![71-137249642--null--04-09-2018-15-45-27-549-[1].jp 71-137249642--null--04-09-2018-15-45-27-549-[1].jp](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2019/21383616_g3rzP.jpeg)
PRISIONEIRO DA FAMA
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Certos realizadores alcançam merecida celebridade com um só filme e ficam a partir daí reféns desse êxito, tornando-se incapazes de conseguir uma obra ao nível da inicial. É o que parece estar a acontecer com o alemão Florian Henckel von Donnersmarck, autor de uma das melhores longas-metragens deste século, o incomparável A Vida dos Outros, centrado na sinistra omnipresença da polícia política no quotidiano totalitário da antiga República “Democrática” Alemã.
Depois daquele filme que lhe rendeu o Óscar de 2006 para melhor película não falada em inglês, Von Donnersmarck esteve quatro anos sem trabalhar, rompendo o silêncio com uma indigente fita de pseudo-acção intitulada O Turista, que se resumia a uma colecção de trepidantes bilhetes-postais com Angelina Jolie em pose permanente para capa de revista. Seguiu-se um intervalo ainda maior: regressa agora, oito anos depois, com um thriller psicológico que nos faz regressar novamente a tempos sinistros – iniciados em 1937, no apogeu do nazismo, em Dresden, arrasada pela aviação aliada em 1945; depois entre as ruínas desta cidade que lentamente se ergueu das cinzas, sob o domínio soviético. Tanto os esbirros de Hitler como os de Estaline condenavam a “arte degenerada” que seduzia Kurt Barnert, jovem candidato a pintor. Em 1961, poucas semanas antes de ter sido levantado o Muro de Berlim, Kurt consegue enfim fugir para a Alemanha Ocidental e estudar fora dos cânones do “realismo socialista”, na libérrima academia de Düsseldorf.
Filme bem-sucedido? Não: um filme falhado. Prisioneiro da fama, o realizador comporta-se como um daqueles cozinheiros com falta de noção das proporções, que acabam de meter demasiados ingredientes na panela, pecando por excesso e condenando os comensais à obesidade. Nestas três horas de exibição caberiam três filmes: o primeiro, e mais interessante, desenrolado na Alemanha hitleriana, centrado na relação entre o pequeno Kurt e a sua tia antinazi (papel desempenhado pela deslumbrante Saskia Rosendahl); o segundo, com interesse mediano, em que o vemos atingir a maioridade nos anos de chumbo da ocupação soviética, tendo por sogro um sinistro médico do III Reich convertido ao comunismo; o terceiro, manifestamente falhado, já em solo livre, entre 1961 e 1966.
Desta amálgama resulta uma evidência: Von Donnersmarck foi incapaz de de editar o seu próprio filme, eliminando as cenas redundantes e desnecessárias. Sentiu talvez que teria entre mãos algo equivalente a um épico – e a verdade é que alcançou nomeações para o Globo de Ouro e o Óscar de Hollywood em língua não-inglesa. Mas Nunca Deixes de Olhar está muito longe de ser um novo Doutor Jivago – e não é David Lean quem quer.
Uma referência ainda ao medíocre título português, inspirado no da versão norte-americana (“Never Look Away”). Nada a ver com “Werk ohne Autor”, título de origem, que deveria ter sido traduzido por “Obra Sem Autor”.
Nunca Deixes de Olhar. Título original: Werk ohne Autor. Produção alemã (2018). De Florian Henckel von Donnersmarck. Com Tom Schilling, Sebastian Koch, Paula Beer, Saskia Rosendahl, Oliver Masucci, Cai Cohrs, Ina Weisse.
Duração: 189 minutos.

Pelo que mostrou, e descontando o que li, até me parece ser um dos filmes de que gosto. Outro filme de que gostei bastante foi sunshine (suponho) e conta a história de três gerações dentro da mesma família, guerras pelo meio. Sunshine suponho que era o nome de um vinho ou alguma coisa que a família produziu e a levou ao sucesso.
Esse filme que menciona já é de 2006: ‘Little Miss Sunshine’, realizado por Jonathan Dayton e Valerie Faris.
Um filme que em português se chamou ‘Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos’. Muito bom. Proporcionou o Óscar de melhor actor secundário ao veterano Alan Arkin. Com inteira justiça.
Peço desculpa pela resposta fora de tempo, aí uns dois anos, mas esse filme de que fala, sunshine, é seguramente este, com Ralph Fiennes a fazer 3 papeis de 3 gerações diferentes (onde também entram o nazismo e o comunismo posterior): https://en.wikipedia.org/wiki/Sunsh ine_(1999_film)
Gosto muito de filmes indies, feitos com orçamentos caseiros. Coherence, The Endless, Primer, The Babadook, The Blair Witch Project, por aí. São todos primeiros filmes. O segundo é mais complicado. Há directores que não se dão bem com grandes orçamentos. Patty Jenkins conseguiu saltar do Monster para o Wonder Woman, nem todos conseguem. Ainda não vi A Vida Dos Outros, mas é geralmente bem considerado. E agora fiquei curioso.
‘A Vida dos Outros’ é uma obra-prima. Do cinema alemão, do cinema europeu, do cinema mundial.
A ver, sem dúvida. E a rever, sempre.
Qualquer coisa com a Angelina Jolie lá dentro é irrelevante.
António Guterres certamente discorda.
Ahahah já nem me lembrava desse magnífico corolário — dessa luz preta no vazio mais escuro — para fechar a minha tese numa bola de certeza.
A Angelina Jolie fez o “The Tourist”, sim, mas também fez dois filmes que estão muito longe de ser irrelevantes: “Changeling” e “Girl, Interrupted”. Este deu-lhe um Óscar muito merecido.
No primeiro, sobretudo – uma das obras-primas de Clint Eastwood – tem um papel de antologia. Absolutamente inesquecível.