2 centímetros de futebol


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Ontem, no decisivo Benfica-Porto, foi anulado um golo por fora-de-jogo de… 2 centímetros. Resmungam os benfiquistas, lamentam-se os sportinguistas – nós, os do “leão”, ainda que estivessemos já algo desesperançados, maldizemos a regra em uso. Mas, justiça seja feita, se o bambúrrio nos tivesse bafejado, e o clube tivesse acabado campeão tal teria acontecido através de uma regra anacrónica e injusta (desempate por golos “fora” nos 2 confrontos directos com o competidor imediato [Porto], numa competição de 34 jogos).

Ou seja, não venho resmungar com este golo anulado (e se o quisesse fazer não o faria no Delito de Opinião, pouco dado a futebolices). Mas há mais de três anos que resmungo com este modo de aplicação videográfica (VAR) no fora-de-jogo, que prejudica a indústria de entretenimento futebolístico. E aqui opinei (e no És a Nossa Fé!) sobre o assunto. Repito o que então escrevi, minha forma de assumir a candidura a influencer no International Board:

“O VAR é fundamental, é óbvio que reduz os erros dos árbitros e que é um grande instrumento contra a protecção aos grandes clubes e contra a corrupção – promovida pelos clubes e por essa relativa novidade das apostas desportivas privadas e avulsas. Mas ao quebrar o predomínio da paixão e da festa arrisca a tornar o jogo mais cinzento e, nisso, a ilegitimar-se. Assim as suas imensas capacidades tecnológicas de observação desumanizam o jogo. Ontem foi exemplo disso. Para que o VAR seja protegido dever-se-á pensar a aplicação das regras, refrear a tendência legalista que ele trouxe, uma verdadeira ditadura milimétrica promovida pela tecnologia. Urge regressar, e reforçar, [a] tradições na jurisprudência futebolística, pois humanizadoras, cuja relevância ontem foi demonstrada:

– (…) Há que recuperar o ideal da protecção do avançado em caso de dúvida na aplicação desta lei, de uma (muito) relativa indeterminação. Anda tudo a aplicar ilegalidades ínfimas, se o calcanhar de um está adiante ou não, se o nariz do avançado pencudo está à frente das narinas achatadas do defesa. (…) Que interessa isso para o fluir do jogo? Urge recuperar essa ideia do “em linha”, e permitir que o avançado esteja “ligeirissimamente” à frente do defesa: se confluem, relativamente, numa linha horizontal … siga o jogo. Claro que depois se discutirá se o calcanhar dele estava ou não em linha com a biqueira do defesa. Mas serão muito menos as discussões. E haverá mais golos. E, acima de tudo, menos anulações diferidas. Donde haverá mais festa, mais alegria exultante. É esse o caminho para a defesa da tecnologia. E da paixão. Julgo eu, doutoral aqui no meu sofá.”

16 comentários em “2 centímetros de futebol”

  1. Nestes casos em que a bola é chutada de muito longe em relação à posição do avançado,
    como é que o auxiliar consegue olhar para o jogador que chuta a bola e para a posição do jogador que a recebe nesse preciso momento?
    Nesta imagem vemos o auxiliar em linha com o jogador que recebe a bola e os defesas, que é o que deve fazer seguir sempre o jogadores, mas como é que o auxiliar olhou segundos antes quando a bola saiu dos pés do jogador que passou a bola e depois para a recepção da bola 2 cm em fora de jogo? Ver dois centímetros àquela distância é de Olhão.
    É nestes casos que entra o VAR, que visiona a jogada de início e em câmara lenta conseguindo apurar toda a jogada desde o chuto do jogador que passa a bola até chegar ao jogador avançado, parando a imagem no preciso momento da recepção da bola.

  2. Tudo o que refere seria desnecessário, se a mentalidade e a educação de todos os que giram em volta do futebol fosse outra. Desde que alguém no futebol consuguiu dividir o país em dois, esse desporto para mim deixou de ter o interesse que até aí tinha.
    Para isso também contribuiu, o visionamento televisivo de outros desportos, em especial um, o snooker. E cito só um exemplo do que é esse desporto em termos de decência em todos os aspectos. Um jogador ao preparar a tacada, tocou na bola branca sem que ninguém se apercebesse, inclusivé o árbito. Ele assumiu, perante a estupefação de todos os presentes, a falta cometida, e cedeu a jogada ao adversário, contribuindo para aumentar a hipótese de perder milhares de libras, o que veio a acontecer.
    Perante isto, não perderei mais tempo da minha vida a olhar para o futebol, o qual está indiciado por ser o maior motor da corrupção.

    1. Não foi propriamente dividir o país em dois, foi o negócio do futebol passar a ser de quem tem mais capital para investir, ou melhor relacionamento para pedir empréstimos bancários e habilidades financeiras para comprar melhores jogadores.

  3. O problema nem é esse – o problema é que ao ver frame a frame está a adulterar-se a verdade desportiva porque entre frames há diferença de tempo, o que até pode significar que a bola foi passada entre os 2 frames e consoante a velocidade do jogador pode dar vários cm de diferença entre ambos os frames.

    O que estão a tentar fazer com o var em foras-de-jogo é uma espécie de photo-finishing parecido com o ciclismo ou atletismo, mas não resulta, porque em ambos os desportos a comparação é no mesmo frame porque não há diferenças temporais nem tão pouco de distância entre os ciclistas\atletas (a comparação é sempre paralela e observada a olho nú num frame específico à posição das bicicletas e dos atletas).

    No caso do futebol, havendo distância entre as 2 posições de passe e corrida o cálculo é sempre mais complicado e subjectivo – aliás a única coisa objectiva do var no fora-de-jogo do milimetro ou centímetro curto é que está sempre errado porque apresenta margem de erro à partida.

  4. Ou a liga clarifica como consegue este nível de precisão onde, presumo eu, o desvio padrão ou o erro sistemático da tecnologia seja da ordem dos mm, ou estamos perante algo que já não se enquadra no erro humano. Talvez seja o campo da incompetência, ou da ignorância, porque a hipótese que sobra é a da corrupção.

  5. saso esteja, de boa fé deviam ensinar aos a var iados
    o que é um erro de paralaxe
    «Paralaxe (do grego παραλλαγή, que significa alteração) é a diferença na posição aparente de um objeto em relação a um plano de fundo, tal como visto por observadores em locais distintos ou por um observador em movimento. »

  6. O VAR só duplica a possibilidade de mais um árbitro daquele jogo ser do Benfica, ou conceder um penálti ao Porto.

    A questão da arbitragem não se coloca, todavia, porque quem prevarica primeiro são os jogadores, que fabricam faltas e fazem batota. O Porto, por exemplo, ganha um campeonato onde o que fez realmente a diferença foi o número de vezes em que eles se atiraram para o chão a pedir penálti e o número de vezes em que isso funcionou E foram dezenas de tentativas em cada jogo. Na verdade, os primeiros responsáveis pela péssima qualidade do jogo são os jogadores e os treinadores que não punem um jogador batoteiro. (E isto para não falar de que um clube, jogadores e funcionários que agridem no seu terreno atletas do outro clube devia pura e simplesmente ser banido da liga por X anos sem olhar a quem).

    Mas há mais. O futebol só desperta os piores instintos nas pessoas. É um desporto inventado para ser praticado por aristocratas, jogado entre eles, em que pequenas imperfeições e um árbitro meio pitosga não interessava muito. O desportivismo acontece entre iguais. Mas tornou-se um desporto para uma plebe canalha ávida de vitórias e de alegorias da sua ascenção social — em que portanto é necessário ganhar custe o que custar. E portanto para muita gente mais vale ganhar com batota do que não ganhar. Dê lá por onde der.

    Todos os desportos são maus, são estúpidos e estão colonizados por labregos, mas há uns desportos que são piores do que os outros: o futebol podia muito bem ser extinto, ninguém ficaria a perder com isso.

    1. O desporto é apenas um entretenimento, o pessoal é que tenta transformar em algo transcendente. Para mim estupidez está em ver o ocupante de Belém a condecorar entertainers como se tivessem praticado uns actos heróicos para a nação. Joguei a nivel federado, mas sem televisão, sei bem quão dificil é o trabalho do arbitro, mesmo eu reclamava a pedir decisões a favor da minha equipa de lances que se tinham passado uns segundos antes e para os quais eu tinha dúvidas quanto à seuência de acontecimentos. É realmente díficil ter-se uma completa fotofráfica ou videográfica lembrança do vimos uns segundos antes. Pessoal que assite jogos amadores sabe bem como é.

      1. Certo. Acredito que do lado de dentro, a jogá-lo, pode ser normal. Mas acho que devia haver mais disciplina e mais rigor do treinador sobre a equipa para impedir simulações, mergulhos, etc. Essas coisas estragam o jogo. Lá os centímetros de fora de jogo também me parece ridículo mas desde quando uma regra é igual para todos, menos mal. Agora, parar o jogo por tudo e por nada para chamar o VAR é absurdo: parecem o Carlos Queiróz a jogar contra Portugal.

  7. A verdade é que o Var é manipulado conforme dá jeito. Não há nenhum software ou que nome lhe queiram dar que consiga decifrar um fora de jogo de 2 cm.

  8. O VAR é uma óptima ferramenta para corrigir erros no imediato, mas preferia um VAR ao estilo dos chalenges do tennis, cada equipa com direito a dois, que os mantém se se a decisão inicial do arbitro estiver errada, se por acaso perde razão duas vezes nos minutos iniciais, até ao fim do jogo não tem mais VARs e tem de se sugeitar às decisões do arbitro. Estamos a chegar ao cúmulo de não assistir a um espétaculo de futebol, mas sim a ficar a assistir à relva crescer durantes as interrupções do VAR, que ainda por cima são escolhidas pelos arbitros. O único problema seria no final do jogo quando uma equipa quer quebrar o ritmo e tendo ainda disponiveis os dois VARs, apenas fazer o pedido para causar uma interrupção, mas essa também não seria longa em lances com poucas dúvidas. Incomodou-me assistir ao campeonato do mundo feminino à 3 anos atrás, parecia de que as arbitras, deixaram de acreditar nas suas próprias qualidades, estavam sempre a interromper os jogos para confirmar as suas decisões no VAR e agora o futebol masculino está a ir no mesmo sentido.

    1. Concordo consigo no que diz sobre as interrupções de jogo, e a perda de ritmo que isso provoca. Mas não concordo com a solução que propõe: o ténis compõe-se de apenas dois jogadores e a intervenção tecnológica consiste apenas em ver se a bola cruzou os limites do terrreno de jogo (e não são apenas duas intervenções – há imensas, ajudando os árbitros, funcionando de modo automático, em particular nos “serviços”, o que há é um limite para as utilizações a pedido dos jogadores). O futebol são 22 jogadores, em constante situação de choque e de fora-de-jogo, o que se pede às ajudas tecnológicas é muito mais. Permito-me insistir no meu ponto: regressar à jurisprudÊncia pré-VAR, se os jogadores “estão em linha” não há fora-de-jogo, o que protege o espectáculo, o acto de criação de ataque e reduz as interrupções e o anti-clímax da anulação (a posteriori da festa do golo)

  9. resmungo com este modo de aplicação videográfica (VAR) no fora-de-jogo, que prejudica a indústria de entretenimento futebolístico

    Todos os desportos atualmente estão rendidos a meios técnicos de avaliação, e é bom que assim seja, porque o desporto é demasiadamente importante – também em termos monetários – para ser deixado ao olho humano.

    O fora-de-jogo por 2 centímetros é o análogo futebolístico da medição das corridas de 100 metros (e não só) ao centésimo de segundo, com vencedor determinado por photofinish.

    Tal como é impensável voltar-se a determinar quem ganha uma corrida (de atletismo, natação, ciclismo, o que seja) através do olho humano, também é impensável voltar-se a avaliar foras-de-jogo dessa forma artesanal.

  10. O mais engraçado é que o FCP é que se devia queixar, porque o var esticou o frame ao máximo para tentar validar o golo. Está demonstrado que nos frames anteriores o fora de jogo ara mais de 2 cm. Abraço

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