Sentindo-se vigiado, eventualmente pelo Governo, Cavaco Silva foi apanhado com a boca na botija a tentar resolver o assunto através da pequena intriga jornalística. A sua declaração de ontem mais não foi do que a desesperada tentativa de fazer sobressair as suas desconfianças e de camuflar a desastrada e pouco digna forma como procurou fazer-lhes face. Vitimizar-se, no fundo. E dizer-se cercado pelo Governo.
Sendo impossível escapar à querela institucional com o Governo, a vitimização de Cavaco Silva poderia, apesar de tudo, servir-lhe para arregimentar numa qualquer indignada vaga de fundo o eleitorado de direita que nele votou e que ainda não digeriu bem a reeleição de Sócrates. Acontece que Cavaco Silva foi precisamente um dos artífices da vitória de José Sócrates e o PSD é, neste momento, o último partido com vontade de manifestar comiseração pelo cerco feito pelo Governo ao Presidente.
A declaração de Cavaco Silva teve, por isso, um efeito contrário ao pretendido. Alargou a vitória de José Sócrates e reduziu em muito a margem de manobra de uma oposição que poderia e deveria continuar a insistir no espírito controleiro do governo socialista, levando de caminho a credibilidade de um jornal que cometeu o erro de acreditar que a Presidência jamais poderia estar a meter-se na pequena intriga. O que não deixa de ser irónico, uma vez que, tanto quanto posso adivinhar, o Presidente considera mesmo que o Governo andou a vigiar a Presidência.
A Cavaco Silva resta aproveitar a lição e, desta vez com tino e rigor, colocar a circular um bom e insuspeito motivo para não voltar a candidatar-se à Presidência.

Depois do absurdo, do não momento televisivo de ontem, não há tino ou rigor que possam ajudá-lo a retocar a imagem.
Concordo, Sérgio, mas quanto ao resto a análise do Adolfo está muito correcta.
“Cavaco Silva foi precisamente um dos artífices da vitória de José Sócrates”
Não vejo qualquer fundamento para esta tese.
Há que ter em conta que a imensa maior parte dos portugueses não presta pevas de atenção à pequena intriga política, não lê jornais, e está-se nas tintas para essas tricas que, a nós, nos entretêm.
Portanto, a imensa maioria do povo português, ao votar, esteve-se nas tintas esta história das escutas. Isto é uma história do “país político”, à qual o “país real” bem pouca atenção terá dado.
A derrota do PSD fica a dever-se a razões que são exclusivamente culpa desse próprio partido – uma líder claramente demasiado velha e que claramente não é de confiança, uma orientação política obscura, propostas indistintas, etc – e que nada têm a ver com a atuação de Cavaco SIlva.
Caro Luís, sendo um facto que o país eleitoral vive alheado das questões que interessam ao país político, a verdade é que é o país político que filtra a realidade que é dada a ver ao país real.
É por isso que questões como a candidatura de António Preto, as contradições quanto à asfixia na Madeira ou a colagem à escutas presidenciais, sendo indiferentes aos eleitores, a eles chegaram através da súbita travagem do entusiasmo jornalístico com o PSD pós-europeias e com o constante desviar da camoanha e da mensagem para estas questões.
Cavaco deu a machadada final, percebe-se hoje que desnecessariamente, na única mensagem constante de MFL: há asfizia democrática em Portugal.
Concordo contigo quando referes que a declaração de Cavaco aumenta a margem de manobra de Sócrates e condiciona a da oposição (sobretudo a oposição à direita). Mais: se a declaração de ontem tivesse sido feita antes das legislativas, a percentagem obtida pelo PS seria maior. O PR enredou-se na sua própria teia e não se vislumbra como poderá sair dela.
Por isso mesmo é que acho que o senhor foi mesmo apanhado com a boca na botija. A virulência por ele demonstrada ontem teria sido canalizada para desmascarar qualquer urdidura à volta da eventual falsidade de ter sido ele a desencadear tudo isto.
O que é mais triste é pensar que, daqui a dois anos, nada disto será recordado e o Cavaco vai ser reeleito.
É só ver o que faz as gentes do PSD quando Cavaco os trai (e já vai, pelo menos, na terceira traição: 1ª – Fernando Nogueira; 2ª – Santana Lopes): dizem cobras e lagartos dele, chamam-lhes nomes mesmo feios, chamam-lhe “Sr. Silva”, declaram o seu ódio e o divórcio para todo o sempre – para depois, chegada a hora, clamam todos pelo Cavaco como sendo o maioral de todo o sempre. O Cavaco vai ser reeleito, o que é muito triste…
Caro AMN,
Quanto tocar aos teus (vide, notícias sobre os submarinos que vão aumentar de tom nos próximos tempos), a resposta será diferente. E é esse o problema: cada um cuidar do seu quintal.
Um abraço,
Como assim?