1º de Maio


Rui Rocha,

 

A tragédia do Bangladesh não nos deveria deixar indiferentes. Desde logo, pelas mais de 400 pessoas que morreram em condições absolutamente inaceitáveis e pelas suas famílias. E isso é, evidentemente, o aspecto mais dramático da situação. Mas, também, porque esse acontecimento representa a ponta do icebergue de um desastre de repercussões mais vastas. As centenas de milhares de desempregados portugueses e de milhões de desempregados em toda a europa são, em parte, vítimas das condições de trabalho desumanas praticadas no Bangladesh e noutras paragens. A globalização selvagem a que assistimos tem um pé apoiado na exploração da miséria no mundo em desenvolvimento e outro no desemprego assustador que se vive em várias zonas do mundo dito desenvolvido. A imagem deste 1º de Maio não pode ser outra que a de um edifício que desabou sobre 400 trabalhadores a milhares de quilómetros daqui. E a resposta não pode ser a que Matt Yglesias subscreve neste post miserável. Nem a cumplicidade das multinacionais ocidentais que condenam as condições de trabalho desumanas apenas e quando estas são praticadas pela concorrência do oriente mas que as incentivam ou admitem quando estas são postas ao serviço dos seus interesses. A resposta está na afirmação de que há valores mínimos de dignidade que são válidos em qualquer parte do mundo e para todas as pessoas. Foi também essa a mensagem de hoje do Papa Francisco. Qualquer outra posição mais não é do que a admissão da escravatura.

9 comentários em “1º de Maio”

  1. David Mayor, his ambition was to build an “ethical factory” in Bangladesh’s notorious garment industry, but Spanish entrepreneur David Mayor is now a wanted man after his company turned to dust in the Dhaka factory disaster.

    In 2007, the shaggy-haired Mayor gave up his career as a fashion buyer in Spain because he was fed up with not being able to control workers’ conditions and his conscience was bothered by reports of “sweatshop” labour. “Since the beginning I was a bit concerned about the social issues and it was a personal thing,” he told AFP in 2009 at his factory, which was funding a separate training centre where women learned how to sew, as well as English and mathematics.

    His background casts a new light on the story, suggesting that at least some of the factories in Rana Plaza appear not to be the typical “sweatshops” decried by campaigners.

    While Mayor appeared to have tried to improve working conditions for his hundreds of employees, Rana Plaza was an accident waiting to happen. Like many other factories around the capital, it appeared to have violated the building code because of illegal construction, leading to the cracks and ultimately the implosion of the structure on Wednesday morning, police say.

    “We are a factory. Prices are tight. Every single cent is important. We are not an NGO, but in addition we have this social concern,” he told AFP in the 2009 interview.

  2. E nós, caro Rui, que fazemos para contrariar esta e muitas situações?
    Há muito pouco tempo o Belmiro dizia que a solução da nossa crise estaria na redução dos salários, em salários baixos. Se nós tivéssemos um pouco de consciência colectiva, ninguém mais compraria o que quer que fosse no Continente ou similares. Da mesma forma que não compraria qualquer peça de roupa, ferramenta ou o que fosse, que tenha sido produzida em países em que as condições de trabalho são de autentica escravatura.
    Os milhares de milhões que a Europa está a pagar aos seus desempregados. dariam concerteza para esses produtos serem cá fabricados.
    Decididamente não estou a acreditar no sistema ocidental, nestes auto-proclamados paladinos da liberdade.

  3. Palavras, Rui – a que ninguém verdadeiramente liga. Se ligasse, seria até relativamente fácil usar meia dúzia de multinacionais como exemplo, forçando-as a alterar o seu comportamento, como a Nike foi obrigada a fazer há perto de 20 anos (e tens – ou há poucos anos tinhas – fábricas em Portugal cujos empresários podem comprovar as preocupações da Nike em garantir um nível mínimo de bem-estar aos trabalhadores que fabricam os seus produtos). Podia talvez começar-se por esta:
    http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4809496.html
    Mas poucas pessoas estão dispostas a ir além das palavras.


  4. Como já comentei num outro post do Pedro Correia, enquanto não se incorporar o custo social do trabalho nas transacções comerciais, o preço mais baixo será conseguido com trabalho quase gratuito, escravo.

    Ainda bem que o Papa Francisco fala disso, mas não sei a voz dele chega aos infernos da OMC, onde foi implantado o despotismo da desregulação comercial, que favorece os investidores no trabalho escravo.

  5. Excelente reflexão. O mundo das coisas está em todo lado, quando vestimos uma camisa, apertamos um botão, pegamos na mala. Se olhá-se-mos um pouco mais além poderíamos sentir o quanto alguém sofreu com aquilo que agora é nosso.

  6. Obrigada pela sua reflexão Rui e por remeter para as palavras do Papa Francisco.

    Existe um mundo de fancaria onde os preços enunciados pelas etiquetas são uma atrocidade. Por, com o nosso beneplácito, condenarem milhões pessoas por esse mundo fora, também em Portugal, a um trabalho quase escravo.

    Mais perturbadoras do que o desperdício, que pode ser compensado através da doação do que não se necessita, são consequências ambientais e humanas do comportamento convulsivo das fashionistas ocidentais.

    Permita-me deixar o link para a minha reflexão ( anterior a esta tragédia)
    aqui.

    http://camalees.wordpress.com/2012/11/04/a-moda-sem-importancia/

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *