33 anos após o derrube do Muro de Berlim


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Lembro um episódio, longo, entre tantos. Em 1994 segui à África do Sul, para trabalhar nas eleições que fizeram ascender o ANC ao poder. Era a primeira missão de observação eleitoral da UE, coisa de três meses  – ricos como se muito tempo fossem, tão longa, milionária, pareceu aquela experiência. Ombreámos com os observadores da ONU, ali já colocados há muito tempo, que lhes era missão mais demorada. Na zona onde fui colocado vários desses estavam no país há mais de um ano, e vinham já experientes de outras áreas. Entre outros muito lembro o seu coordenador, Brian (ninguém usava apelidos), um velho com quase 50 anos, irlandês, ruivo, alcoólico (não tocava em álcool, num corajoso sorriso “já bebi o suficiente na minha vida…”), um tipo finíssimo. E Slobodan, um ex-diplomata jugoslavo, náufrago etilizado da “former Yugoslavia”, trepidante num volante lesto de morrer, nisso um susto de coabitação, e homem “maior do que a vida” e isso também por todo aquele abissal desespero de recém-apátrida. E Marie-Vi, uma jovem e belíssima francesa, que a todos seduzia no seu simples estar (ainda assim não tanto a mim naquele tempo, apaixonado que seguia). E alguns outros, menos memoráveis.

Lembro-os também porque já então veteranos das missões de paz, eleitorais. Vinham de longas estadas, anos até, decorridas no Cambodja. Lembro-me daquelas noites diante do Índico, bebericando sôfregos, embrenhados naquele magnífico momento sul-africano. Até que, a um determinado momento, uísques ou cervejas cruzadas, muitos e muitas, seguiam eles a falar do que haviam vivido no Cambodja. Do que sabiam que fora, e ainda era.

Agora, décadas depois e por cá, leio ouço estes intelectuais, estes académicos, estes jornalistas, que continuam, ano após ano, a louvar o que chamam “socialismo” – de facto estão a falar dos países comunistas -, e sempre negam o horror. Alhures, entre outros, contado e recontado, olhos pesados, copos rodados entre-dedos, estes que tendem a trémulos. Dir-vos-ão (nunca a mim, que o insulto imediato logo me brota) que não era aquilo o “projecto”, o “ideal”. Utilizam para o seu miserável sonho (ou para os meros laiques de funcionários públicos burguesotes da descansada europa ocidental) um crivo totalmente diferente do que usam para o que dizem “pérfido capitalismo”. Liberalismo? Gritam Pinochet (ignorantes que são nem invocam o ainda pior Videla). Socialismo (aliás, comunismo)? Refugiam-se num qualquer mito, nunca sobrevivido às pérfidas ditaduras. Aos massacres, aos genocídios, aos sociocídios, aos etnocídios, à tortura, à tanta coisa. Se lhes apontamos alguma memória histórica? Não é esse o ideal, respondem … E ilibem-se, em conúbio entre eles, militantes e funcionários públicos do real.

A muitos o Estado paga-lhes salários. E eles seguem na sua abjecta falcatrua ideológica. E dela fazem profissão. Alguns, mais serenos, limitam-se –  quotidianamente nas “redes sociais” e ciclicamente nas urnas – ao sufragar dos grandes assassinos da história. Enquanto ensinam as novas gerações. E a nós – crentes na mediocridade trôpega da democracia, da necessidade de a sempre melhorar – dizem-nos desconhecedores da concepção de “dignidade humana”, como um dia até se atreveu um renomado lente de Coimbra. E vão limpando a memória dos polpotismos ou outros comunismos, querendo apagá-la. Apenas 30 anos após aquelas gigantescas desgraças.

E não têm qualquer vergonha. Nem os locutores. Nem os “laicadores”.

12 comentários em “33 anos após o derrube do Muro de Berlim”

  1. Sempre acreditam que os possidentes são livres de usufruir e que têm poder de oprimir; e dói-lhes essa maior liberdade e sofrem esse poder, ainda que não exercido, ainda que não os atinja.
    Por isso a servidão geral os conforta, e quando confrontados com ela, dizem-na trânsito evitável se os possidentes são verdadeiros crentes, e logo virá um qualquer ‘homem novo’.

    1. Poderão não ser imensos mas são sonoros. Neste 22 houve dois momentos onde muito se ouviram: nos primeiros meses após a “intervenção militar” russa a Ucrânia. E agora, no coro de elogios ao líder comunista cessante.

    2. “Mas ainda há muito disso…”
      Basta ler qualquer jornal ou ver qualquer telejornal.. Fidel Castro foi sempre o Líder Cubano, nunca o Ditador Cubano…

      Ou verificar as reacções à visita do Presidente Marcelo que depois de ser eleito pelo voto na urna dos portugueses foi beijar a mão a Fidel Castro.

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