou sobre a descentralização encapotada a que prefere chamar “desconcentração”.
      Nada disto ajuda a atrair votos de possíveis eleitores tresmalhados.

  6. Há dois momentos a apontar, pela negativa, a RR, no debate: o sorriso derretido a AC e aquele apelo pungente de acabar com a regulação do poder paternal nos Juízos de Paz (palpita-me a conselho táctico para contrabalançar as acusações à Justiça e à ‘justiça’ mediática).

    Mas, ao que dizem, nisto da política há que ser assim: teve que dar o peito aos sorrisos fingidos (e ensonados sim, o Pedro Correia tem toda a razão, aquilo foi sesta ou ansiolítico) de AC e ser um pouco demagogo.

    Pela positiva, como muitos viram e já disseram, destaco: o desmontar, com factos, das embrulhadas socialistas, o desfazer da táctica socialista de sempre: o embrulho para português ver.

    A naturalidade de RR é e será sempre objecto de troça, como o modo desajeitado de Cavaco Silva sempre foi. Não têm o linguajar e os tiques próprios de quem tem pretensões a ser respeitado pela ‘elitezita’ nacional, por isso, estarão sempre ‘marcados’. Já Sócrates passava melhor nesse crivo. Ainda me lembro bem do apreço de muitos pelos dotes oratórios de Sócrates, nos debates televisivos e no parlamento. São gostos.

    Isabel

    1. Insisto, Isabel: aquela referência final à regionalização, assumindo a reviravolta opinativa (há 20 anos era contra, agora é a favor), em nada o favoreceu junto do eleitorado que costuma votar à direita do PS e agora se sente desmobilizado. Não havia necessidade.
      Quanto aos sorrisos para Costa, apesar de tudo, foram bastante menos do que noutras ocasiões. Também era o que mais faltava.

  7. Fiquei convencido que RR daria um bom PM, talvez um pouco distante dos jornalistas que rapidamente lhe fariam a folha como tendo “traços de ditador” e sei lá mais quê (quando os traços de ditador e colonizador de António Costa são muito mais preocupantes do que as invectivas de RR contra os media), mas em todo o caso um PM competente. Como foi quando esteve na Câmara do Porto.

    Mas o verdadeiro problema não é RR: é os outros todos de quem ele teria de se rodear para formar um governo.

    1. Rio é conhecido por centralizar o poder. Foi assim enquanto secretário-geral do PSD, foi assim na câmara, é assim no partido. Não precisaria de se rodear de muita gente. Nem gostaria, aliás.

      1. Sim, mas governar é diferente — e há demasiados ministérios para encher. E não se consegue concentrar nem encher ministérios com aqueles figurões que saem lá daquelas autarquias com contabilidade duvidosa enfiadas em zonas industriais no meios dos eucaliptos.

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