«Compreender o mundo é olhá-lo desligado dos nossos sentimentos.»
Susan Sontag, in Renascer
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana
«Compreender o mundo é olhá-lo desligado dos nossos sentimentos.»
Susan Sontag, in Renascer
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana
Portanto, apenas aos psicopatas está destinada a compreensão do mundo. Ai, Susana…que queimas o cozido.
Já agora, como se desligam os sentimentos? No botão da esquerda ou da direita?
Susan Sontag não faz propriamente uma afirmação, antes propõe uma reflexão sobre os limites da razão e do sentimento, pelo menos na leitura que faço do que ela escreveu.
Em verdade lhe digo. As coisas maiores da alma humana, ou da graça sobrehumana, compreendem-se sem entendimento. Assim podemos compreender sem entender, mas nunca Saber sem compreender.
Sabe do que lhe falo?
https://youtu.be/lCp21FHKnOc
Bom, penso que sim, penso até que estou perante um caso prático: percebo-o sem o entender.
Pura ilusão. A insenção de envolvimento é um paradoxo já que é todo um processo de envolvência que supostamente nos confere a capacidade do entendimento imparcial.
Não vou fora disso, Maria Dulce. Li no entanto o que Susan Sontag escreveu como se a questão nunca me tivesse ocorrido: com o enorme poder da dúvida. E achei que nalgum momento do meu passado percebi melhor alguma coisa olhando sem envolvência, sem contaminação.
[Ou pelo menos com a menor envolvência possível.]
Podemos entender sem sentimento,
mas nunca compreender. Compreender é como um entendimento sentido.
A Razão permite- nos entender o significante da palavra Amor. Mas para compreendermos o significado do Amor é necessário ter-se amado.
O Mundo geológico percebe-se sem sentimento, mas não o Planeta Humano.
Este seu comentário está enfim mais seco que o anterior e perto do caroço da questão; Susan Sontag pretende a meu ver distinguir compreensão (razão) da actuação, sendo que o gatilho desta envolve necessariamente o sentimento. Pegando no seu exemplo podemos discutir racionalmente o amor mas não é isso que nos leva a amar.
As Ideias sobre o Mundo são racionalizações dos nossos sentimentos.
Seja ou não como diz, olhar o mundo se possível sem ciscos nos olhos e nevoeiro pelo meio parece-me uma boa proposta.
O tamanho do cisco depende do tamanho do preconceito
É verdade.
Isso é uma distopia. Felizmente impossível.
Tire lá a “distopia” da questão para podermos olhar para ela sem cortinas. Susan Sontag sabia certamente quando propôs esta reflexão que compreensão e sentimento andam de mãos dadas, que os seres humanos não vieram de planetas destemperados, não são Spocks. Quis porventura – porventura! – distinguir o olhar do meteorologista do gozo de um ocaso sentido como um poema.
Como eu gostava de escrever com esta precisão , lógica , enfim- com esta sabedoria …
Pelo contrário, seria impossível compreender o mundo desligado dos nossos sentimentos.
Sem sentimento, grosso modo, o mundo nem sequer passaria do estado de uma energia pura.
Atração, repulsa, relação… não haveria mundo sem elas.
João de Brito
É simples. Claro que não podemos observar o mundo abstraindo completamente os nossos sentimentos do olhar com que o observamos. Isso é uma evidência. Mas também é evidente que a parte do mundo que nos é exterior, quase todo ele, existe e evolui independentemente de nós. Um primeiro passo para tentar compreender o mundo é reconhecer e ter isto presente. No entretanto, os sentimentos não se evaporam, nem ficam congelados, podemos ficar descansados.
Estou muito de acordo, Miguel. Muito. Não sei no entanto se é tão simples assim. Os sentimentos nunca estão presentes num juízo que se pretende todo ele lógico?
Se me permitem. No “nosso” juízo procuramos mais não perder a “razão” do que encontrar a verdade. Talvez um computador consiga um juízo puramente matemático, ou talvez com o passar do tempo enviese-se em beneficio dos seus “irmãos” – sinal de consciência de grupo
Estou de acordo, Pedro. É por esse motivo que penso que nalguma medida os sentimentos actuam nos nossos juízos. Não sei é em que medida.
Fernando, se me permite, há toda uma nova área de investigação nesse sentido (Neurobiologia). Por exemplo, António Damásio e a sua Teoria do Marcadores Somáticos na Formação de Decisões, e Robert Sapolsky. Recomendo vivamente o seu ultimo livro – Comportamento:
https://www.wook.pt/livro/comportam ento-robert-m-sapolsky/21685514
Obrigado, Pedro. Vou fazer o impossível para me pôr a par.
Se bem que, Pedro, tanto quanto o Público, penso que foi o Público, escreveu então sobre a tese de Damásio, ele debruçou-se mais sobre as emoções não sobre os sentimentos. De todo o modo vou ver.
Sim, mas presumo que todo o sentimento se faça acompanhar de uma emoção – ex: a repulsa do sentimento moral (justiça vs injustiça) deriva da mesma estrutura cerebral (insula do córtex cerebral) responsável pela repulsa emocional (ex: nojo por algo repulsivo, pelo seu cheiro, aspecto visual, etc)….quando sentimos nojo perante uma imoralidade activamos a mesma área cerebral responsável pelo cheiro de algo repugnante – por isso sentimos, fisicamente (por vezes ficamos até nauseados) a repugnância da imoralidade.
Exemplo pessoal:
Recentemente quase vomitava para cima de um admirador do fascismo/ditaduras.
LOL! Pena não ter vomitado, Pedro. Talvez não tivesse provado que sentimentos, e eventualmente também as emoções, não ajudem a compreender o mundo mas que têm certamente consequências.
“Recentemente quase vomitava para cima de um admirador do fascismo/ditaduras.”
Mas ainda não vomitou para cima da nossa Constituição? caminha para o Socialismo…
Consigo fico um adormecido, sem sono.
Adenda. É o mundo que está desligado dos nossos sentimentos, não somos nós.
[Muito bem outra vez]
Somos nós que fazemos o mundo. Somos nós que damos um determinado valor aos sentimento. Moisés já não é o comandante
O Mundo é a ideia que nós queremos que ele tenha.
concordo, embora o sentimento possa dar uma compreensão mais profunda e até diversa, também pode prejudicar um juízo que se quer objectivo, ou o mais objectivo possível. Diz-se que ser juíz em causa própria não é o melhor e existem profissões que o proíbem.
Certo, Bea. A certa altura o melhor é não termos uma opinião fechada sobre a proposta da Susan.
Traduziria esta frase antes por “Perceber o mundo é olhá-lo desligado dos nossos sentimentos”.
Porque perceber exige a razão, a crueza de ver para lá do que sentimos sobre o que vemos – exige força, (tentar) arredar a cortina.
Já compreender significa abarcar, abraçar – e se a mente pode tentar voar a direito, o abraço é redondo e é carne: doem-lhe as arestas. Muito menos compreendemos o que nos é indiferente.
Compreender, perceber, entender… A certa altura qualquer dos recursos não dispensa a razão, em maior ou menor grau. E a julgar pelo grosso dos comentários esta também não respira sem o sentimento – em maior ou menor grau.
Não dispensa, de todo – nem pode, somos animais: racionalizamos os sentimentos, educamos as emoções, ressentimo-nos quando nos percebem mal 🙂
Só do lado de fora se compreende inteiramente o mundo de dentro.
A vida não será em vão se, em algum momento, sair do que está cá dentro.
Mas desligar dos sentimentos também é filtrar informação que pode ajudar.
A intuição não incluí sentimento?
Tenho muito mais confiança no meu raciocínio lógico do que na minha intuição, se bem que aceite que de alguma maneira esta pode ajudar à tomada de uma decisão. Mas isto é só o que eu penso.
Fernando, as grandes descobertas usam sempre a razão de uma intuição, desafiadora das lógicas da razão.
Nunca fiz nenhuma grande descoberta (que me lembre) mas aceito sem dificuldade como penso que deixei dito (provavelmente não fui claro) que nalguma medida a intuição intervém numa decisão – ou descoberta.
Isso é porque é solteiro.
Sim mas o raciocínio lógico implica também que tenhamos toda a informação necessária . Ou julgarmos que a temos. Que é outra decisão dentro da decisão.
A maior parte das vezes isso não acontece.
Muitas vezes isso não acontece, de facto. Não pode é dizer que a maior parte das vezes isso não acontece.
Não, como então vamos discutir qual o melhor vinho com raciocínio lógico ? 🙂
A Tinta-Roriz, a Touriga-Nacional e a Tinta-Barroca, casadas, dão frequentemente um bom Douro; é então provável que a Cova do Monte, Reserva, me faça hoje boa companhia ao almoço. Poderei no entanto sofrer algum imponderável.
Boa inimigo do óptimo(melhor)…mas não deixa de ser uma fuga.
Eu diria antes: “Sentimento da semana”.