Quando o telemóvel tocou sentiu-se despertar de um sono artrítico. A cabeça flutuava algures como um balão, mas as têmporas mantinham-se bem agarradas ao corpo, latindo como cachorros de mama. Saiu da cama mais cansada do que quando se deitara na véspera. Arrastou os pés até à casa de banho e quando se olhou no espelho comparou-se a uma vela: olhos assimétricos, a escorrer, traços a pingar num rosto cor de cera. Suspirou e avançou para o duche. A seguir pôs creme, desodorizante e perfume. Depois preparou o pequeno-almoço: cereais sem açúcar com iogurte light e sumo de fruta espremida na hora. Escolheu uma roupa séria, mas não demasiado aborrecida e com um toque de irreverência. Maquilhou-se, penteou-se, calçou as sandálias e aprovou-se ao espelho.
No carro ouviu as notícias das nove para se manter informada e a seguir o cd para limpar o espírito e neutralizar o stress da manhã. Aqueles sons de bosque e flauta de pan inspiravam-lhe pensamentos positivos. Tinha saúde, um bom emprego e muitos amigos, e o céu estava azul. Quando atravessou a entrada da companhia já levava os passos ao ritmo destes pensamentos felizes. Endireitou as costas, levantou o queixo, os cantos da boca, avivou o olhar e disse “Bom dia!” aos colegas que esperavam pelo elevador, no tom firme e bem humorado que lhe ficava melhor.


LIKE muito!
Já me ri com o Rui, contigo já parei para pensar. Este texto está cheio de verdades diárias e todos nós as reconhecemos. Quantas vezes afivelamos uma máscara para os outros, e até para nós próprios? “É a sobrevivência, estúpido”, diria alguém. E é mesmo.
de quem eu gosto, nem paredes confesso….. lá lá lá…eu acredito no texto! 😉
????
Não ligue Ana, deve ser a gata!?
Deve ser isso. Acordou baralhada.
Todos precisamos de sobreviver, Ana. O problema está no modelo de sobrevivência que escolhemos. Este aqui descrito está muito na moda.
gosto muito deste nome, Teresa.
Hum… violinos? Isso é para a rapariga do texto adormecer?
não, é para ver se ela ACORDA!!
Até à cena do duche…”é com’à mim”, como se diz nas berças.
Teresa, há muito que aqui não vinha e não me vou demorar. Gostei. Quanto às máscaras, não tenho nada contra (acho que nunca tive)… desde que sejam bonitas. eheheheh 🙂
Olha o Mike! Seja bem aparecido.
Amor, é ao fim de dez, quinze anos, um homem acordar ao lado de uma mulher como a que descreve tão bem, e continuar a amá-la.
(Sei do que falo, já lá vão mais de trinta!)
Não duvido, Alexandre. E se não soubesse do que fala, não falava assim 🙂