E então, bate bate coração


Maria Dulce Fernandes,

Não creio que seja novidade para alguém o estado clínico de Iker Casillas, guarda-redes espanhol ao serviço do FC Porto, que sofreu um enfarte agudo do miocárdio durante o treino. Felizmente Casillas está bem, está estável e com o problema cardíaco resolvido, mas outros houve, com o músculo mais debilitado, que não foram tão afortunados.
Algumas situações têm prognóstico muito reservado. Em outras menos graves, recorre-se a pacemakers e ao novíssimo HeartMate3, por exemplo, restando a solução do transplante com compatibilidade comprovada para aqueles casos considerados inviáveis do ponto de vista imunitário.
Um transplante bem sucedido e o paciente poderá viver alguns (vários) anos com o seu novo coração.
Como me foi dado a aprofundar recentemente que “não há comportamento humano que não tenha origem biológica”, poderei inferir que o órgão transplantado poderá ter um comportamento errático, por conflitos de informação no código genético existente no DNA e RNA? O dogma central da biologia sintetizará o código comportamental existente num músculo estranho à sua essência? Será pertinente cogitar que o paciente passaria a viver com dois códigos genéticos distintos, o que o tornaria na mítica quimera?
Claro que Hollywood pensou nisto tudo desde os primórdios, com o monstro de Frankenstein possuidor de um músculo em processo de decomposição reavivado por um desfibrilador trovejante, mais humano do que muito músculo pulsante. Poderemos considerar o transplante do Prometeu Moderno, como o primeiro transplante de coração de que há narrativa, ficcionada que seja, em que o comportamento tem origem biológica, apesar de se focar essencialmente mais na mecânica do que na química do processo da criação.

Menosprezando os muitos entraves e obstáculos que todas as “logias” possam colocar, é legítimo cosiderar que suturar um coração e vê-lo palpitar dentro de um peito clinicamente morto será o primeiro passo para um complexo de Deus?
Cogito ergo sum, ou então não.

0 comentários em “E então, bate bate coração”

    1. É exactamente o que eu queria dizer

      “Another way that chimerism can occur in animals is by organ transplantation, giving one individual tissues that developed from a different genome. For example, transplantation of bone marrow often determines the recipient’s ensuing blood type”

      1. Isso é verdade! Tinha um Professor de Bioquimica que tentava avaliar tudo sobre o ponto de vista quimico. Eu dizia-lhe que não havia Tratado de Quimica que se comparace a um Poema:

        “Amor é fogo que arde sem se ver;
        É ferida que dói, e não se sente;
        É um contentamento descontente;
        É dor que desatina sem doer.

        É um não querer mais que bem querer;
        É um andar solitário entre a gente;
        É nunca contentar-se de contente;
        É um cuidar que se ganha em se perder.

        É querer estar preso por vontade;
        É servir a quem vence, o vencedor;
        É ter com quem nos mata, lealdade.

        Mas como causar pode seu favor
        Nos corações humanos amizade,
        Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

        1. Amor é como um canteiro de erva bem tratado com desvelo e cuidados, que cresce verdejante e pujante, um regalo ver-se.
          Mas se calha passar por ali uma vaca fo…lixa tudo.

          1. Bovinos, não sei. Agora uma cabra também faz lindo serviço, ai lá isso faz.

      1. Sim. Embora os genes activos de uma célula do miocárdio sejam diferentes daqueles de uma célula da derme, por exemplo ( diferenciação celular). Excepto quando não existe ainda diferenciação celular – as chamadas células estaminais multipotentes que podem dar origem a qualquer tipo de célula.

        Aliás em termos genéticos compartilhamos muitos genes com outras espécies animais. Por exemplo o DNA do chimpanzé é 98% semelhante ao humano. A Grande diferença resulta na actividade ( sobreactividade, subactividade) dos genes numa e noutra espécie ( ex: gene “a” é muito mais activo no humano do que o gene “a” no chimpanzé)….

          1. E de qual chimpanzé?
            Se for do bonobo duvido muito que o gene humano seja mais activo, sobretudo, uma vez que se fala aqui dele, dessas coisas do coração.

          2. Umas das caracteristicas curiosas do ser humano é que não sabemos bem o que somos , nem quem somos….a nossa plasticidade comportamental é múltipla….somos capazes de compadecermo-nos com outros animais, humanizá-los, inclusive e até, cúmulo dos cúmulos, somos capazes de acreditar que não somos humanos…Licantropia clinica por exemplo….na volta existe livre arbitrio

          3. Livre arbítrio? Onde é que eu ouvi isso ?
            Ah! é verdade, não existe!
            Somos todos Pavlovianos, de um ou de outro modo…

            Também chegamos ao cúmulo de acreditar que somos humanos e isso é bem pior

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