Solto por ter cão, solto por não ter


jpt,

img_757x498$2017_12_02_11_37_18_689684.jpg

  

Em Junho de 2017 houve o incêndio de Pedrógão Grande, mais de 60 mortos. Todos se lembrarão dos dias imediatos: Costa ripostou “não me faça rir” ao jornalista que lhe perguntou se haveria responsabilidade governamental no drama. E foi de férias. Pouco tempo depois a ministra da tutela queixava-se que não tinha ido de férias. A ideia geral nos apoiantes do governo era a de que este não tinha qualquer responsabilidade no acontecido: no próprio dia inicial do incêndio os serviços estatais identificaram a causa, uma coisa chamada “downburst”. Nesse mesmo dia, regressando de férias, a jornalista Fernanda Câncio resumia o acontecido a efeitos climatéricos. Dois dias depois, e completamente ao invés do que acabara de dizer sobre um terrível incêndio londrino, a historiadora Pimentel também reduzia o acontecido a efeitos do clima. As hostes apoiantes afadigavam-se a criticar a demagogia da jornalista Judite de Sousa. E depois cerraram fileiras contra um jornalista português que escrevia sob pseudónimo na imprensa espanhola.

Para eles a situação era simples: o governo não tinha responsabilidades sobre o desastre acontecido na mata portuguesa. A “direita” e a “extrema direita”, “demagógicas”, utilizavam a desgraça para atacar o poder. Dizer que “o PM tem que ser escrutinado, não culpado” (até porque fora importante ministro da tutela, reestruturara o sector, levara a sua equipa de então, uma década depois, para o novo governo, anunciara grandes medidas de combate ao fogo, e mudara as cadeias de comando), era um exemplo de demagogia, de discurso de “direita”. Pois, repito, a responsabilidade do acontecido havia sido, num primeiro nível, climatérica (como Câncio, Pimentel e tantos outros afirmaram) e, vá lá, “estrutural”, efeitos de uma longa política da qual este pessoal político actual não é responsável. 

Meses depois outro terrível incêndio matou quarenta portugueses. Mais uma vez o coro de críticas e de lamentos foi invectivado como demagógico e obra da “(extrema) direita”. E uma vaga de resposta surgiu, a culpa verdadeira era não só dos eucaliptos como da lei eucalipteira feita em 2011 por Cristas.

Entenda-se bem, nesta linha discursiva as políticas governamentais não implicavam responsabilidade sobre a existência de desastres florestais. O facto de um ano decorrido o relatório do acontecido não esmaece está crença. Julgo até que a consolida.

Em 2018 arde Monchique (como já ardera este século, note-se). Aos críticos do acontecido aponta-se-lhe de novo o serem de “(extrema) direita” e a “(extrema) demagogia”. Conversando simpaticamente na tv com Nobre Guedes, como se num clube britânico de uma novela vitoriana, Eduardo Marçal Grilo resume a posição dos apoiantes governamentais: o governo tem estado muito bem, “teve azar” (Costa foi a Monchique anunciar a política de prevenção do fogo florestal um mês antes da razia) “mas é a vida” (sim, “é a vida”, foi a expressão de Grilo).

E por todo o lado se lê e ouve o sumário dos fiéis do governo: as medidas do governo são boas “malgré tout”, apesar de Monchique, há que o defender. Apenas noto uma incongruência: se o drama do ano passado era inimputável ao governo, pois excêntrico às suas medidas estruturais e conjunturais, como se pode agora imputar-lhe o (putativo) sucesso? Não há aqui uma incongruência? 

Ou melhor dizendo, é um caso típico, esta mentalidade dos adeptos do governo, agitados pelos teclados prostitutos do Expresso e do DN, de “solto por ter cão, solto por não ter”. 

 

Porque, de facto, é a única coisa que interessa a esta gente. Seguirem soltos.

11 comentários em “Solto por ter cão, solto por não ter”

  1. Um povo menor , “toureado” pelas insignificâncias que esse mesmo povo tolera, e aceita, com “élites”.
    Against that, potatoes – como dizem que dizem os “cámones” ( isto de saber línguas é muito bonito…).
    E cá vamos, nem cantando nem rindo.
    Resta saber até quando…

    JSP

  2. Em 1999 a Força Aérea, por decisão política , abandonou o combate aos fogos – governo de António Gutiérrez .

    Os aviões C-130 equipados com kits de combate aos fogos foram descontinuados por decisão política em finais dos anos 1990. Na altura, considerou-se que a participação da Força Aérea não era necessária.
    Desde então estes kits (compostos por um sistema que embarca e confere à aeronave a capacidade de combate directo aos incêndios, através da libertação de cerca de dez mil litros de produtos retardantes) não sofreram manutenção e, por isso, estão obsoletos. A opção seria a utilização dos helicópteros Puma, que estão em Beja mas que têm primeiro e ser requalificados, assim como a tripulação e pessoal de manutenção com ajuda de uma força aérea estrangeira.

  3. Se corre mal a culpa não é nossa, se corre bem o mérito é todo nosso, é assim para este Governo, mesmo quando não corre bem, porque um incêndio com as proporções que teve o de Monchique nunca deveria coexistir na mesma frase com a palavra sucesso.

    Ainda hoje comentava com um amigo, a comunicação social está domada e quem se insurge contra este Governo é porque é de Direita, como se estivesse proibido a todas as pessoas de Esquerda terem pensamento crítico e opinião próprias.

    O que eles querem é uma manada de cordeiros bem comportados, sem opinião e vontades, que enganam com sorrisos cínicos e discursos aparvalhados carregados de propaganda.

  4. Concordo com isso tudo, jpt, mas reparo que o Celinho não lhe merece uma palavra. Ora já que fala de “teclados prostitutos”, e muito bem – a Visão também devia estar citada !! – eu acho que temos um candidato a prostituto em vias de construir a sua candidatura. Eu votei nele, disclaimer. Mas o nosso presidente, talvez por ver a triste e má figura do seu bando laranja, anda de tal modo feliz en-Costa-do ao governo que dá vontade de chorar. E assim, sendo nós uma democracia em tudo o que tem de funcional, parecemos mais uma ditadura, com todo o poder contentinho de si próprio, auto-justificativo, arrogante, reagindo com desprezo e má educação a qualquer reparo crítico ou dúvida que seja posta quando está na câmara ou no microfone, ou calando a boca quando a banhos com o povo.

    Fala-se de Itália e Áustria. Estamos muito pior. Têm um oposição forte e que não se cala, e uma boa separação de poderes. Aqui, é isto – a “panela” geringonça-celinho. Ao Marcelo, subiu-lhe à cabeça a boa vida. O homem tem tudo – mas tudo – o que a riqueza pode dar, com a vantagem de não pagar impostos. Dinheiro para quê ? Vai por conta do Estado, goza, nós pagamos. Quem não quereria lá ficar ? Ele quer, vê-se bem naquele rosto feliz; e portanto, há que estar bem com quem o eleja. En-Costa-do.

    1. Um blog é uma conversa – ainda que num blog colectivo ela seja algo complexa. Ou seja, é uma conversa em andamento, e por isso talvez algo lhe tenha escapado do meu resmungo (constante). De Sousa tenho a ideia que tenho, e que já terei botado (ou no meu blog ou aqui mesmo – trata-se do mais reaccionário projecto político que chegou ao poder desde Caetano, não é nada mais do que a paupérrima actualização do “pensamento” político do seu pai e devia ter sido demitido, liminarmente, quando logo no início do perverso mandato beijou o anel do papa, um acto inqualificável que só serve para qualificar dez milhões de imbecis que carregam o cartão de cidadão português. Sousa é-me repugnante. E, já agora, não votei nele, nunca votaria num escroque que se fez popular num papel de comentador que de tudo falava menos das tropelias do seu íntimo amigo banqueiro. Quem nele votou não me venha apontar “não falou no Celinho”, tarde piaram, muito colaboraram.) O que falo aqui é da recepção – aliás o que me interessa nestas coisas da política portuguesa nem são as más práticas dos políticos mas a disfunção intelectual que as acolhe. A recepção de quem acha muito bem o poder que temos, de quem (des)qualifica quem refuta o apoio a esta tralha.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *