Quotas da discórdia


José Meireles Graça,

O Pedro Correia, decerto por achar que o Delito está com um excesso de prestígio que urge empanar, convidou-me para integrar o plantel. Seria normal que me apresentasse, mas não o faço por haver já uma plétora de vaidosos no espaço público e o amor da verdade me obrigar, falando de mim, a referências encomiásticas. As quais, mesmo estando cobertas pela liberdade da minha opinião, que naturalmente respeito, suscitariam porventura alguma rejeição dos leitores menos esclarecidos.

 

Prefiro republicar um texto (acolhido no cantinho discreto da blogosfera onde há anos me alivio de ódios e aversões) sobre a indignação da semana. Ei-lo:

 

Nunca aceitei, nem aceito voluntariamente, as quotas para mulheres – nos cargos resultantes de eleições, nos de direcção de empresas e em todas as situações em que estejam sub-representadas e essa sub-representação seja apresentada, com boas ou más razões, como advinda de preconceitos.

 

Não é que, no mercado de trabalho ou na dura competição pela obtenção do poder político, elas não tenham objectivamente handicaps, sobretudo se tiverem ou quiserem ter filhos. É que, legalmente, a condição de mulher já está reconhecida como de perfeita igualdade em direitos e portanto o inegável surgimento de mulheres em lugares de mando é uma legítima conquista fundada no mérito. Tão pacíficas hoje, a evolução e o mérito, que ninguém no espaço público e na opinião defende uma marcha-atrás nos direitos cívicos das mulheres, ou na igualdade entre os sexos, nem torce o nariz quando uma delas atinge lugares de topo, senão pelas mesmíssimas razões que torceria se fosse um homem – isto é, por se tratar de uma imbecil, ou ignorante, ou esquerdista, ou fascista, ou outra coisa qualquer que não tem nada a ver com sexo e tudo com ideologias, crenças, práticas e discurso.

 

Dito de outro modo: eu acho a senhora Úrsula von der Leyen um perigo e a senhora Lagarde uma estrela pop, uma por ser federalista e a outra por ser um saco de vento inconstante e superficial. Mas nada permite supor que desempenharão pior papel do que qualquer dos seus colegas, visto que na alta roda do funcionalismo supranacional não há falta de homens com aquelas características: lembremo-nos de Guterres, tão oco e esponja de ideias boazinhas que andam no ar que para ser ainda mais politicamente correcto só lhe falta usar saias, ser gay e vegan, tudo a tempo parcial. A tempo completo, continua a ser o perfeito patarata verboso que foi toda a vida.

 

Pois bem, o sistema de quotas para mulheres tem dois problemas:

 

Um é o de que, se uma mulher chega a um lugar por ser mulher e não por ser melhor do que qualquer outro candidato, a qualidade do desempenho só pode, se a lógica não for uma batata, ressentir-se. É certo que o preconceito pode, em circunstâncias iguais ou parecidas, fazer pender a balança para o lado dos homens, sobretudo se quem decide tiver, como muitos provavelmente terão, preconceitos inassumida ou inconscientemente misóginos. Sucede que confiar na evolução dos costumes é um caminho seguro – dificilmente farão marcha-atrás se entregues a eles próprios; mas acreditar na engenharia social e nos poderes do Estado para os reformar pode despertar, e desperta quando não haja consenso, a reacção dos que foram derrotados circunstancialmente – quem manda e legisla hoje são uns e amanhã outros. Tenham paciência, senhoras, o caminho da engenharia social é reversível.

 

Outro é o do precedente: se as mulheres estão insuficientemente representadas nos lugares de topo porque neles não figuram na mesma proporção que no conjunto da população, o mesmo raciocínio se pode aplicar a outros cidadãos com marcas distintivas já não de sexo mas de orientação sexual (gays ou lésbicas, p. ex.), origem étnica (pretos, ciganos, asiáticos, etc.), religião (muçulmanos, ateus, protestantes sortidos, etc.) e o mais que se queira que permita identificar um grupo social qualquer que não esteja, ou não se ache, adequadamente representado. E, é claro, se incluirmos no leque de instituições as do ensino, porque sem graus académicos numerosas carreiras estarão vedadas, então é apenas uma questão de tempo até termos quotas para homens, porque estes já estão hoje insuficientemente representados na maior parte dos graus de licenciatura.

 

Ou seja, a derrogação do princípio todos iguais perante a lei, por generosa que pareça a bandeira sob a qual se acolhe (feminismo, anti-racismo, igualitarismo, etc.), é grávida de uma interminável guerrilha com vencedores hoje que serão os derrotados de amanhã, e abre uma porta de conflitualidade dispensável. E não se julgue que o facto de as mulheres serem a maioria impede qualquer reversão das conquistas do feminismo assanhado: porque precisamente porque as mulheres não são inferiores aos homens e não têm menos discernimento na avaliação das políticas públicas é que, a prazo, julgarão com severidade todas as distorções que, em nome delas, se operaram pela longa e intrusiva mão do Estado.

 

Maria de Fátima Bonifácio, em artigo no Público de sábado passado (disponível apenas para assinantes), verbera este estado de coisas e manifesta-se contra as quotas para negros e ciganos a propósito das declarações de um tal Rui Pena Pires, secretário nacional do PS, que terá expectorado: “O PS quer discriminação positiva para as minorias étnico-raciais” e “Se fizermos uma política de alargamento de acesso ao ensino superior, já resolvemos parte do problema. Não faz sentido ter um ensino virado para os melhores alunos, mas sim para todos os que têm as condições mínimas para entrar”.

 

Por outras palavras: o PS quer votos cativos de pretos e ciganos e para o assegurar está disposto a meter no Parlamento, e eventualmente no governo, algumas personagens daquelas etnias que poderão até não fazer má figura, tendo em conta que num e noutro órgão do que não há falta é de personagens especialistas em patacoadas interesseiras e bons amplificadores de disparates bem-pensantes. Mas isto é o menos: abandalhar o grau de exigência do ensino (não há recursos para meter todos, e por conseguinte dar preferência a uns implica excluir outros melhores, para já não falar de uma discriminação ilegal à luz da Constituição, se bem lida) tem um custo oculto: as nossas pobres elites, cuja qualidade está ligada em parte à do ensino superior, levam mais um golpe.

 

Portanto, eu estou com Maria de Fátima Bonifácio. Mas apenas nas conclusões. Sobre os pressupostos, Rui Rocha escreveu no Facebook o seguinte:

 

Em artigo publicado hoje, Maria de Fátima Bonifácio afirma a não descendência (?) de africanos e ciganos da Declaração dos Direitos do Homem. Isto é usado para recusar um sistema de quotas. Mas, se admitíssemos o argumento, este serviria facilmente para negar-lhes também esses mesmos direitos fundamentais. Porque não “descendem”, teríamos que aceitar, por exemplo, que não se lhes aplica o princípio de que todos os seres humanos nascem livres e iguais. Aceitar esta tese abre a porta a um inquietante relativismo moral que parece ser, aliás, aquilo que Bonifácio queria combater. A proposta de quotas deve ser discutida a partir do entendimento sobre os princípios da liberdade e da igualdade, mas nunca da “descendência” ou não de valores fundamentais e universais”.

 

Subscrevo, ainda que qualificasse a “igualdade” acrescentando-lhe “perante a Lei”. E acrescento: O Estado não pode nem deve tolerar comportamentos e práticas que, em nome do multiculturalismo, ofendam valores axiais (com perdão da palavra) do tipo de sociedade que temos, desde logo a igualdade entre os sexos ou a liberdade de expressão da opinião, por exemplo. E isto sem complexos, porque comportamentos não são opiniões, salvo quando estas consistam no incitamento à prática de crimes. Opiniões, cada um tem as que tiver e é livre de as exprimir porque não é a mesma coisa ter opiniões racistas (que são perfeitamente legítimas, tanto como acreditar que a terra é plana, o comunismo o fim da História, ou outro disparate qualquer) e agredir, desconsiderar ou por qualquer forma discriminar um negro; e pode achar-se, e até acreditar por razões religiosas, que a excisão genital feminina é algo de positivo para a coesão social, mas isso não deve impedir que quem a recomende e pratique seja criminal e severamente punido.

 

Por mim, estou certo de que não é cientificamente defensável que por causa de características físicas genéticas haja alguma espécie de superioridade ou inferioridade de algum grupo humano, a viver entre nós ou algures; mas isto não é a mesma coisa que imaginar que todas as culturas se equivalem. Se fosse o caso, todo o progresso social seria impossível porque não haveria em nome do que mudar. E não estou certo, ao contrário de Fátima Bonifácio, que a integração de certas comunidades seja impossível: a tolerância em relação a comportamentos ofensivos dos valores que temos como essenciais, sob o pretexto da neutralidade cultural, é que pode atrasar a integração; e a discriminação positiva também, por ser o reverso da mesma moeda.

 

Finalmente, no dia seguinte o director do Público achou útil publicar um editorial lamentável, em que pede desculpa aos leitores por, em nome da pluralidade da opinião, dar guarida a um texto com “proximidade a teses racistas e xenófobas”.

 

Em vez de qualificar erroneamente um texto que tresleu, teria feito bem em não dizer nada ou, no máximo, esclarecer pela milionésima vez que a liberdade de opinião ou serve para exprimir pontos de vista dos quais se discorda ou não serve para nada.

86 comentários em “Quotas da discórdia”

    1. Isso agora, grande… nem sequer na quantidade de inimigos, ainda que seja bastante maior que a dos amigos. Mas obrigado, muito.

  1. Os Catolicos tambem querem cotas!!!! 85% da assembleia deve pertencer aos Catolicos a restante pode ser para os ateus, macons, ciganos, judeus, africanos de maome, etc…a Presidencia da Republica, deve pertencer exclusivamente aos catolicos e 85% das pastas governamentais devem estar nas maos dos catolicos!!! Cotas para os Catolicos no Estado!!!!

  2. Sem mais! Subscrevo, com menção de louvor!!
    Um grande bem haja,

    (temo, contudo, que por força desse estranho, esdrúxulo e contraproducente episódio da M. Fátima Bonifácio (já se deve ter, certamente, arrependido de tão desconchavado desabafo. Ou pelo menos do mal que produz à causa do senso comum) tenham os deslumbrados das distopias de um progresso salvífico a galope redobrado em animo e vigor. É que, de momento, não existe oposição à sua mundividencia na Ass. da Rep. Inexistem forças políticas que lhes possam refrear o animo e o ímpeto transformador. Calha bem que não existe oposição, ponto.)

  3. Essa das quotas para os afrodescendentes dá-me barrigadas de riso: segundo uns entendidos da genética, cá pelo rectãngulo abundam fartas partilhas de código provenientes de terras africanas.

    Portanto, a mediocridade política local há muito tempo, mas mesmo muito, já foi quotizada!.

    SM

  4. “Em vez de qualificar erroneamente um texto que tresleu, teria feito bem em não dizer nada ou, no máximo, esclarecer pela milionésima vez que a liberdade de opinião ou serve para exprimir pontos de vista dos quais se discorda ou não serve para nada.”

    Presumo que o diretor do Público também tenha liberdade de expressão para discordar do texto, que aliás não foi proibido. É muito diferente censurar dizendo que não se concorda de censurar proibindo que se publique.

    Faz-me uma certa impressão que pessoas que dizem coisas que chocam com os princípios básicos da democracia gritem “aqui d’el rei que não estão a ser democráticos comigo”.

    1. O que o director do Público fez não foi discordar (para isso fazem-se artigos de opinião), foi pedir desculpa e justificar a publicação do texto, em tais termos que levam o leitor a pensar que não estivesse MFB protegida pela sua condição de académica e de colaboradora habitual do jornal e jamais semelhante texto herético franquearia os umbrais de uma publicação tão higienizada como o Público. Que fique lá com a higiene, morrerá cheio de saúde de esquerda.

      1. Herético é a nova palavra para racismo?

        É que o racismo é proibido. Não pode estar sujeito à discussão em democracia. A menos que a discussão seja sobre se devemos viver em democracia ou não. Mas se não devemos viver em democracia então não faz sentido estar a exigir liberdade de expressão.

        Pelo seu modo de pensar um ladrão não deveria ser preso, ele apenas tem uma noção herética da propriedade,

        1. Um ladrão rouba, ou seja, faz, não emite opiniões. Se apenas dissesse que se deve roubar a quem tiver muito de seu, a opinião estaria protegida, como está a dos comunistas, que dizem precisamente isso. Quanto à democracia, ela não é o regime em que as opiniões da maioria são obrigatórias, isso seria não uma democracia mas uma ditadura de maioria. Quanto ao racismo, o que está proibido é a prática de actos discriminatórios com origem em opiniões racistas, não o “racismo”. A redacção dos textos legais é por vezes equívoca, por causa da influência deletéria de correntes de esquerda radical, que querem, como sempre quiseram, engenheirar o mundo para fazer a sociedade, e o Homem, perfeitos.

          1. Emitir opiniões é uma ação. E incitar ao crime é crime.
            E opiniões racistas não são heréticas, são racistas.

            Se pegar no texto de Fátima Bonifácio e retirar a parte em que ela se refere às cotas, notará que é com estes argumentos que se legitima a exclusão. Se há cidadãos que não são suficientemente “ocidentais” para fazerem parte duma cota, então também não servem para frequentar a universidade haja cotas ou não.

            A nossa direita tem imenso ardor democrático quanto à defesa de quem tem opiniões racistas, ardor que desaparece quanto a condenar as opiniões racistas.

            A única coisa cómica é que estão convencidos não são racistas, acham que os outros é que lhe são inferiores, e dizer a verdade não é racismo.

          2. jo, é facto que as quotas são só instrumento legislativo. Faz falta o material para o intervalo: uma caixa com agulhas, dedais, linhas, quer para o ponto cruz quer para o crochet quer para um pontinho numas meias ou cuecas. Eu iria mais longe, incluiria um fogão para o ponto de rebuçado, pois estão aí as cerejas que se podem aproveitar para fazer doce e comer no Inverno.

            É necessário compreender que um homem não pode viver sem estes instrumentos de lavores.
            Como sou um tipo aberto ao avanço civilizacional, estou a pensar em fazer uma noite para celebrar as núpcias; e já pedi à moça que me pegasse ao colo e levasse para a cama.

          3. Concordo, José. Eu defendo que ninguém deve pagar impostos enquanto houver paraísos fiscais (já agora um individuo que defenda a utilidade dos paraísos fiscais é um ladrão, ou só um tipo das “direitas”?)

            “Quanto ao racismo, o que está proibido é a prática de actos discriminatórios com origem em opiniões racistas, não o “racismo”.”

            Pensava que um discurso que defendesse uma particularidade étnica fomentadora, ou legitimadora, de acções discrimatorias era proibido pela lei portuguesa (são criminalizados grupos ou organizações que se dediquem a essa discriminação assim como as pessoas que incitem a mesma em documentos impressos ou na Internet – artigo 240 do novo Código Penal português, em vigor desde 15 de setembro de 2007)

            Vejamos:

            “Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos. Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789” – lembremos, Toussaint L’Ouverture, sepultado no Panteão, em Paris. Lembremos Mandela, também, entre muitos outros. Não personificaram na perfeição a Carta?

            “Os ciganos, sobretudo, são inassimiláveis”

            Puro Racismo.

            “é só ver a quantidade de meninas e meninos ciganos que abandonam os estudos, apesar dos subsídios estatais de que os pais continuam a gozar para financiar (ou premiar!) a ida dos filhos às aulas”

            E a quantidade de portugueses que abusam dos subsidios, já para não falar naqueles atribuidos a empresas (ex: EDP)? Não há ciganos que gozam e se financiam com os subsidios. Há pessoas (pretos, brancos…) que o fazem.

            “Os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios”

            Há racistas brancos, pretos, amarelos. Mas os africanos, ou os caucasianos não são, todos, abertamente racistas…

            Depois fala na mutilação genital, mais nas tribos muçulmanas, como se esta fosse uma prática corrente em todas elas ( também nas animistas ela existe; aliás tal prática é anterior ao islamismo e ao catolicismo; a bem da verdade a circuncisão judaica é ela mesma uma mutilação genital – remoção de parte de prepúcio peniano) . Podia seguir a mesma lógica e afirmar que todos os pretos são canibais (prática ainda existente, entre, algumas, tribos africanas). Aliás a mutilação genital relaciona-se, também, com o pecado cristão associado ao prazer sexual, sobretudo o feminino.

            Peço desculpa mas não tive estômago para ler o resto….

          4. Eu concordo, V. Mas eu de uma forma geral não gramo ninguém, sejam pretos, brancos, muçulmanos, cristãos….sou bicho do mato. Gosto de cortar lenha, pescar, caçar, ouvir Black metal, Arvo Part, as aves de rapina, mais o riacho. Adoro a distância.

          5. Não entendo como o Racismo não é ilegal/ inconstitucional, uma vez que mina os Principios de Igualdade perante a Lei, e a Presunção de Inocência. O Racismo é o suporte teórico das actos racistas. É o racismo que fomenta, facilita, socialmente, e justifica a acção racista.

  5. A indignação de Maria de Fátima Bonifácio a propósito de quotas é a minha. O editorial do Público após a publicação é intolerável, como é intolerável que Maria Bonifácio tenha destruído a sua indignação e a sua justa revolta contra a complacência com que olhamos para os outros, usando argumentos falhos do rigor histórico a que está obrigada pela sua formação académica. Essa foi a culpa de Maria de Fátima Bonifácio: a falta de rigor nos argumentos.

  6. Seja Bem-vindo, Meireles Graça. E assine os seus comentários que estão a aparecer como sendo de leitor anónimo,

  7. Bem vindo, José!

    Duas, ou três coisas:

    Agradecia um texto mais curto. . A breviloquência é a virtude da poesia e do pensamento.

    “Não é que, no mercado de trabalho ou na dura competição pela obtenção do poder político, elas não tenham objectivamente handicaps, sobretudo se tiverem ou quiserem ter filhos”.

    Contudo compensam os supostos handicaps biológicos (mas também os homens já podem pedir licença de paternidade), com uma preparação académica superior à dos homens. Além do mais existem/existiram determinados costumes que se não são combatidos pela cultura/ educação, e não por lei (a diferença entre ética e legalidade) dificilmente mudarão (ex: a existência de um crescente número de mulheres em licenciaturas tidas, no passado, como masculinas – a facilidade para determinadas disciplinas cientificas relaciona-se mais com um estereótipo cultural do que de diferenças biológicas.

    Quanto deixar às forças da sociedade a responsabilidade das mudanças sociais e não aos Estados, pergunto. Foi o Estado, ou a sociedade dos Estados sul americanos o responsável pela mudança operada através do Movimento dos Direitos Civicos? E a abolição do Trabalho Infantil? Da Escolaridade obrigatória….? Arrisco-me a afirmar que os Pilares Transcendentais da Democracia não foram, nem devem ser defendidos, criados, democraticamente.

    Quanto à possibilidade revanchista, não encontro nenhum exemplo prático histórico,consequente a projectos liberais latos, que, estritamente, não foram democráticos.

    Quanto aos preconceitos de género eles estão muito mais enraizados que os religiosos, ou étnicos, porque mais antigos (este preconceito pode por isso ter razões biológicas – organização/distribuição do Poder na Tribo/Comunidade). Comecemos por estes e sigamos depois para outros, se os houver.

  8. São as mudanças legais precedidas por mudanças societais? E os modelos reformistas nascem de exigências populares?

    Atrevo-me a dizer que os únicos movimentos culturais, que ultrapassam, no tempo, as forças politicas/legais são os de tipo revolucionário.

    O staccato popular é discordante do politico. Daí a necessidade da politica escrever o compasso e marcar o passo.

  9. Saudações por este postal e as boas-vindas.

    Também envio saudações ao Putin, Trump, Bolsonaro e Dominique Strauss Khan. Gosto de políticos que não se sentem ofendidos e diminuídos por serem machos.

    As quotas e as quotizações, extensivas também a raças e culturas, é malabarismo circense de quem nada tem para fazer e não é capaz de resolver o que na realidade tem de ser resolvido: a fome, o desemprego, a pobreza, a habitação, a especulação, os despejos das habitações, a saúde, a dívida que será paga e repaga através de juros e com o serviço desta, e nunca amortizada.

    1. ” a fome, o desemprego, a pobreza, a habitação, a especulação, os despejos das habitações, a saúde, a dívida que será paga e repaga através de juros e com o serviço desta, e nunca amortizada.”
      Tudo isso, caro Vento, podia, se não banido na totalidade, pelo menos incomparavelmente diminuído se houvesse mais mulheres a mandar.
      E, estou certo disso, muitas mais crianças no mundo riam.
      Assim, dêem-lhe as voltas que quiseram, brilhem pela retórica que brilharem de que “não somos machistas e pela igualdade de género pugnamos” é mentira e o mundo é dos homens.

      1. Lá vem o meu caro Corvo com o “mandar”. Estas coisas não se mandam, fazem-se. Se conhecesse bem a história da federação russa com Putin no cargo verificaria o que realmente foi feito em prol da pobreza.

        Esses estereótipos sobre a mulher, direi feministas, é o que me leva a cumprimentar quem não se envergonha de ser macho.

        Sabe, Corvo, dos seios de uma mulher saiu o meu alimento, suas noites perdidas foram o meu velar, em seu colo me embalou e protegeu, em guarda esteve para me ensinar e em todos os momentos, se necessário dando a vida, saiu em meu socorro.
        É preciso saber a que mulheres se refere. Pois parece-me que em matéria de amor foi o meu caro que referiu que o dinheiro vem na frente.

        1. Não falei em amor, Vento.
          Se bem que em todas as relações entre um homem e uma mulher é sempre ela quem dá mais. Mesmo quando pede.
          Mas não falei em sentimentos, falei em competência, discernimento, intuição que nasce com elas, inteligência; tudo isso em que elas são incomparavelmente superiores.
          E se o verbo mandar foi mal interpretado por si, substituí-mo-lo por dirigir.

          1. Não existe competência, discernimento e intuição sem amor. E este amor não é o amor sentimental: é o amor da entrega. Entregar é também sacrificar. A estrutura social portuguesa sempre foi essencialmente matriarcal. Em regra, eles mandavam no que elas dirigiam.

            Portanto, o feminismo é uma corruptela da estrutura matriarcal vigente que se pretende apoiar em causas há muito juridicamente instituídas, confirmando a lei natural, para reforçar a militância de um não sei quê.

            A estrutura psico-analítica que faz da mulher em nada retira a importância do homem que em igual proporção possui as características que apresenta. Outras, sim, são diferentes, mas não essas.

          2. E com isto o caro Vento aniquilou toda a minha argumentação.
            “Não existe competência, discernimento e intuição sem amor.”
            E eu a pensar que era precisamente o contrário.
            Que era, por exemplo, o amor como uma clepsidra. O coração enche-se na proporção da cabeça que se esvazia.
            🙂

          3. Este amor não tem nada com o coração, mas com a mente. Se a mente não vê, o coração não resolve.
            “Buscai o reino dos céus e sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo”. O coração busca o acréscimo e anda sempre partido. Mas buscar o reino e a justiça para construir o acréscimo impele-nos à renovação da mente, a um novo renascimento, e não a conversas feministas.

            Quando lá chegar, à Sabedoria, compreenderá o sentido: “o que os olhos não viram e os ouvidos não escutaram”. Aqui não há sentidos, mas Saber.

          4. Corvo, atente, no quando lá chegar. Calma, meu caro, há-de chegar

            Vorph

          5. O Corvo chega lá, não me resta dúvida. Este chegar não é lugar, é condição. Teve sorte em não ter levado com um link do trajecto. Para este lugar não se chega de internet. É mesmo para sábios.

          6. Provérbios, Capítulo 2

            1 Filho meu, se aceitares as minhas palavras e esconderes contigo os meus mandamentos,
            2 para fazeres atento à sabedoria o teu ouvido, e para inclinares o teu coração ao entendimento,
            3 e, se clamares por entendimento, e por inteligência alçares a tua voz,
            4 se como a prata a buscares e como a tesouros escondidos a procurares,
            5 então, entenderás o temor do SENHOR e acharás o conhecimento de Deus.
            6 Porque o SENHOR dá a sabedoria, e da sua boca vem o conhecimento e o entendimento.
            7 Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos; escudo é para os que caminham na sinceridade,
            8 para que guarde as veredas do juízo e conserve o caminho dos seus santos.
            9 Então, entenderás justiça, e juízo, e equidade, e todas as boas veredas.

  10. “isto é, por se tratar de uma imbecil, ou ignorante, ou esquerdista, ou fascista”

    Diria haver por aqui um preconceito relevado por um tipo de acto falhado. Mais concretamente, a equiparação de um “esquerdista” a um imbecil, ou ignorante. Eu, porventura considero-me de Esquerda, não sou, garanto-lhe, mais imbecil, do que muitos “direitistas” que conheço e que por aqui, e por aí pululam.

  11. Sou seu leitor nesse outro “cantinho discreto da blogosfera” (partilho, parece, boa parte dos seus ódios e aversões). Sê-lo-ei doravante também aqui.

    Parece que a extensão dos seus textos já incomodará leitor(es), neste blogue. Ler – perceber (ou tentar perceber) – exige tempo e esforço, é um facto. Por brilhante e lapidar efeito que uma sucinta tirada possa ocasionalmente produzir, a realidade, apresentada, descrita e fundamentada, por maçador que isso seja – a realidade e essa sua apresentação, descrição e fundamentação -, tem o hábito de nem sempre caber, salvo grosseiro e perigoso resumo, num punhado de caracteres ao estilo do twitter, nem se reduz ao mero elenco sistemático de abundantes “links”.

    E só lê quem quer.

    Costa

      1. Como o Vorph imaginará, do meu tempo e o meu espaço, por aqui e como leitor assíduo e não mais do que ocasional comentador do blogue, decido eu. Sem por um instante ignorar que aos autores dos textos em que o faça, cabe a soberana decisão de publicar ou não isso que eu comente. E cabe-lhes com toda a legitimidade.

        Em todo o caso precipitou-se, meu caro. Limitei-me (conheço-o já, desse outro local na blogosfera) a manifestar o meu apreço pelo labor de fundamentação que o autor sempre coloca no que escreve e afirma na “blogosfera”; uma prática bem diversa daquela que por estes dias generalizadamente parece imperar. Mas felizmente um rigor que é de lei também no D. O.. Pareceu-me devida essa minha manifestação, o autor fez-me o favor de a publicar. É tudo.

        E enfim, bem vê: mantenhamos as coisas nas suas reais dimensões. Se, daquilo que você escreveu, algum estímulo resultou, terá para mim sido apenas esse de vencer alguma inércia e levar-me a deixar umas palavras de apreço por um novo (novo aqui) “delituoso”.

        Olhe, Vorph, tendo sido esse o caso, fico-lhe grato. E, não sendo o texto que aqui nos traz nem sobre si nem sobre mim, nossos hábitos e opiniões, por mim dou o assunto por encerrado.

        Costa

  12. Bom texto,

    No epicentro do Marxismo mundial as coisas vão mais avançadas:

    https://www.news.com.au/entertainment/music/music-festivals/rapper-tiny-jag-quits-music-festival-over-different-ticket-prices-for-white-people/news-story/

    https://www.foxnews.com/entertainment/afrofest-festival-biracial-rapper-white-people-of-color

    Esperemos pelo apoio do Publico/Bloco de Esquerda a um festival com preços racialmente diferenciados…: 6 meses a um ano ?

    Note-se a censura do Jornalismo por cá sobre este caso…

    lucklucky

  13. Caro José Meireles Graça, também lhe dou as boas-vindas ao DO, eu que também aqui entrei recentemente.

    Quanto ao seu postal, vou ter de discordar, mas sem falar na questão das quotas. Diz que «a condição de mulher já está reconhecida como de perfeita igualdade em direitos». Está?

    Ainda ontem, no Telejornal, vi uma reportagem sobre a diferença de salários para homens e mulheres, que, nos últimos anos, tem inclusive aumentado! E isto nas camadas mais jovens!

    Além disso, fiquei hoje a saber que a lei interdita «um segundo casamento por um prazo de 180 dias para os homens e de 300 dias para as mulheres, após o divórcio ou viuvez».
    Daqui: https://edicoespqp.blogs.sapo.pt/somos-um-pais-mais-medieval-do-que-5759064?view=2624344#t2624344

    E são apenas dois pequenos exemplos. Se isto é igualdade…

    Não esqueçamos as sentenças de certos juízes, em casos de violência doméstica de homens sobre mulheres!

    «Ninguém no espaço público e na opinião defende uma marcha-atrás nos direitos cívicos das mulheres, ou na igualdade entre os sexos». Desculpe, mas eu, nas redes sociais, vejo, todos os dias, esta sua afirmação ser contrariada.

    1. Obrigado, Cristina. Não vi a reportagem, mas suponho que assente no velho mantra simplista que aponta discriminações sem apontar casos concretos de salários diferentes para funções iguais. Se fosse o caso, seria fácil de resolver, através de uma simples queixa à ACT, dado que a prática é há muito ilegal. Normalmente, apresenta-se uma estatística simples, que parte da constatação de que há menos mulheres nas funções mais bem pagas, e portanto com um salário médio inferior, para gritar discriminação e propôr… quotas. Não pretendo ser acintoso, mas estou à espera de mulheres picheleiras, uma das profissões mais bem pagas – um segredo bem guardado. E certamente as verei, se deixarem o mercado funcionar sem interferências e sem tentativas de fazer um mundo perfeito por decreto. Os prazos diferentes da lei radicam nas implicações quanto à paternidade legal dos filhos, isto é, no velho dito de que os filhos da minha filha meus netos são, os filhos do meu filho serão ou não. Pode ser que hoje, com as técnicas de ADN, a disposição se tenha tornado obsoleta, não sei. Mas não faltam mulheres no Parlamento para promoverem a alteração, se for razoável, nem homens no mesmo lugar que vivem perpetuamente na ânsia de agradar, com medo de que os considerem misóginos. Por mim, sou demasiado arrogante para me preocupar com o que as pessoas pensam, homens e mulheres, e demasiado vaidoso para ligar a mínima importância a ideias cuja principal característica seja serem consensuais, sem mais.

      1. Mas o que é que a parentalidade tem a ver com o matrimónio? É ilegal o sexo fora do casamento?

        Quanto a haver deputadas no Parlamento, lembro que no Estado Novo também havia a Obra das Mães pela Educação Nacional. (Infelizmente entre as mulheres acham-se também os mais vis preconceitos)

    2. “«um segundo casamento por um prazo de 180 dias para os homens e de 300 dias para as mulheres, após o divórcio ou viuvez».”
      Dou-lhe razão menos nesta. Maternidade e paternidade não são o mesmo. Temos sempre a certeza de quem é a mãe mas o pai não. Só confiando na palavra da mulher mas se há homens que mentem também as mulheres o fazem.
      Não me repugnam os tais prazos: derivam da natureza das coisas. É também por isso que há desporto feminino e masculino. Se acha bem, ponha uma equipa feminina de futebol a jogar contra uma masculina. E depois podemos chamar aos homens machistas por ganharem sempre (ou quase)???

      1. Mas qual a base biológica dos 180 dias para os homens? Nem os 300 dias, eu percebo.

        Isto não faz sentido nenhum. A não ser que se presuma que a mulher não enganar o homem

    3. Se a maior parte dos empregos são no Estado e seguem uma tabela, como é que as diferenças salariais são assim tão grandes. Até há mais mulheres a trabalhar no Estado do que homens! Esses estudos que ninguém viu e que passam na televisão são pura treta. Mostrem-me as estatísticas lá nas tabelas do INE (que é controlado pelo PS portanto olhem para os estudos do INE com cautela — têm de ser cruzados com 1. pop activa por sectores de actividade e 2. rend. por distrito / sexo

  14. Desculpem, mas a vossa razão para justificar a diferença de prazo para o casamento ainda me deixou mais revoltada. Realmente, a lei diz que as mulheres só podem casar ao fim de 180 dias se apresentarem um atestado médico em como não estão grávidas!

    Discriminação pura e dura. Não tenho dúvida de que a sociedade continua machista.

    1. «E a Procuradoria-Geral da República até considerou que a existência de prazos diferentes é inconstitucional por violar o princípio do tratamento igual entre todas as pessoas e o direito a casar em condições de igualdade».

      https://www.publico.pt/2019/07/09/politica/noticia/nao-homens-mulheres-terao-esperar-tempo-casar-1879352?fbclid=IwAR1sCFqGvYmdJPw2z2t4kq-5dbF85SpntrnoSsHYZnSvzDM0AX_FgIbCJyk

      Esta diferença de prazos é uma autêntica parvoíce. Mesmo sendo casado, um homem não pode garantir que a sua mulher está grávida dele. Ou há confiança ou não há. Sujeitar pessoas a atestados médicos antes de casar é profundamente indigno.

      1. “Sujeitar pessoas a atestados médicos antes de casar é profundamente indigno.” Concordo consigo e também prefiro o tal prazo de salvaguarda que evitará muitos problemas e burocracias. E permitirá num grande número de casos presumir a paternidade sem quezílias e com aceitável segurança. Só me considero igual aos homens em dignidade. No resto tenho diferenças (em particular em questões de maternidade) cujo reconhecimento e respeito exijo. Não tenho a menor intenção de imitar os homens.

      2. Há uma presunção legal (art.º 1826.º do Código Civil) de que o pai é o marido da mãe (inserir neste espaço a piada marialva). Ou seja, que se dispensa qualquer “certidão” para provar esse facto, quando a mulher é casada (e que obriga a uma acção judicial para provar que não é assim). Por isso mesmo, faz todo o sentido que só possa haver casamento (no sentido clássico do termo, entre homem e mulher), decorrido o prazo sobre a dissolução do casamento anterior. É uma questão de racionalidade, bom-senso e ordem social, que, naturalmente, cedem ante o individualismo, o politicamente correcto e a indignação.

        1. Essa lei é de quando?

          Num tempo em que já existem testes de DNA , em que a liberdade sexual e social são, hoje, muito latas é um bocado absurdo considerar pai o marido da mãe….mas eu sou mais bolos

          Vorph V.

  15. Há diferenças incontornáveis entre homens e mulheres no que respeita ao sexo e à reprodução. Existirão mesmo que a Constituição não as admita. Por exemplo: uma mulher pode dar à luz um filho e para ter outro tem de esperar os nove meses da ordem e depois mais uns tempitos para poder engravidar de novo. Um homem pode engravidar hoje uma e amanhã outra. Uma mulher poder ter relações sexuais com vários homens consecutivamente, um homem não: tem de esperar (se não for jovem pode ser muito tempo) até poder ter de novo relações. Uma mulher pode ter orgasmos múltiplos, um homem suponho que não. Vamos decretar o contrário?
    Se não se puder presumir que filho de mulher casada é do marido, vai aumentar a burocracia, a necessidade de atestados e o contencioso. Pôr prazos diferentes para coisas diferentes não é atentado à dignidade de ninguém. É reconhecer que a biologia existe.

    1. “Uma mulher poder ter relações sexuais com vários homens consecutivamente, um homem não: tem de esperar (se não for jovem pode ser muito tempo) até poder ter de novo relações”

      João não me leve a mal, mas esse tem que esperar é por quem, ou por quê?

      “Uma mulher pode ter orgasmos múltiplos, um homem suponho que não”

      João, qual é a sua idade? Ou é seminarista?

      Pelo facto da a biologia existir por detrás de cada comportamento, e pela tecnologia estar,nos dias de hoje, à disposição, serem absurdas essas disposições legais.

      1. Vorph Valknut
        Supondo que o Vorph é homem, e entendendo eu bem o que João Silva quis dizer, (obviamente que ele se referia a sexo com mulheres, pois um homem também pode ter sexo com outros homens consecutivamente), o seu comentário sobre a espera e orgasmos, só me suscita uma frase: você é um homem de sorte, aproveite! 🙂

  16. O meu comentário anterior fez-me lembrar uma história que me contaram (será verdadeira?). Há muitos anos o governo de um Estado americano resolveu acabar com as confusões sobre o número pi. Então fez uma lei a dizer que a partir daquela data o valor de pi é tal (e escreveu 3,14 e mais não sei quê). É claro que o valor de pi permaneceu como era. Quer dizer as leis não podem ignorar a natureza.
    Recordo-me que um argumento do Estado Novo para negar a independência das colónias era que a Constituição considerava que eram parte integrante de Portugal. Tivemos de mudar a Constituição.
    Pôr nas leis que homens e mulheres são iguais em aspectos em que não são, não vai alterar a biologia. Para evitar confusões: concordo que são iguais em dignidade.

  17. Caros comentadores, queria esclarecer algumas questões. No que a mim diz respeito, não se trata de ignorar a biologia, nem tão pouco de imitar os homens. Há diferenças entre mulheres e homens e ainda bem. Eu gosto muito das diferenças. O homem tem mais força física e mais músculos, por isso, as modalidades desportivas são separadas. Sim, quando a força está em causa, a mulher perde sempre em relação ao homem. Mas é isso razão para ser considerada inferior? As mulheres têm outras qualidades, cada um tem as suas qualidades, e não acho boa ideia estar a compará-las e decidir quais as melhores, as superiores, etc. Até aqui, estamos de acordo. Por isso, peço o favor de não porem palavras que eu não disse na minha boca!

    Também não discuto o facto de haver, ou não, prazo, mas de o prazo ser diferente. Não acho justo. Para ser igual, bastaria alargar o prazo para os homens e ambos só poderem casar passados os 300 dias. Porque não se faz isso? Qual era o problema? Além disso, nos dias que correm, com tantos testes, é preciso esperar 300 dias para saber se a mulher estava grávida da relação anterior? Mas que parvoíce!

    Os homens achariam justo que a lei salvaguardasse, por exemplo, o direito de a mulher esclarecer se há mulher, ou mulheres, grávidas do homem com quem pretende casar? Se ele tiver muitos filhos para sustentar, pode prejudicar o casamento, ou não? Achavam bem que houvesse uma lei destas, que fizesse depender o casamento de um qualquer documento que assegurasse não haver mulher, ou mulheres grávidas do noivo?

    Quando um homem conhece uma mulher viúva ou divorciada, se apaixona por ela e deseja casar com ela, vai fazer depender esse desejo de um atestado médico, ou do facto de ela poder estar, ou não grávida? Se ele realmente a ama, qual é o problema de ela estar grávida da relação anterior? Vai deixar de a amar por causa disso?

    Claro que as mulheres podem mentir, qualquer pessoa mente. Por outro lado, para haver um casamento são e duradouro (como se quer que sejam), tem de haver confiança. Se o homem que deseja casar com essa mulher, lhe pergunta se há possibilidade de ela estar grávida da relação anterior, ela diz que não e ele desconfia, então não deve casar com ela! Ou bem que a ama, ou bem que não. Ou confia, ou não confia. Se não confia, repito, deve evitar casar.

    Mais acrescento que, estando eu numa situação dessas e estando a dizer a verdade, ao afirmar não estar grávida, seria eu que desistiria de casar com quem de mim duvidasse. O casamento não teria futuro nenhum.

    Se ele acredita que ela não está grávida, casam-se, e ela afinal está e não é dele, isso é um problema que os dois têm de resolver. Mais ninguém! Infelizmente, há gente que mente, sim. Mas também os homens podem mentir, de forma a prejudicar o casamento. Vão-se fazer leis que salvaguardem todos estes casos?

    A lei, tal como está, protege o homem, apenas o homem. Protege o orgulho masculino que rejeita filhos de outro macho. Por isso, é desigual e injusta. A haver prazo, ele deve ser igual para os dois!

    1. “Mas é isso razão para ser considerada inferior? As mulheres têm outras qualidades, cada um tem as suas qualidades, e não acho boa ideia estar a compará-las e decidir quais as melhores, as superiores, etc.”
      Mas eu estou de acordo consigo nisto e em muito mais. Mas não vejo que seja um atentado à mulher a questão dos prazos diferentes. Se puserem iguais, não discordo mas compreendo e aceito que há razões para serem desiguais. O mais importante: se houver um prazo razoável para o caso da mulher vai-se evitar muita chatice e muito contencioso. Se o prazo for igual para os homens, não vejo problema mas acho que é só para satisfazer as feministas assanhadas numa coisa que não é essencial.

      1. O que são “feministas assanhadas”?

        Acha-me uma “feminista assanhada”? Lamento, para si.

        Mas o prazo nupcial acabou. Todos deram ouvidos às “feministas assanhadas”, menos o CDS. Tenho uma certa pena, porque até admiro a Cristas.

    2. Suponho que me esqueci de pôr o nome no comentário que acabo de enviar.
      Mas digo-lhe mais uma coisa: acho que os homens têm razão para invejar as mulheres na questão da maternidade. A paternidade é nada comparada com a maternidade. Só que as questões estão invertidas e muitas mulheres laboram num erro ao desvalorizarem a maternidade. Mas isto daria pano para mangas, não quero ser longo.

    3. Cara Cristina.
      Tudo quanto disse é verdade, mas poucos irão compreender; ou melhor: recusarem-se a compreender.
      Se a Criação dotou o homem de força física superior, dotou a mulher de maior abnegação. O Homem foi feito para caçar e a mulher para criar. Sem essa associação a espécie tinha-se esfumado.
      Isto no passado. Transportado para a contemporaneidade, o homem é fisicamente superior e a mulher mais inteligente.
      Porquê?
      Porque entretanto inventaram a cerveja e o futebol e a força física é necessária para o insulto e a agressão, enquanto se vazam umas cervejolas no tasco, e a mulher mais inteligente porque sabendo a força do macho toda canalizada para essa suprema ventura, teve de arranjar maneira de forçar a inteligência para a sobrevivência da prole, porque se tem a veleidade de contar com ele, sucede, por exemplo: bebé à noite a chorar, ela estafada de ter passado a noite do leito ao berço, do berço ao leito, diz-lhe que vá lá ele agora calar o bebé. Ele recusa, ela enerva-se e diz-lhe que o bebé é tanto dela como dele, e ele replica.
      – Então vai lá tu calar a tua metade e deixa chorar a minha.
      Se os homens têm mais força física do que as mulheres, então tirem-lhe o aspirador das mãos e carreguem-lhes os sacos das compras.
      Concluído este ponto, se as mulheres por vezes mentem os homens fazem-no numa percentagem muito maior.
      Se há diferenças que enervam os homens, a elas as diferenças deles desesperam-nas.
      Poderia dizer muito mais, desatar numa epopeia interminável sobre o assunto, mas isto não é meu e termino limitando-me ao seguinte.
      Quando um homem ama uma mulher, mostra-o que pai não é quem gera, – isso todos os animais fazem,- mas sim quem ama, protege e cria.
      Conclusão 2. Uma mulher sem segredos é como um jardim sem flores. E que há certas perguntas que nunca se fazem a uma mulher.

        1. Alguma coisa o fez.
          Eu falei em Criação porque alguma coisa o criou.
          Nada juntado a nada dá nada.
          Se tem melhor explicação, ria menos e explique mais.

  18. dar preferência a uns implica excluir outros melhores

    O problema, é que já atualmente esse é o estado de coisas.

    Pois que, se há um machismo instalado, isso quer dizer que mulheres melhores estão a ser preteridas em favor de homens menos competentes.

    O autor do post parece não reconhecer que na situação atual já se dá preferência a uns em detrimento de outros, isto é, já se dá preferência a homens em detrimento de mulheres, pelo que, já hoje melhores são excluídos.

  19. confiar na evolução dos costumes é um caminho seguro

    Muitos costumes não evoluem espontaneamente, ou demoram um tempo enorme a evoluir.
    Se fôssemos a confiar na evolução dos costumes, ainda hoje haveria o regime”Jim Crow” no Sul dos Estados Unidos, por exemplo.
    A evolução dos costumes tem que ser, em muitos casos, estimulada, institucionalizada, e quiçá imposta através de regras impostas pelo Estado.

  20. «Os deputados aprovaram esta tarde, em votação na especialidade, na comissão parlamentar de assuntos Constitucionais, o fim do prazo imposto pela lei para casar segunda vez, após um divórcio ou viuvez. A proposta – que resulta de projetos apresentados pelo BE, PS e PAN – teve o voto favorável destes três partidos, assim como do PCP e do PSD. Só o CDS votou contra».

    https://foreveryoung.sapo.pt/vai-ser-possivel-voltar-a-casar-logo-a-seguir-ao-divorcio-acabou-o-prazo-internupcial/

    Viva Portugal!
    Viva o Parlamento!
    Viva o PSD (o partido em que sempre votei, quando votei), que optou pelo bom.senso!
    E viva José Meireles Graça, que proporcionou este delicioso debate aqui no DO!
    (Embora o seu postal fosse sobre outro assunto. Mas todos sabemos: as conversas são como as cerejas…)

    1. “Viva Portugal!
      Viva o Parlamento!”
      Contenta-se com muito pouco. Gostei de muitos dos seu posts mas ficar contente com isto até dar vivas à Pátria é de facto aspirar a muito pouco.
      Não acho mal o que foi aprovado, mas não consigo ver nisso um passo para a igualdade de género.
      Mas se ficou contente, dou-lhe os meus sinceros parabéns.

      1. Obrigada, João Silva.

        É curioso que venha agora “bagatelizar” a questão, depois de se ter dado ao trabalho de tentar justificar a existência de prazos diferentes.

        A igualdade de direitos e oportunidades está prevista na Constituição, mas algumas leis, como se vê, deixam muito a desejar. E como esta caixa de comentários mostra, as mentalidades estão ainda piores do que as leis. Felizmente, as coisas vão avançando. Devagarinho, mas avançando. E cada avanço, como neste caso, é para festejar, sim. Porque, afinal, esta lei obsoleta tinha ainda muitos apoiantes, mulheres incluídas.

    2. Os deputados limitaram-se a eliminar uma proibição legal obsoleta, anacrónica e que, provavelmente, hoje em dia já nunca é utilizada. Ou seja, uma proibição legal inútil.
      Ademais, o casamento é atualmente uma instituição legal ela própria obsoleta e de cada vez menor utilidade. Dentro de poucas décadas, já ninguém se casará.
      Enfim, uma mão cheia de coisa nenhuma.

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