1º de Dezembro de 2011


Pedro Correia,

  

 

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

 

(…)

 

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

 

Poema ‘Pátria Minha’, de Vinicius de Moraes (excerto)

6 comentários em “1º de Dezembro de 2011”

  1. Primeiro de Dezembro

    …” A invasão do duque de Alba no território português não foi somente um facto da política filipina nem uma erupção abrupta do militarismo castelhano.
    Não queridos compatriotas: nós não fomos dramaticamente surpreendidos pelo despotismo da força, como por tantas vezes vos tem sido encarecidamente declamado.
    Nós fomos simplesmente vendidos pela imoralidade e pela miséria. Fomos comprados pela inteligência e pelo dinheiro!
    Quereis saber quais eram as disposições patrióticas do País invadido pelos soldados do rei católico?
    Ouví!
    A principiarmos pelo alto do trono, o amor da Pátria que animava o rei português era de tal modo exemplar a seus vassalos que, poucos dias depois da morte do cardeal, o embaixador de Espanha na corte de Lisboa escrevia oa soberano do seu país que mais algum tempo de vida teria levado o nosso mui alto e mui poderoso senhor a deixar definitivamente estipulada a contento de FilipeII a união da coroa de Portugal com a de Castela. A infausta morte de D.Henrique implicou a política espanhola no sentido de a obrigar a comprar aquilo que se lhe teria feito presente.
    Enquanto ao Governo provisório que dirigiu os negócios públicos depois do falecimento do cardeal, esse era composto de cinco membros, quatro dos quais estavam vendidos a Castela. O último comprado foi o arcebispo de Lisboa, que deu beatificamente por um barrete cardinalício. Esta compra deu lugar a que entre embaixador de Espanha e o sacerdote português se fizesse um trocadilho muito espirituoso com a identidade de cor que apresenta a murça de um cardeal e o sangue de um povo…
    “… O principe D.João, duque de Bragança, tão cavalheiresco na lenda, era no fundo um irressoluto, um pusilâme, cujo ânimo apenas de longe a longe faiscava fugitivamente aos reflexos do valoroso carácter de sua mulher.
    O arrojo vingativamente português e aventuroso do Prior do Crato não achou em todo o País para o seguir senão a impotência, a ideferença ou a lástima. Eram gerais e profundos em todo o reino o cinismo, a imoralidade e a corrupção.
    Os simulacros de hostilidade à ursupação estrangeira foram, na máxima parte, o resultado da cobardia dos caracteres e das hesitações da responsabilidade. A defesa apresentava por toda a parte o carácter de uma indicisão. Resistência em tais condições não é manifestação de valor, é ainda um dos fenómenos de fraqueza.
    Aí tendes, ó festeiros do Primeiro de Dezembro, rápida, mas lealmente desenrolada a vossos olhos, aquela parte da tela da vossa história sobre a qual se desenha o dominio filipino.”…

    ( Apagado o feriado)

    …” Por último, voltando aos regozijos do Primeiro de Dezembro, e considerando que o domínio espanhol não é coisa que mais nos honra no passado nem a que mais temores possa infundir-nos num próximo futuro, pedimos — se ainda vamos a tempo — que na acta da última festa se lavre que:
    Tendo-nos regozijado bastante, cessamos de regozijra-nos”

    Ramalho Ortigão
    Farpas 1876

  2. … a minha pátria é desolação…

    Verdade futura. Acabou-se o 1º de Dezembro, o 5 de Outubro, o 25 de Dezembro, o 1º de Janeiro, o 25 de Abril, o 1º de Maio, o 10 de Junho… porra, este não, os ministros têm de ir enganar os emigrantes.

  3. Ao ler este belíssimo poema, ocorreu-me de imediato um outro, Canção do Exílio, que inspirou vários autores brasileiros nos finais dos anos sessenta. Entre eles, Chico Buarque, Tom Jobim e também Vinicius de Moraes.

    Minha terra tem palmeiras,
    Onde canta o Sabiá;
    As aves que aqui gorjeiam,
    Não gorjeiam como lá.

    Nosso céu tem mais estrelas,
    Nossas várzeas têm mais flores,
    Nossos bosques têm mais vida,
    Nossa vida mais amores.

    Em cismar, sozinho, à noite,
    Mais prazer encontro eu lá;
    Minha terra tem palmeiras,
    Onde canta o Sabiá.

    (…)

    Não permita Deus que eu morra,
    Sem que eu volte para lá;
    Sem que desfrute os primores
    Que não encontro por cá;
    Sem qu’inda aviste as palmeiras,
    Onde canta o Sabiá

    Poema de Gonçalves Dias, escrito em Coimbra.
    Não chegou a ver à sua Pátria, tendo morrido na viagem de regresso.

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