A culpa foi do Bill Clinton


Pedro Correia,

3600[1].jpg

Alan Arkin e Michael Douglas em O Método Kominsky

 

É o regresso em grande estilo de Michael Douglas à televisão – o meio que o tornou célebre junto do grande público, na década de 70, com uma série de âmbito policial que deixou rasto: As Ruas de São Francisco, contracenando com o grande Karl Malden, intérprete de Um Eléctrico Chamado Desejo no palco e na tela.

O filho de Kirk Douglas – lenda viva do cinema, com 102 anos – surge agora como produtor executivo e principal intéprete da novidade mais original desta temporada televisiva: O Método Kominsky, mini-série de oito episódios, cada qual com cerca de meia hora de duração, em exibição exclusiva para os assinantes da Netflix.

Aqui não há perseguições de automóveis, cenas de tiros ou piadas escatológicas: estamos precisamente na margem oposta à que conduz ao consumo de pipocas em larga escala. O Método Kominsky vive de inteligentes e subtis modulações de texto em torno da velhice e da decadência física a ela associada, numa linha de fronteira ténue entre o drama e a comédia sem nunca excluir a ironia – incluindo a depreciação auto-irónica do protagonista, que alude a todo o momento aos achaques da idade.

 

Douglas (74 anos) e o veteraníssimo Alan Arkin (84 anos), galardoado com um Óscar em 2007 pelo seu desempenho na irresistível comédia Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos, compõem um fabuloso par de resistentes à nova vaga das produções em série de Hollywood, bem espelhada na letra e no espírito da série. O primeiro, Sandy Kominsky, já foi actor renomado, agora ganha a vida como professor de teatro; o segundo, Norman Newlander, é um produtor à moda antiga, inadaptado às tendências actuais – incluindo a febre tecnológica. São os melhores amigos um do outro, embora com feitios e hábitos muito diferentes e a convicção de que os melhores tempos da arte de representar nos EUA e da própria sociedade norte-americana já ficaram há muito para trás.

«A culpa é do Bill Clinton. Quando o sexo oral deixou de ser sexo, a nossa civilização acabou», conclui um deles. O outro concorda.

 

Estreada em Novembro e polvilhada de divertidas aparições de vedetas convidadas (Jay Leno, Patti LaBelle, Danny de Vito, Ann-Margret, Elliott Gould), esta série concebida pelo conceituado produtor e argumentista Chuck Lorre vive sobretudo de excelentes diálogos. Segue um exemplo.

Norman, viúvo recente, conversa ao telefone com o amigo.

«- Já está. Almocei com outra mulher.

– Seu sacana! De que falaram?

– Do costume. Mulheres mortas, maridos mortos, amigos mortos. Foi muito agradável.»

Fala-se de coisas frívolas com ar sério, fala-se de coisas sérias com um sorriso nostálgico naqueles rostos que já viram quase tudo. Mas a vontade de passar o testemunho às gerações mais jovens não se extinguiu. Como ensina o professor Kominsky nas suas aulas, «devem sempre prestar atenção ao que se passa na vossa vida para viverem os sentimentos que surgirem, por mais dolorosos que sejam, pois esse desgosto, essa dor impiedosa, é matéria em bruto, é o ouro que o actor explora para criar os melhores desempenhos.»

A representação é uma extensão da vida – em qualquer idade. Não é segredo para Michael Douglas: seria difícil dizer melhor.

 

…………………………………………………….

O Método Kominsky, primeira temporada (2018). Com Michael Douglas, Alan Arkin, Nancy Travis, Sarah Baker. Na Netflix.

Cada temporada tem oito episódios.

0 comentários em “A culpa foi do Bill Clinton”

    1. Com 74 anos anos as pessoas ainda podem e devem viver a vida .
      Sei que é difícil para algumas pessoas entender que trabalhar também é viver .

      Luis Almeida

  1. Gostei muito desta série, Pedro. Até escrevi sobre ela.
    Entre outras palavras, encontravam-se estas: “tem todo o choque que o envelhecimento nos provoca: a perda da pessoa da nossa vida, o trabalho que desaparece, as doenças e a total inexistência de sentido para cá continuarmos. E tem também e sempre a amizade. Fala muito sobre amizade.”
    Numa aparente ligeireza, somos golpeados, cena após cena, pelo que o futuro – se tudo correr bem – nos reserva.
    Recomendo muito.

    1. Concordo em absoluto, Catarina. Hoje somos bombardeados com efeitos especiais, super-heróis, gente plastificada e robotizada, “inteligência artificial”. Gosto de ver séries com bons diálogos, com gente de carne e osso, e que seja capaz de nos falar das questões simples da vida. Que são sempre as mais importantes.

      1. Amei a série, Pedro. A realidade da vida, embrulhada em ironia inteligente. Diálogos irresistíveis, num tom certíssimo, balançando entre a vontade de ceder ao sentimento e o o sarcasmo auto-defensivo, acabando, sempre, numa moldura de humanidade. Michael Douglas, fazendo jus ao grande actor que é.

  2. Tambem eu sou fa desta serie absolutamente brilhante. Nao consigo evitar uma gargalhada quando penso no episodio do enterro da mulher de norman. Sao raras as series com dialogos inteligentes e humor subtil, mas esta consegue-o na perfeicao.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *