Punha sempre o despertador para as oito, por uma questão de princípio. Lá porque não dormia, não abdicava do seu objectivo: fazer uma boa noite de sono e acordar às oito. Virou-se na cama, com as têmporas a latejar. Tentou fechar os olhos sem fazer pressão e pensar em coisas relaxantes: gatinhos, flores, um céu estrelado, uma praia deserta, o pôr-do-sol. Que horas seriam? Pela ausência de ruído e luz deviam ser quatro, talvez cinco. Pegou no telemóvel. 4.30h. Tinha mais de três horas para estar na cama. Voltou determinada aos pensamentos relaxantes: galinhas, praia, céu, flores, pôr-do… O sol, naquela fase do ano nascia por volta das sete. Os pássaros começariam a dar sinal um pouco antes, portanto tinha cerca de duas horas para aproveitar a total ausência de ruído, mais favorável ao sono.
Percebeu que estava com o corpo tenso. Virou-se de barriga para cima e começou a respirar fundo. Conhecia as técnicas todas. Lera num livro que era útil fixar um ponto do tecto para afunilar o pensamento e esvaziá-lo, como fazem os monges budistas, mas no escuro era difícil encontrar um ponto, de modo que se concentrou na respiração. Tanto havia de respirar fundo que o corpo acabaria por relaxar. Estava provado que havia uma ligação entre a cadência respiratória e o relaxamento. O problema era que se cansava com aquilo. Doía-lhe o pescoço. Que horas seriam?Voltou-se e deixou o pensamento fluir, mesmo por assuntos que a agitavam, prestes a desistir de conciliar o sono com uma atitude saudável. Sentia-se tão cansada…
Encolheu-se, em posição fetal. Quanto tempo faltava para o telemóvel tocar? Nas tintas. A noite já estava perdida, havia que admitir a derrota. Era um dos pensamentos proibidos, admitir a derrota. Abdicar dos seus novos princípios de vida, sabia muito bem, era baixar os braços, entregar-se, desistir, era…zzzzzzzzzzzz


LIKE!!!
As malditas insónias, conheço-as bem. E já há muito tempo que desisti desse belo objectivo de oito horas de sono. Seis, para mim, já é um luxo. Pelo menos, com as duas horas que mandei às favas foi-se a angústia de ter que as dormir.
bom… acho que depois de ler este texto, bem escrito e credivel, este blog está a “tomar” uma linha temática, muito mais interessante! é a minha humilde opinião.
Diabos, mas este blogue tem uma “linha temática”? Por que é que não fui avisado? 😉
É a sensibilidade feminina, Maria. Está a impor-se a olhos vistos em todo o lado. For the record, eu também gostei do texto. Só não percebo como é que galinhas poderiam alguma vez ser relaxantes…
galinhas????
Eheheheh. Não percebes nada de galinhas, Jaa. Não é assim tão absurdo. Imagina os bichos a bicar no campo nos seus vagares. Não é relaxante?
Maria das Dores, obrigada pela parte que me toca, mas não desfaça nos textos dos meus coleguinhas de blogue, sff.
Olha-me esta!… Eu tive galinhas em casa (quer dizer, fora de casa, que os meus pais nem os cães deixavam entrar em casa) quando era miúdo. Poucas, mas tive. E havia mais na vizinhança. Sujavam tudo, cacarejavam, tanto se recusavam a sair da frente como se assustavam sem que ninguém lhes quisesse fazer mal e nem todas juntas chegavam a ser tão inteligentes como o cão mais estúpido que alguma vez por lá passou (e garanto-te que isto é dizer muito). Mas enfim, talvez as galinhas de outras zonas do país sejam mais relaxantes do que as beirãs…

P.S.: Pensando melhor, há uma forma de uma galinha ser relaxante: assada, bem douradinha, numa travessa. Mas não sei se a imagem ajudará a adormecer.
P.S. 2: Mas a sério, o texto está óptimo. (E o das 8h também.)
Escusavas de me estar a fazer inveja com as galinhas! Sempre quis ter galinhas. E coelhos, e patos e perus. Se calhar acho que imaginar galinhas a pastar é relaxante porque sou uma bimba de Lisboa, que se deslumbra com tudo o que cheira a campo. Mas não tenho culpa de ser uma sem terra, ora!!
Patos e perus nunca lá houve em casa (excepto na travessa). Mas coelhos, sim. O meu pai convenceu-se de que havia de ganhar dinheiro criando-os e vendendo-os mas a coisa fugiu um bocado ao controlo. Em mais do que um sentido.
Estória dramática duma jovem que sofre da chamada “solidão de lençois”….
O remédio é simples para uma cura eficaz :”Companhia”… de marca ou genérico(a)!
bruxo: eu não tenho nada que intervir, até porque, sendo homem, devia defender esse ponto de vista, mas duvido que um homem a ressonar constituísse grande ajuda.
Já cá faltava essa boca. Que não por acaso ocorre apenas quando é de mulheres que se fala, quando afinal há tanto macho a padecer do mesmo…
O meu comentário é para o bruxo, Jaa. O software da Sapo é que às vezes troca a ordem dos comentários, sei lá porquê.
Eu sei, Teresa. Por muito que, pelo menos na publicidade, o Sapo se distraia com humanas, não troca a ordem dos comentários. Tu e eu respondemos ao comentário do bruxo, só que eu fi-lo primeiro. É por isso que os nossos comentários estão alinhados. Já tu respondeste ao teu próprio comentário e é por isso que os teus dois comentários estão desalinhados. Lá por gostares de galinhas não precisas de dizer mal dos sapos.
Pronto, Jaa, assumo: tenho uma relação difícil com os animais. (Grrr!)
é tão bom “falar para o boneco”.
Nessas raras situações limite, Teresa, tenho sempre à mão ‘Non ou a Vã Glória de Mandar’…