É puxar a brasa à minha sardinha, pois é. Estou desempregada e vejo este yo-yo da que já não é fortuna nenhuma. Se o meu coração, por este e outros motivos, sobreviver a 2012/13 podem estudar-me.
Ainda não foram passados os valores a partir dos quais se manterão os 6%, mas provavelmente serão os que nunca se imagina que as pessoas recebam, os que rondam os 400 euros.
Estou irritada, não vejo futuro para mim por cá, e também não sei bem como fazer para me ir embora. Acima de tudo ainda não o queria fazer. Porque irei sozinha, porque estarei sozinha. Não me atrapalho sozinha em muita coisa, mas ir passear a Roma sozinha, viver cá sozinha, pagar as minhas contas sozinha, é uma coisa, fazer a vida toda noutro lado, é outra. Sou optimista regra geral, mas neste caso obrigo-me a refrear-me, não dar um passo maior que a perna.
Tenho capacidades, não tenho medo de trabalhar, mas no cv vão os meus 36 anos e essas qualidades talvez fiquem para trás, não sei. Sei que ninguém responde, nem mails automáticos (já não se usam? Eu preferia-os ao vazio).
Desde que fiquei sem emprego já passei por várias fases. Mas uma constante é sentir que tenho muitos deveres e poucos direitos, a sensação é a de que vivo de um favor do Estado. Constantemente. Felizmente as pessoas que me passam esses deveres e cumprem (formadores, atendimento) mostram-se compreensivas com quem está do lado de cá, seria insuportável de outra forma.
Custa, não se pense que é viver à sombra da bananeira. Sabem-me bem os primeiros dias de sol, poder aproveitá-lo. Experimentei fazer coisas que fui adiando enquanto trabalhava, pude fazer babysitting e não o trocava por nada. Mas custa bastante ser diariamente confrontada com a situação, com os 6% que afinal eram meus mas agora já não. Custam os olhares de pena e segue a vidinha (prefiro que a sigam logo), custam as não respostas, custa o subsídio comparado com o que se recebia a trabalhar. E custa-me ser só um número, isso é o que me custa mais.

Com todo o respeito, perguntas para as quais não quero que me responda, a mim:
A Marta votou nas eleições legislativas (e presidenciais)?.
Sente-se politicamente representada?.
Desde os meus 18 anos.
Mas o meu post não tem cor política, ou não pretende ter. É uma coisa mais egoista, é sobre mim.
Apenas uma palavra para lhe tentar dar animo, estômago, paciência, coragem e força.
“Não me atrapalho sozinha em muita coisa, mas ir passear a Roma sozinha, viver cá sozinha, pagar as minhas contas sozinha, é uma coisa, fazer a vida toda noutro lado, é outra.”
Percebo-a perfeitamente. Também suporto – quase sempre suportei – tais responsabilidade só e partilho a sua duvida se só tal faz sentido. Quero acreditar que sim, claro.
Esperançados cumprimentos,
Obrigada, ainda não estou em pânico, mas claro nunca é uma situação desejável. Nós sabemos 🙂
Obrigada, coragem também.
O que é que são os 6%? A taxa de IVA?
6% é uma contribuição ao Estado, já sobre os 65% (depois de seis meses 55%) que se recebe de Subsídio de Desemprego.
Ahh, tu apanhaste a lei do “ao fim de seis meses baixa”… sou anterior a ela.
E as apresentações quinzenais? Um exagero. E a chamada para ter formação? Um ror de tempo à espera, preencher uma lista de interesses, dizerem que dali a 15 dias me chamavam e, até hoje, nem água vai ao indígena.
Preferia ir trabalhar para o Estado uma parte do meu tempo que estar sujeita a estas palhaçadas. Tanto que é preciso produzir neste País e têm os desempregados neste limbo que só destrói as almas. Estúpidos!
Sim, baixou. A formação inscrevi-me em Outubro e começou ontem. O calendário é estranhíssimo (dois dias em abril, quase todos em maio e depois entre 1 e 20 de junho mais uns 5), mas pelo menos tenta fazer-se uma tertúlia, menos mau. Mas podendo também preferiria, sem dúvida.
Sinto-me muitas vezes quebrada. Vejo cursos profissionais, tenho excesso de habilitações (sim, ainda conta mesmo no actual cenário, um absurdo), outras coisas não posso porque não acabei a licenciatura. Não há ginástica mental ou de cintura para adaptar pessoas a cursos e formações, pelo menos onde moro não vejo.
As apresentações quinzenais – o termo de identidade e residência, como lhes costumo chamar – são o máximo. E ser chamado ao centro de emprego com ameaça de suspensão dos subsídio por “falha informática” na junta de freguesia? Outra pérola!
Enfim, como se não bastasse o desemprego. Ao menos já não obrigam a malta a andar a pedir “assinaturas” ou “carimbos” ou lá o que era para servir de prova de uma “procura activa de emprego”.
É o incrível, rerere
Também digo lhes chamo assim, sinto-me irmão Dalton de bola no pé e tudo.
As cartas e comunicações do Centro de Emprego darão outro post, já o tenho pensado.
Sim, ao menos isso, até porque muita gente não o faz (assinar ou carimbar), constou-me.
6% é o valor do corte efectuado nos subsídios de desemprego desde Janeiro p.p., para todos os escalões. No meu equivaleu a 60 euros, o que equivale à comida para uma semana. Escangalhou-me a contabilidade toda, porque tive de os ir sacar a outras rubricas. Deixei de ter telemóvel e por baixo do meu carro já tenho um belo talhão de ervas daninhas 🙂
No meu equivaleu a 60 euros
Se o seu subsídio de desemprego é (ou era) de 1000 euros, é luxuoso.
Na minha terra praticamente não há ninguém desempregado, mas também pouca gente se pode gabar de receber 1000 euros de salário.
Ó Luís os descontos não são proporcionais aos salários? Ou acha razoável que quem como eu anda às quase três décadas a descontar e pagar impostos sobre um rendimento médio-alto não tenha uma discriminação ligeiramente positiva face aos valores brutais com que contribuiu?
És de bom tempo, Fernando!
Grande abraço.
Gosto deste conceito à Camilo Lourenço, em que a capacidade de confiscar é infinita, a de pagar prestações sociais limitada. Os putos desmaiam de fome nas escolas? Ainda bem, só sobreviverão os mais aptos. Gastar 50.000 € com o tratamento de um velhadas? Ele que morra na marquesa do hospital. O estado cobrou-te 40% do rendimento durante 30 anos. Recebes 1.000 € de subsídio de desemprego? Poupasses. É tudo tão simples.
Eu não discordo de ti, como bem sabes. Sabes o que é um luxo? Lermos e ouvirmos as parvoíces que ouvimos e não enlouquecermos! E agora, escutemos coisas agradáveis: http://youtu.be/8j3mr0MTIQQ.
900 paus. Descontei e a lei é que decide o meu tecto.
500 renda de casa. sobram 400. + 100 de pensão de alimentos : 1 adulto, 2 adolescentes.
Luxo é conseguir safar isto, Luís L.
Se a Gui sair de Lisboa, facilmente arranja uma casa, aliás provavelmente bem maior do que aquela que ocupa, por 300 euros de renda ou menos. São logo 200 euros mensais que poupa.
Luís, não é assim. Uma pessoa tem uma vida montada. Filhos nas escolas, casa comprada porque era mais barato que alugar, há 12 anos atrás. E agora vende-la? Quem compra? A metade do preço? Não é assim linear e se em Lisboa há desemprego, nas terras pequenas ainda é pior.
Eu não me queixo, vou fazendo uns trocos e tenho esperança de que as coisas se componham. Não preciso de muito para viver.
Gui, neste post falou-se até de emigrar. Eu referi uma opção bem mais suave do que emigrar, que é mudar de local em Portugal.
Há escolas em todo Portugal. Não só em Lisboa. Frequentemente, aliás, é mais fácil pôr os filhos na escola fora de Lisboa, pois os transportes podem ser mais fáceis e a segurança ser maior.
A Gui falou-me de “renda” da casa. Não me falou de empréstimos bancários, que são coisas diferentes. Mas aquilo que eu disse para rendas também vale para empréstimos. Na aldeia de onde o meu pai era originário, arrenda-se uma casa grande (moradia) por 250 euros, compra-se um T3 por 50.000 euros ou menos. Mesmo que você venda a sua casa em Lisboa por metade do preço por que a comprou, ainda fica a ganhar!
Quanto ao desemprego, ele é muito menor numas zonas do país do que noutras. A zona Centro tem condições mais favoráveis. Na aldeia que refiro, só não trabalha quem não quer mesmo.
Luxuoso, um salário de 1000 euros??? Pobre país.
Pois, que o país é pobre, não há dúvida.
Há poucos anos, o salário médio em Portugal era de 700 a 800 euros. Bastante inferior a 1000, portanto.
Os lisboetas têm fraca noção do país real.
Engana-se, pelo menos no que me toca. Conheço bem o país real e os números que refere. O que digo é que me impressiona que se vá entranhando em nós a ideia de que 1000 euros é um ordenado de luxo, e até já ouvi chamar “reforma milionária” a uma reforma de 2000 euros. O país está pobre, mas também de expectativas.
Tal e qual, Ana. Irrealismo é pretender o contrário.
Estou farta de tanta hipocrisia…
que se vá entranhando em nós a ideia de que 1000 euros é um ordenado de luxo
Uma prima (em segundo grau) minha trabalha há mais de 15 anos numa empresa de estampagem. Farta-se de trabalhar no duro (fisicamente mesmo) a imprimir coisas em t-shirts, calendários, relógios e tutti quanti. A empresa produz para todo o país e exportação (Espanha, Angola).
Ganha 550 euros por mês depois dos impostos.
Posso dar-lhe uma mão cheia de exemplos iguais a esse, e sem precisar de sair dos meus conhecimentos mais próximos. Um deles é o do meu próprio filho, que ganha isso a enrolar sushi porque foi o único trabalho que conseguiu encontrar até agora, depois de uma licenciatura em Antropologia na Universidade Nova de Lisboa.
Mas nada disso me faz pensar que 1000 euros seja um salário de luxo, pelo contrário. O valor dos salários em Portugal está baixíssimo em relação ao custo de vida.
É um rombo, no meu foi de uns 35/40 e já me faz muita diferença também.
Sugiro à Marta que dê umas voltinhas ali pela zona de Águeda. Costumo ver nessa zona alguns sinais a dizer que aceitam trabalhadores. Provavelmente o salário é baixo, mas as rendas de casa também o são.
Obrigada pela sugestão.
Obviamente que é um texto que vem de ” dentro ” sem cor.

Provavelmente só perceptível, para quem passou pelo mesmo.
Eu entendo cada sílaba do que diz e peço-lhe que faça um exercício, não se culpe, esse é o caminho errado na encruzilhada do puzzle.
È um pesadelo cheio de ” custos ” e sem ganhos, por muito que se acorde com uma vontade imensa de vencer o mundo.
Não vou dizer que sinto pena, porque o que sinto é mais raiva, não por si claro, mas por quem tornou esta situação possível, e essas pessoas, foram passado, são presente e querem também o futuro. Estão dentro e fora do nosso país com ” tenazes ” que nos estrangulam, e, assim ficamos nós dependentes de quem nos roubou, rouba e anseia roubar mais.
Que o futuro lhe espreite rapidamente, com um sorriso.
Obrigada 🙂 Bom, saber que há quem veja de dentro. Sei que há mais pessoas nesta situação. Custa-me que se fale tanto em subsídios de Natal e Férias e se eu não me puser à escuta não apanho nada sobre o de desemprego. Mas compreendo, há um ano eu faria o mesmo porque os “meus” subsídios eram os outros.
A Constituição diz Artº35, nº5:
“É proibida a atribuição de um número nacional único aos cidadãos.”
Pode ser um número nas finanças estatais, mas não pense que lhe estão a fazer favor.
A sociedade não dá nada a ninguém, simplesmente investe na estabilidade social… por isso tem que criar expectativas, esperanças, etc.
Sendo um caso pessoal, envolve sempre situações similares… mas, depois dos conselhos “bate-punho”, parece difícil falar do assunto.
As formações obrigatórias, dirigidas, servem mais um propósito em si mesmo. Dão ocupação e alguma esperança, mas parece-me que pouco servem para além disso.
Pode aproveitar o tempo para investir em si própria… e aí tem duas hipóteses – formação de
interesse pessoal ou profissional.
Há muita formação que pode ser obtida hoje na internet, gratuitamente. Não terá carimbo, mas pode ser uma mais valia interessante, por exemplo, linguística.
É claro que num mercado saturado de oferta, os empregadores dão-se ao luxo de escolher, e aí entra o discurso “bate-punho”, ou seja, é o próprio que tem que justificar e diferenciar a oferta… especialmente em Portugal.
Porém, se calhar, há poucos emails enviados para empresas internacionais. No meio de ofertas, há alguns que são trabalhos virtuais, ou seja, não implicam emigração.
http://www.multilingualvacancies.com/vac ancies/portuguese-language-jobs.php
http://www.indeed.de/
Sim, não quis estar a detalhar mas tenho investido no que sempre quis fazer e adiava. Não estou parada a lamentar-me. O redesenhar de medidas é que desencadeou o post de hoje.
Obrigada pelas sugestões.
Uma pergunta singela: e mudar de área? Ganhar novas competências? Ver o se está a pedir no mercado, o que é preciso, o que se procura…
Há areas que têm vido a perder importancia de há anos para cá, outras que têm vindo ganhar, há nichos à espera de serem descobertos, outros que se desmoronaram de repente…
Por exemplo, no outro dia li que no Algarve vão dar formação na área da cortiça a um grupo de desempregados. Pode não ser um trabalho “glamoroso”, mas neste tempos complicados, o que interessa não é o “glamour”…
Não procuro glamour e procuro até em bastantes áreas diversas. Vou saber, obrigada.
Oh Marta, não sei bem qual é a tua area, nem sequer acho importante.
Tenho 37 anos, feitos ontem, e fui emigrante durante 2 anos e meio. Voltei por razões familiares (o meu filho) mas sinceramente, a medir o que este país nos dá e nos tira… Fica-nos muito caro, este Sol… Absurdamente caro.
Não tenhas medo do estrangeiro. O teu valor é reconhecido como aqui, provavelmente. A tua progressão na carreira não será muito diferente da que poderias ter aqui, quase de certeza. Uma coisa muda, seguramente: a tua qualidade de vida, em geral. Não em tudo, mas em muita coisa.
Se um dia avançares para 1 solução dessas, dá preferencia a uma lingua que domines (eu estive na Irlanda, por causa do Inglês) e se possivel, um que tenha operadores low-cost.
Eu cheguei a pagar mais de taxi de casa para o aeroporto do que de viagem (taxas incluidas) para Lisboa. Vinha a Portugal umas 3x por ano, e a namorada outras 3 em sentido inverso.
Não podemos desistir deste país, claro! Temos coisas maravilhosas.
Mas, primeiro que o país estamos cada um de nós…
Obrigada, Helder, és sempre simpático e atencioso. E parabéns, que me escaparam.
Pensarei melhor, definitivamente. Obrigada mais uma vez.
fiquei sem comentário ao ler o texto. ao ler os comentários fiquei com este. “Navegar é preciso” sem heroísmos de pacotilha. Mas não vejo para aí qualquer outra hipótese Boa sorte.
Pelo “post” vê-se que a Marta S. vai sobreviver …
O número de desempregados, em Portugal, já dava para eleger (empregar) um Primeiro Ministro….
Tomara que sim. Obrigada.
Se dava, se dava.
Para mim que também estou na sua situação , o seu texto é um reflexo!
Nem mails automáticos , uma coisa tão básica nos dias de hoje , respostas apenas uma por sinal de uma empresa em que a empresa mãe é estrangeira.
Sim também tentei vislumbrar alguma coisa sobre a reposição desses 6% mas nada , até nisso os media só se interessam pela maioria.
A “melhor” oferta que tive foi para trabalhar em part-time na mesma área a que estava ligado com a ressalva de que estaria sem contracto e rendimento fixo apelando o empregador ao facto de estar a receber o subsídio e assim ir compor o orçamento . actuação ilegal e que não aceitei , é a lei da selva.
Mas como diz o povo não há bem que sempre dure nem mal que não acabe.
Felizmente não tenho filhos a quem ter de satisfazer N.H.B . pois provavelmente já teria feito uma loucura em virtude de tudo o que se vê , ouve e sabe.
Acho o 1º comentário do cr insultuoso pois como diz JPP no seu Abrupto :
“Pensaram sempre em atacar salários, pensões, reformas, rendimentos individuais e das famílias, serviços públicos para os mais necessitados e nunca em rendas estatais, contratos leoninos, interesses da banca, abusos e cartéis das grandes empresas. Pode-se dizer que fizeram uma escolha entre duas opções, mas a verdade é que nunca houve opção: vieram para fazer o que fizeram, vieram para fazer o que estão a fazer”.
A emigração talvez pudesse ser uma forma de fugir a este drama mas sei que lá fora apenas pretendem funcionários qualificados, “com papeis” se é que me entende e isso não tenho apesar da vontade.
Tendo consciência que o sol nos fica caro como alguém disse e bem acima vou tentando sobreviver um dia de cada vez e esperar pacientemente que as coisas mudem ou que caiam de podres como estão há muito.
Quanto ás formações também fiz 2 de 15 dias tendo optado na altura por 2 línguas e 1 informática .
Rectificação : referia-me ao comentário do JS e não do cr .
As minhas desculpas.
Pelo contexto percebi 🙂
Obrigada pelo comentário. Corra tudo bem.
E, sem querer provocar, apenas lhe posso dizer que não se queixe. Eu, com idade muito próxima da sua, nunca tive direito a esses “luxos” de subsídios de desemprego. E tal como eu, muitos mais que somam aos oficiais 18%. Ou seja, há quem nem sequer um número chega a ser.
Também sei querer provocar, o mundo já viveu sem a roda ou o fogo e não é por isso que agradecemos a sua descoberta diariamente. Além disso a vida está cada vez mais cara, estes luxos permitem apenas que não tenhamos fome ou durmamos na rua, devo considerar isso também um luxo?
É um post, estou sem trabalhar há 300 dias e é o primeiro que faço, sinto-me no direito de desabafar.
Precisamente, prepare-se para considerar esses bens de primeira necessidade como um luxo. É para lá que nos encaminham.
Quanto ao resto, tem toda a razão e direito a desabafar. Aquilo para que eu quis chamar a atenção foi precisamente o facto de estarmos a caminho de nos tornarmos num país de permanentes indigentes, mesmo quando não dormimos na rua.
Marta, os meus votos de muita sorte para si (não é só sorte, claro, mas a sorte também tem o seu peso).
Muito obrigada, Carlos.
Boa noite Marta,
Devo dizer para um post que aparentemente seria para descrever o que lhe ia na alma, acaba por ser o reflexo de muitos dos leitores deste blog. Inclusive de mim próprio. Estando desempregado tenho lido muitos textos acerca deste estado de coisas esquisito em que nos encontramos, mas a verdade é que o seu texto reflecte, quase na perfeição, os meus sentimentos e vivências diárias.
No meu caso tenho 31 anos, quando fiquei desempregado tinha quase 30 anos, e já não me roubam os 6% (terminou o subsídio de desemprego a que tinha direito). Ingenuamente, confesso, cheguei a pensar não pedir o subsídio de desemprego por pensar conseguir empregar-me rapidamente e no entanto já passou mais de um ano e o subsídio terminou.
A situação é de tal maneira incrível que ficamos reféns do computador e do e-mail, às vezes de forma compulsiva, e são tão raras as empresas que nos respondem, bastava dizerem “(…) não se enquadra no nosso perfil. Obrigado.” isto bastava e eu agradecia.
Uma das situações mais estranhas que se passa comigo é a rotina, poderia dormir mais, mas acordo como se fosse trabalhar e não vou, poderia ver televisão e filmes durante a manhã e a tarde e não consigo, tenho de estar ocupado nem que seja a estudar temas novos para mim, e a sexta-feira mantém-se sempre como a venerável véspera de fim-de-semana e ainda assim não tenho motivação anímica (palavra da moda) nem vontade de esbanjar dinheiro para sair, e vendo bem os dias agora são sempre iguais de 2ª a Domingo, mas para mim não faz sentido que assim seja.
Deveria tentar acabar este comentário de uma forma positiva ao melhor estilo de Miguel Gonçalves (e que tal irmos vender pipocas?) dizendo-lhe que o “futuro será risonho”, que se “uma porta se fecha abre-se logo uma janela”, mas não consigo. Só lhe posso desejar muita sorte, igual aquela que desejo para mim próprio.
Cumprimentos,
João P. Silva
Faço o mesmo, João. Não me deito tarde, acordo cedo, tento ocupar-me e quase celebro a chegada das sextas.
Boa sorte para nós, alguma coisa há-de aparecer.
Olá Marta
Eu tenho 45, ainda não estou desempregada, ficarei no próximo ano, mas estou no limiar de não chegar para comer. Parto para Inglaterra no início de Maio. Sozinha, confiante na minha competência e nas minhas capacidades. Foi uma decisão dura e tenho receio, mas aqui estava a definhar. Força.
Olá Irene,
Obrigada pelo comentário e mensagem. Corra tudo muito bem por Inglaterra.
Cara Marta, em relação ao seu post gostava de lhe desejar sinceras felicidades e que lhe apareça, no futuro, um projecto interessante.
Apesar disso, gostava de fazer um reparo em relação à ausência de “cor” do post.
É que quem nos colocou (a mim e a si) nesta situação tem cor. Está identificado. Quem nos governo nos últimos 39 anos, tem cor. Quem abdicou da nossa soberania e optou por submeter o país às privações que enfrentamos tem cor e está bem identificado.
Por isso, das duas uma: Ou aceitamos que nos continuem a “meter num canto e a encostar às cordas” ou tomamos nós a iniciativa.
E por isso, gostava de lhe fazer um convite. Venha daí no próximo dia 25 e junte-se aos seus compatriotas, homens, mulheres e crianças de todos os estratos sociais, raças e credos e venha descer a avenida.
Venha celebrar o que foi nesse dia conquistado e que tem vindo a ser sonegado. Venha defender o estado social, a escola e saúde públicas. Venha juntar-se a mais justiça social e a menos pobreza.
Vemo-nos por lá!
Muito provavelmente vemos 🙂 Obrigada
Gostei muito deste teu texto que é impressionante a vários títulos, Marta. Espero que muito rapidamente possas escrever outro, de teor bem diferente.
Obrigada, Pedro. E será, mesmo que a situação se mantenha, retomo o tom usual no próximo post 🙂
Marta, lamento a tua situação e espero que tudo se resolva, cá ou noutro país.
Quanto a mim, dizer que não estou desempregada é só uma figura de rectórica: não entro nas estatísticas porque sou freelancer há muitos anos, o que significa que nem sequer tenho direito a subsídio de desemprego (assim como não tenho baixas pagas nem subsídios de férias ou Natal). Os cortes não me atingem, mas pelas piores razões. Na prática, cada vez me aparece menos trabalho e cada vez esse trabalho é mais mal pago. Não desisto, vou à luta, mas é cansativo e frustrante. Este país está num limbo assustador.
Uma coisa te digo, de caras: se tivesse a tua idade e a tua liberdade de movimentos, procurava trabalho fora daqui sem qualquer hesitação.
Obrigada, Ana. Imagino que seja sufocante ser freelancer neste país e nos dias de hoje.
A pensar, a pensar, veremos.
Obrigada pela partilha, Marta. Foi muito corajosa. Podia ter escrito palavra por palavra o que a Ana Vidal escreveu no comentário em que fala da sua situação. Estou na mesma. É desgastante, pois. E deprimente. Sobretudo porque esta gente que nos governa não nos dá esperança, só facturas para pagar.