
Bernard Lewis é um nome maior da historiografia sobre o Médio Oriente e o Islão. Cunhou o termo “choque de civilizações”, depois popularizado por Samuel P. Huntington. Contudo, ao contrário deste, Lewis não identificou no povo árabe, ou na comunidade muçulmana, qualquer atavismo que inviabilize a edificação de democracias no Norte de África e no Grande Médio Oriente. Em cerca de 30 livros e mais de uma centena de artigos e ensaios, Lewis argumentou que as aflições políticas dos países árabes e do Islão se devem a problemas eminentemente políticos.
No célebre The Crisis of Islam, elencou e dissecou os desafios (e os abismos) que assolam as terras do Islão – pobreza, desigualdade económica, autoritarismo -, explicando que a sua resolução é matéria de escolha, pois não há na religião nada de endémico que impeça a alteração do status quo. Foi também nestas páginas que afirmou não existir qualquer fundamento doutrinário ou legal no Islão para validar os autores morais e materiais dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. Demonstrou que, de acordo com os cânones da fé islâmica, a violência contra mulheres e crianças é expressamente proibida e, por outro lado, que o suicídio é um pecado punido com a condenação eterna do pecador à repetição incessante do seu acto. Tido como “falcão” – foi conselheiro da Administração de George W. Bush e defendeu mão pesada no Médio Oriente – e como “orientalista” – Edward Said disse de Lewis o que Maomé não disse do toucinho -, o historiador nunca permitiu que as suas convicções políticas deturpassem os factos e a análise.
As memórias de Bernard Lewis, publicadas em 2012 sob o título Notes on a Century: Reflexions of a Middle East Historian, tecidas com humor britânico e erudição despretensiosa, oferecem uma viagem única por uma vida ímpar, deixando entrever uma visão pouco optimista sobre o Médio Oriente e principalmente sobre a capacidade do Ocidente em lidar com aquela região. Li-as na altura e hoje voltarei a elas. Bernard Lewis morreu no passado dia 19 aos 101 anos de idade.

In Memoriam:
Philip Roth.
Porque nós não sabemos, pois não? O que faz as coisas acontecerem da maneira que acontecem? O que está subjacente à anarquia da sequência dos acontecimentos, às incertezas, às contrariedades, à desunião, às irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe.
«Toda a gente sabe» é a invocação do lugar-comum e o inimigo da banalização da experiência, mas o que se torna tão insuportável é a solenidade e a noção da autoridade que as pessoas sentem quando exprimem o lugar-comum.
O que nós sabemos é que, de um modo que não tem nada de lugar-comum, ninguém sabe coisa nenhuma. Não podemos saber nada. Mesmo as coisas que sabemos, não as sabemos. Intenção? Motivo? Consequência? Significado? É espantosa a quantidade de coisas que não sabemos. E mais espantoso ainda é o que passa por conhecimento
Philip Roth, in “A Mancha Humana”
Ora vê como as pessoas nem sempre estão em desacordo? A “mancha humana” é um dos meus livros preferidos e o seu autor também. Pela sensibilidade, pela sabedoria, pela simplicidade e beleza da escrita, pela compreensão da alma humana e pelo modo sublime como sabia mostrar as suas fraquezas sem lhes colar qualquer juízo de valor…enfim, por tudo o que valia Philip Roth como pessoa e como escritor, esperei sempre que o prémio Nobel lhe viesse a ser atribuído.
Também sou uma fã de bob dylan. Mas francamente, deixarem Philip Roth para trás, foi imperdoável.
Obrigada por o ter lembrado.
Desconhecia tal personalidade.
Deu-me vontade de investigar. Obrigada pela chamada de atenção.
Estão a morrer as nossas referências, Arnaut, Roth, Júlio Pomar e agora Bernard Lewis. Todos tiveram vida longa e foram, cada um seu mundo, pessoas ímpares. Tivemos a sorte de viver ainda no seu tempo e de beneficiar do que deixaram.