Quando a minha tia Luzia, a irmã do meio da minha mãe, casou com um aprendiz de alfaiate “vindo das berças” e que jogava à bola, toda a família esperava um rapagão alto e espadaúdo.
O Tio António era um alegre barrigudo, roliço e de estatura mediana, que adorava beber, comer, cantar e jogar à bola.
Fazia as delícias dos miúdos nas porradarias do Sócio Gravócio, nome inventado e imagem de marca daqueles jogos greco-romanos, em que valia tudo para o mandar ao tapete.
“Viva Eu”, do Nilton César, era o seu hino, que normalmente trauteava enquanto trabalhava, e cantava em plenos pulmões após uma refeição bem regada.
Era tão bom alfaiate como futebolista.
Poderia estar a ironizar, mas o facto é que era um excelente praticante da modalidade. No SC Nandufe era muito considerado e a sua camisola número 29 determinou a alcunha que perdurou enquanto viveu: o 29.
No rés do chão do prédio onde morava em Lisboa à sombra do Galo da Ajuda, funcionava uma mercearia explorada pelo Sr. Manuel e pela D. Lurdes, eles próprios brigantinos expatriados, em busca de vida melhor. O Sr. Manuel, homem alto e seco de carnes, troçava amiúde do nosso 29, desacreditando-o como o desportista que era devido à sua figura redonda e bonacheirona, desafiando-o constantemente para isto e para aquilo, principalmente para uma corrida desde o Armadorense, clube recreativo do bairro, até ao cemitério da Ajuda.
O Tio António ia protelando o evento, até um dia em que a contundência do Sr. Manuel o levou a aceitar a aposta.
Com cerca de duas vintenas de pessoas a assistir, partiram os corredores com o Sr. Manuel garboso e veloz a liderar a corrida. Correu-lhe bem, até meio da subida. Depois o 29 passou por ele calmamente, foi até ao cemitério, voltou para baixo e acabaram os últimos metros com o 29 perdido de riso a ajudar o Sr. Manuel a terminar.
Este feito ficou para a história do bairro, e “não és nenhum 29” ainda se ouve aos antigos ajudenses. Outros dizem que ainda lhes parece ouvir o trautear de “Viva Eu” ao virar da esquina.
29
Maria Dulce Fernandes,

“até um dia cuja contundência do Sr. Manuel” Que frase mais esquisita.
Tem razão. Soa mal. Vou tratar disso.
Obrigada !
Bela história. Gostei!