Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (7)


Cristina Torrão,

Batalha de São Mamede.jpg

Batalha de São Mamede. Óleo de Acácio Lino, 1922

 

Hoje, dia de São João Baptista, celebra-se o 891º aniversário da Batalha de São Mamede.

Foi na sequência desta refrega, às portas de Guimarães, que D. Afonso Henriques atingiu a liderança sobre o condado Portucalense. O nosso primeiro rei tinha à volta de vinte anos e estava ainda longe de ser o Conquistador que conhecemos da nossa História. Na verdade, não passava de um jovem inexperiente, mas os barões portucalenses, que repudiavam a influência da família galega de Trava, apoiavam-no em peso. As famílias mais poderosas eram as de Ribadouro (à qual pertencia Egas Moniz), da Maia, de Sousa, de Baião e de Bragança (os Braganções medievais nada têm a ver com a dinastia actual de Bragança).

Não há certezas quanto ao número exacto de guerreiros envolvidos, as fontes, como sempre, são contraditórias. Afonso Henriques estaria, porém, em larga vantagem, pensa-se que teria à volta de seiscentos homens, contra cerca de trezentos do lado de sua mãe.

Apesar de muito contestada no Norte do condado, D. Teresa tinha apoios a sul do Douro, principalmente, em Viseu e Coimbra. O Entre Douro e Minho era, porém, muito mais povoado, possuía mais força de armas. D. Teresa juntou os seus vassalos e demais apoiantes, que incluíam os homens de armas galegos afectos a Fernão e Bermudo Peres de Trava e a Gomes Nunes de Barbosa, os cavaleiros vilãos de Viseu, Coimbra e Seia e alguns nobres, como os de Grijó.

Não penso que, à altura da Batalha de São Mamede, D. Afonso Henriques teria já a intenção de fundar o reino português. Ele teria, sim, receio que nascesse ainda um filho da relação de sua mãe com Fernão Peres de Trava, o que poria a sua herança em perigo. D. Teresa tentou aliás transformar o condado em reino (ela apelidava-se de rainha), mas juntando-o ao território galego. Recordemos que a Galiza tinha já estatuto de reino. Podemos mesmo perguntar-nos se Afonso Henriques teria a mesma intenção, pois, nos cinco anos que se seguiram à Batalha de São Mamede, tentou, por todos os meios, conquistar território galego. Só depois de várias derrotas, ele se virou para as conquistas a Sul.

Derrotada em São Mamede, D. Teresa preferiu o exílio. Morreria cerca de dois anos depois, Herculano refere o dia 1 de Novembro de 1130.

0 comentários em “Efemérides históricas ao tempo da formação de Portugal (7)”

  1. (1) Dona Teresa exilou-se onde?

    (2) É curioso que, segundo este post, já nessa altura terras do interior como Bragança e Seia estivessem integradas no reino de Dona Teresa e participassem na contenda. Eu julgava que Portugal se restringisse à faixa litoral e que a expansão para o interior fosse, de alguma forma, mais tardia. Note-se também que Bragança fica ainda mais para o interior do que o moderno limite da Galiza.

    (3) Que eu saiba, não se sabe concretamente onde teve lugar a batalha de São Mamede; nada nos garante que tivesse sido perto de Guimarães.

    1. (1) É actualmente aceite que D. Teresa se recolheu num mosteiro galego. Já se sentiria doente? Ela morreu cerca de dois anos depois e teria pouco mais de 50 anos. Segundo o livro de óbitos de Santa Cruz de Coimbra, teria por volta de 43 anos (Cassotti 2008), mas parece-me jovem demais, pois, nesse caso, teria à volta de 20 anos, quando nasceu Afonso Henriques, que era o filho mais novo de quatro ou cinco crianças. Segundo Cassotti (2008, p. 213) há referências de que ela estivesse preocupada com o seu estado de saúde, ainda antes de São Mamede. Pensa-se que terá falecido no mosteiro galego de Montederramo, não longe do Bierzo, uma região entre a Galiza e Leão, onde ela terá nascido.

      (2) Os “Braganções” (originários de Bragança) pertencem às cinco grandes famílias ligadas à fundação de Portugal (as outras quatro são: Ribadouro (a família de Egas Moniz), Maia, Sousa e Baião). Note-se, porém, que os “Braganções”, devido à sua localização, variavam na sua lealdade entre Portugal e Leão (acontecia virarem-se para a corte leonesa, caso se sentissem agastados com o rei português). À altura de D. Dinis, esta família estava extinta. É verdade que a grande expansão para o interior começou com D. Sancho I, fundador da Guarda, mas a cidade e a região de Viseu eram já importantes e povoadas muito antes da formação de Portugal (nomeadamente ao tempo do rei leonês D. Ramiro II, que foi lá criado).

      (3) É hoje aceite que a batalha de São Mamede se deu às portas do castelo de Guimarães, embora, de facto, não haja certezas.

      1. morreu cerca de dois anos depois e teria pouco mais de 50 anos

        Se assim foi, então por alturas da batalha de São Mamede ela já estaria na menopausa ou perto dela, pelo que os receios de Afonso Henriques de que ela viesse a ter um filho de Trava seriam ridículos…

        Ou seja, há uma contradição. Ou bem que Afonso não tinha tal receio, ou bem que ela morreu com bem menos de 50 anos.

        1. Bem, tem uma certa razão. Eu alarguei a idade dela, porque não se sabe quando nasceu e há fontes que recuam até fins da década de 1170. Por isso, referi essa hipótese no meu post, sem reparar na contradição. No meu romance, ela nasce em 1083, ou seja, tinha 47 anos à data da morte, 45 à altura da batalha de São Mamede.

          Ela teve uma filha de Fernão Peres de Trava e penso que, para Afonso Henriques, constituía um perigo real o facto de ela ainda vir a ter um filho. O conde de Trava (que era mais novo do que ela) tudo haveria de fazer para que esse seu filho sucedesse à mãe na liderança do condado Portucalense. Não foi a única razão que levou à batalha, mas teria sido um motivo forte. Os barões portucalenses exigiam a abdicação de D. Teresa, ela recusou-se a abdicar e o filho acabou por ficar do lado dos magnates.

  2. Cristina, a familia do Lidador, Gonçalo Mendes da Maia ( familia da Terra da Maia) era de origem árabe, pensando-se o mesmo sobre muitos daqueles que acompanharam o Rei Fundador.

    Deixo aqui uma transcrição da Revista do Departamento Cultural da C.M. da Maia:

    No seu Livro de Linhagens, aliás, o Conde D. Pedro confere particular importância à Família
    da Maia, com honrosas e elogiosas referências. Note-se que D. Pedro Afonso, filho natural de D.
    Dinis, foi o 3º Conde de Barcelos. O seu antecessor, D. Martim Gil de Riba de Vizela, 2º Conde, era
    filho de Gil Martins de Riba de Vizela e sua mulher Maria Anes da Maia – havia que sublinhar esta
    ligação à velha e secular aristocracia portucalense, que os da Maia simbolizavam e personificavam
    conferindo, desta forma, legitimidade e força às novas linhagens emergentes (FERREIRA, 2011). Não
    será por isso surpreendente o esforço de D. Pedro em associar a Linhagem da Maia ao próprio Cid, o
    Campeador (KRUS, 1994)
    Curiosamente, apesar de se tratar de uma linhagem que mistura o sangue mouro e cristão,
    não parece haver no Conde D. Pedro qualquer ressentimento religioso ou cultural quanto a este facto,
    o que leva alguns autores a afirmarem que não restam dúvidas de que o conde convivia bem com a
    ideia de que a linhagem transcendia o credo (MIRANDA e FERREIRA, 2015).

    Para quando um livro que aborde tão polémica questão. A de Portugal ter sido “fundado” por mouros desavindos

    1. De facto, pode ter havido ascendência moura em nobres portucalenses, mas essa questão está ainda por explorar. Os mouros pouco tempo estiveram no Norte do país, mas é curioso que nessa região (nomeadamente em Gaia, na Feira, ao longo do Douro e também em Trás-os-Montes) há inúmeras lendas de mouros e mouras. É natural que, em tempos remotos, houvesse miscigenação (e não esqueçamos os moçárabes, cristãos que viviam em território mouro), mas é realmente um campo pouco ou nada estudado.

      1. Há quem diga que Afonso Henriques era descendente direto do profeta Muhammad, através da sua filha única Fátima.

        Os mouros pouco tempo estiveram no Norte do país, mas é curioso que nessa região há inúmeras lendas de mouros e mouras.

        Há também no Norte imensos nomes de terras começados por A ou Al, que sugerem origem árabe.

  3. Este território foi confiado, já nos finais do século X, ao primeiro varão ilustre de uma longa
    linhagem de homens de armas (os da Maia, a Terra e o Espaço deram o nome à Família) – Alboazar
    Lovesendes – cujo prestígio e influência (era neto de Ramiro II de Leão) levou à fundação da grande
    abadia beneditina de Santo Tirso, verdadeiro panteão e núcleo primordial da construção da Memória da
    Terra da Maia, onde jazem os seus principais representantes, além de ser um importante núcleo de doações
    e de concentração de um património fundiário impressionante (como sempre refere o Professor Aurélio
    de Oliveira “digno de uma verdadeira diocese”, na senda de Frei Leão de São Tomás) e que resultou num
    extenso couto – que abarcava quase todo o atual concelho de Santo Tirso (ainda hoje temos as freguesias
    de Santa Cristina e São Miguel “do Couto”) e localidades vizinhas no vale do Ave e vastas áreas de cultura
    agrícola e prédios urbanos que se estendiam até à região duriense.
    Assim se principiaram a forjar as condições ideais ao desenvolvimento da Terra: estabilidade
    administrativa (com uma Família dominial); assistência espiritual e construção de uma Identidade
    Cultural (através do Mosteiro de Santo Tirso) e unidade estrutural com todas as “forças vivas” da Terra.

    Esta família que andou a la guerra a filhar o Reino de Portugal, expressão do Livro Velho
    de Linhagens (juntamente com Sousas, Baião, Ribadouros e Braganções) – e que, segundo José
    Augusto Pizarro foi a primeira que nos surge dentro do restrito grupo das cinco mais prestigiadas
    (PIZARRO, 1997, vol. 2, 1099) – resultou da curiosa junção de sangue cristão e árabe (Lovesendo Ramires
    e Zayra Ibn Zayda, ou Ortega – nome que adotou quando se “converteu”), sendo uma tentativa de
    conciliação entre primos desavindos, filhos de Abraão e seguidores do Deus de Israel. A esta Família
    perfeitamente mítica na construção da nacionalidade está associada também a Lenda do Castelo de
    Gaia, onde se começa por evidenciar os “pergaminhos” da família:
    Este he a linhagem dos mui nobres e muy honrados ricos-homens, e filhos-dalgo da Maya, em como elles vem
    direitamente do muito alto e mui nobre rey D. Ramiro; e este rey D. Ramiro seve casado com huma rainha, e fege nella
    rey D. Ordonho; e pois lha filhou rey Abencadão que era mouro, e foilha filhar em Salvaterra no logo que chamão Myer:
    entom era rey Ramiro nas Asturias: e quando Abencadão tornou adusea para Gaya, que era seu castello, e quando veo
    rey Ramiro não achou a sa molher e pesoulhe ende muito, e enviou por seu filho D. Ordonho e por seus vassallos, e
    fretou saas naves, e meteuce em ellas, e veyo aportar a Sanhoane da Furada [sublinhados nossos]
    Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, pp. 187-188 (citado em Projecto Vercial)

    1. Obrigada por trazer para aqui este importante documento. Lembro que o conde D. Pedro utilizou, muitas vezes, lendas para explicar as origens das famílias, mas, como sabemos, as lendas têm sempre um fundo de verdade.

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