Reformismo e revolução


Pedro Correia,

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O Bloco – bloqueado como nunca – acaba de sofrer uma dolorosa deserção em massa de 26 militantes,  claramente descontentes com a capitulação do partido fundado em 1999 por Francisco Louçã, Miguel Portas e Luís Fazenda face ao reformismo austeritário capitaneado por António Costa e pelo seu imediato Mário Centeno. Entre estes dissidentes inclui-se gente que fez parte do núcleo fundador, designadamente dois irmãos de Louçã, agora conselheiro de Estado e membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal, além de detentor de uma apreciada cátedra senatorial como comentador na privadíssima SIC Notícias.

Na óptica da chamada “verdadeira esquerda”, os socialistas são meros gestores do sistema existente. Ora a energia revolucionária, erigida em “locomotiva da história”, não se destina a gerir o sistema: ambiciona transformá-lo para cumprir as profecias contidas no evangelho de Marx. Acontece que Costa anestesiou os partidos revolucionários, aproximando-os do inevitável embate contra a parede: o Bloco, partido sem trabalhadores, transformou-se na sucursal social-chique do PS; o PCP, ao aprovar quatro orçamentos do Estado que validavam a moeda única, a disciplina orçamental e o pacto de estabilidade, descaracterizou-se como partido de raiz revolucionária. As consequências estão à vista, desde logo no plano sindical: algumas das áreas mais reivindicativas, dos estivadores aos enfermeiros, são hoje lideradas por sindicalistas autónomos da estratégia do partido da foice e do martelo e divorciados da sua sucursal obreirista, a CGTP.

Eis, prestes a concluir-se, a missão histórica do menchevista Costa, completando-se em 2015 o que Mário Soares – seu principal mentor ideológico – iniciara em 1975: os bolcheviques lusitanos estão quase a passar de vez à história. As eleições autárquicas de 2017, confirmando a total irrelevância do BE e o maior recuo de sempre do PCP ao nível do poder local, confirmaram esta tendência. Que isto ocorra no momento em que o País ainda é governado por uma “geringonça”, fruto de um pacto celebrado entre os socialistas e os seus outrora ferozes opositores ancorados na margem esquerda, é uma daquelas ironias em que o destino dos sistemas políticos costuma ser fértil.

Compreendo que Costa, até devido aos seus antecedentes familiares, mergulhe episodicamente numa certa melancolia por lhe caber cumprir este desígnio histórico, que só peca por tardio – autêntico anacronismo ainda vigente em território europeu. Resta-lhe esta certeza: se não fosse ele, outro o levaria à prática. Não fazia o menor sentido as forças mais extremas da proclamada esquerda manterem cativo cerca de um quinto do eleitorado português, como aconteceu até Outubro de 2015, quando Bloco e PCP somaram 18,44% nas legislativas.

Nada ficará na mesma mal caia o pano sobre estas legislativas.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

0 comentários em “Reformismo e revolução”

    1. Segui o link e gostei. Creio que refere blogues tipo Blasfémias no seu modo de operar, só se pode dizer que sim ou ser cortado. É por isso que gosto do Delito, desde que se mantenha a civilidade pode-se discordar. Até há o Luís Lavoura, com direito a distinção honorífica. Que mais se pode pedir?

        1. “The man of the future will be of mixed race. Today’s races and classes will gradually disappear owing to the vanishing of space, time, and prejudice. The Eurasian-Negroid race of the future, similar in its appearance to the Ancient Egyptians, will replace the diversity of peoples with a diversity of individuals. […]”

          (R. Coudenhove-Kalergi, Practical Idealism, 1925)

          https://www.youtube.com/watch?v=hw5u883ypg4

          https://www.youtube.com/watch?v=twc_0a2nOWY

          1. “The Charlemagne Prize (German: Karlspreis; full name originally Internationaler Karlspreis der Stadt Aachen, International Charlemagne Prize of the City of Aachen, since 1988 Internationaler Karlspreis zu Aachen, International Charlemagne Prize of Aachen) is a prize awarded for work done in the service of European unification.

            […]

            The first Charlemagne Prize was awarded to Richard von Coudenhove-Kalergi, the founder of the Pan-European Movement.”

            ( https://en.wikipedia.org/wiki/Charlemagne_Prize )

  1. A minha opinião é a de que começa a ser tempo das pessoas, e dos políticos em particular, tomarem consciência de que a criação de partidos na mesma proporção das gotas da chuva, é contraproducente para um povo que a breve trecho contará com um partido político por habitante.
    Se não se vir ultrapassado. Que indícios prometedores o asseguram.

    1. Penso que na Holanda existem 15. É necessário acabar com a dependência dos países, dos mercados financeiros mais dos Bancos Centrais Estrangeiros. Mas isso é impossivel – taxas de juro baixas/rentabilidade bancária miserável, diminuição do poder de compra, independentemente do valor falicioso da inflação, desemprego/ precariedade, desmantelamento do Estado Social….enfim dependência dos povos e países de Corporações Internacionais não representativas/democráticas

      As regras do jogo foram aceites pelos partidos que escolhemos. Não existe alternativa que não seja a permacultura

      1. A sério?! Existem quinze? Não sabia.
        Ora considerando os níveis socioeconómico, cultural e civilizacional desse país por comparabilidade com o nosso, acho que a exemplo do futebol que se emprestam jogadores a outras equipas para evoluírem a fim de num futuro trazerem mais valias aos clubes emprestadores, também se podia mandar para lá a nossa classe política em peso e depois ir resgatá-la para nosso proveito.
        Provavelmente nem todos regressariam iluminados, mas pelo menos mais esclarecidos regressavam com certeza.

          1. Quero que a senhora Madonna Louise Veronica Ciccone vá para longe, mais o filho benfiquista.
            Mas voto já na Monica Bellucci para minha (nossa) compatriota.

          2. há décadas que digo (desde o consulado de Guterres, julgo) que Portugal precisa – e sou sportinguista – de contratar um Eriksson (e um Filipovic, dizia eu também) para a política. Dado que não é país (não é gente) grande o suficiente para ser governado por um Allison.

          3. Isso dá um pensamento da semana. Sugestão: fica já reservado para a próxima. Terá certamente muitos comentários. A favor e contra, como se pretende.

          4. hum, em era geológica de Scolari e em consulado de Fernando Santos pouco eco teria tamanha proposta

  2. Louçã, detentor de uma apreciada cátedra senatorial

    Louçã é, isso sim, detentor de uma cátedra universitária, ou seja, é um doutorado e professor universitário, julgo que catedrático.

  3. algumas das áreas mais reivindicativas, dos estivadores aos enfermeiros, são hoje lideradas por sindicalistas autónomos da estratégia do partido da foice e do martelo

    Os enfermeiros, em compensação, são liderados por uma sindicalista-bastonária nada autónoma em relação ao PSD.

  4. Entretanto com um sistema eleitoral manipulado de raiz, os partidos do regime continuam a apropriar-se fraudulentamente de mais de 50% de eleitores que nem se apresentam nas mesas de voto.
    Nessa conformidade a representação parlamentar para ser honesta devia preencher apenas cerca de metade das cadeiras.
    A legitimidade democrática tal como não obriga ninguém a ir votar, também não deve conferir o direito de fazer as contas escondendo apagões maiores que a ofuscada. transparência.

    1. O pior é sabermos que os cadernos eleitorais estão cheios de pessoas mortas e nem assim os partidos se entendem para dar baixa dessa gente que já cá não está.
      O que altera desde logo, substancialmente, os números reais da abstenção eleitoral.

      1. Abstenção como voto presencial validamente expresso seria uma solução da maior fluência e limpidez, mas que constituiria denso e intragável problema para a sofreguidão dos empanturramentos instalados no comedor.

        1. Nem pensar.
          Ainda agora os juízes acabam de ser largamente beneficiados, excedendo o salário do Presidente da República como tecto de referência.
          https://www.jn.pt/justica/interior/salario-de-juizes-acima-do-primeiro-ministro-repoe-remuneracao-a-que-ja-tinham-direito-10756263.html

          400 magistrados dos dois supremos tribunais, dos tribunais da Relação e do Tribunal Constitucional – mais as respectivas famílias. Em ano eleitoral, cada potencial voto conta.

  5. Quem guiará o proletariado das Artes e Letras até à vitória final?
    Que Jijek imporá o realismo socialista?
    Está orfã e viúva a frente cultural.

  6. Não tendo a mínima noção do que preparava, só pensando na sua sobrevivência política, António Costa alterou o paradigma político nacional, tornou-o mais estável, governos minoritários liderados pelo partido vencedor não serão facilmente aceites, agora só serão admitidas “geringonças”, em nome da estabilidade. O que irá acontecer após as próximas legislativas? O PCP está a implodir, já é visível o “delito de opinião”, aprovou 4 orçamentos de “moeda única”, vai pagar caro, será o novo “partido do táxi”. Mas os votos que o PCP perde ficam na esquerda. O BE vai perder uma franja eleitoral, “pensionistas de elevados rendimentos e familiares”, ressabiados com Passos Coelho, votaram BE. Conheço vários. Até que ponto será a transferência líquida de votos entre PS e BE favorável a este? Quem será o canibal?. O PS vai ganhar, os portugueses são a favor dos favorecimentos familiares quanto toca aos seus, nos outros são absolutamente contra! O PS é apenas o “reflexo” da sociedade portuguesa, e por não ter vergonha na cara, obrigar o Tuga a encarar com verdade o seu reflexo, vai ficar longe da maioria absoluta. Punição merecida. Deus escreve direito por linhas tortas. O CDS vai marcar passo, o arroz de atum de Assunção Cristas é demasiado plebeu. Do PSD não posso falar, Rui Rio ainda não foi convidado (ou não acedeu ao convite) para a “Casa da Cristina”. Os novos partidos liberais terão expressão eleitoral? Parece complicado? Vai ser tudo muito simples: o PS ganha e o PSD vai ser a sua nova muleta. Desejo profundamente que tenham o mesmo fim dos amantes malditos de “Duelo ao Sol” (o descalabro económico forçará este final) e que a “flor a nascer” no local do duelo, não seja um cravo, nem uma rosa. Portugal precisa de mudar de flores.

    1. MARCELO E COSTA CAMPEÕES EM TITULO
      A esta gente tão fixada na propaganda enganosa não lhe sobra tempo para um exercício de funções sério sem manhas.
      A melhor memória do presidente sempre aparecido, para não ir mais longe, fica-se pelo inventor de factos políticos.
      Na do nosso 1º empestado pesa a qualidade de dedicado serventuário de Sócrates, enquanto o anestésico comandante supremo continua a ver o melhor do melhor dos mundos com o fogo do palheiro a avançar em várias frentes sem que as barbas lhe ardam.
      Planador e nosso típico gajo porreiro, verborreico e superficial por atavismo mórbido não nos deslustra na sua representação grotesca.
      Se querem povo venham ao meu bairro na margem sul ajudar pobres a apanhar beatas do chão ou estender com eles a mão nos passeios pedindo esmola.
      Venham cá que eu mostro para evitar acusações de especulação.
      Com o passe que ostentaram no dia das mentiras podem vir de barco ou comboio.
      Fica-me a curiosidade se o titulo para facilidade de deslocação serve para todo o serviço ou apenas para viagens pessoais e quem os pagou.
      Nada de infantilidades.
      Com o patrocínio de um pasmado presidente, um caloroso adoçar da curvada comunicação social, e da nossa ajoelhada roda de sombras, o Costa dos engodos convenceu-se mesmo que pode fazer tudo o que lhe der na real gana sem ninguém lhe gritar aos ouvidos com voz poderosa, em sentido!

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